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As principais narrativas que orbitam o Oscar 2026 parecem girar em torno de um mesmo eixo: homens atormentados. Seja em Uma Batalha Após a Outra (grande vencedor desta edição), Marty Supreme, Hamnet, Valor Sentimental ou mesmo O Agente Secreto, o que parece estar em alta neste momento é o retorno dos “heróis” ou “anti-heróis”. Esta percepção não tem passado despercebida por mulheres no setor. Faço parte da MUTIM (Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento), e esta recorrência tem sido debatida dentro da associação.
Percebam a coincidência: todos estes filmes têm como personagens centrais homens complexos, falhos, por vezes geniais, quase sempre tomados por grandes ambições. Homens que não conseguem agir plenamente no mundo, cujo lugar ou posição social parece ter-lhes sido retirado. Homens que têm ao seu lado grandes mulheres, fortes e potentes, mas que se veem impossibilitados de exercer plenamente a própria agência, mergulhados numa espécie de paralisia, tal como Hamlet, de Shakespeare.
É justamente este o enredo de Hamnet, de Chloé Zhao, onde vemos um Shakespeare (Paul Mescal) angustiado, incapaz de realizar o seu desígnio no mundo: ser um artista. Enquanto ele hesita, quem o sustenta, instiga a sua criatividade e o conecta com a terra é a sua mulher, Agnes, intepretada por Jessie Buckley numa performance que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz. Figura quase arquetípica, entre bruxa e curandeira, é a força telúrica que sustenta o gênio masculino. É ela quem diz: “Vá para Londres”. Estamos novamente diante da velha fórmula: por trás de um grande homem, uma grande mulher.
Em Uma Batalha Após a Outra — paródia da política norte-americana contemporânea — encontramos novamente a mulher como motor dos homens. Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor) abdica da maternidade para continuar na luta armada. É a paixão dos dois homens centrais da trama: Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio) e o antagonista Coronel Lockjaw, interpretado por Sean Penn, ganhador da estatueta de melhor ator coadjuvante.
Ainda assim, Perfidia permanece sobretudo no background. No centro está Bob Ferguson, que na juventude sonhou com a revolução apenas para se tornar uma caricatura do revolucionário decadente, um pai solo, hippie, démodé e meio cringe, que envergonha a filha, como um Grande Lebowski da geração millennial.
Mario Anzuoni/ Reuters
De forma semelhante, mas não idêntica, a personagem de Wagner Moura em O Agente Secreto é uma espécie de James Bond sem armas, sem ação ou explosões. É também um pai solo, que perdeu seu cargo universitário, encontra-se paralisado, à espera dos papéis do exílio que o libertarão da clandestinidade e da perseguição política. Vive acompanhado pela memória da sua mulher — também uma figura potente — que atravessa a trama como um fantasma.
Mito americano
Já o protagonista de Marty Supreme (Timothée Chalamet) é deliberadamente construído como uma figura insuportável na sua megalomania. Acredita ser superior ao resto dos mortais e se recusa aceitar que não ocupará o lugar de vencedor que a cultura promete ao homem. Seduz e depende de duas mulheres, Rachel Mizler (Odessa A’zion) e Kay Stone (Gwyneth Paltrow), que funcionam como escadas para a sua ascensão.
Marty aproxima-se da socialite apenas para chegar ao seu marido, magnata americano, a fim de convencê-lo a financiar a sua viagem ao campeonato de pingue-pongue no Japão. O filme termina com aquilo que parece ser o ápice simbólico da vida masculina: Marty torna-se pai, transmite o seu nome, o que inscreve-o definitivamente na ordem patriarcal almejada.
Algo semelhante ocorre em Sonhos de Trem, indicado à melhor fotografia. O personagem principal é um homem comum, Robert Grainier, que presencia o mito da fundação americana numa visada à la Walden ou Walt Whitman. O filme acompanha a expansão para o Oeste, marcada pela destruição das florestas e pela construção das estradas de ferro, encarnando a doutrina do “Destino Manifesto”.
Nesse imaginário, a realização do mito americano passa pela conquista da terra e por dois grandes pilares: propriedade e família. Tragicamente o protagonista perde essa “fundação” num grande incêndio que lhe destrói casa e família — como se a natureza se vingasse, prenunciando o desequilíbrio ambiental do nosso tempo. Torna-se um espectro do seu próprio século, um ermitão que vagueia pela floresta: uma narrativa sobre o luto do ideal tradicional norte-americano.
Em Valor Sentimental, vencedor do Oscar de melhor filme internacional, a narrativa centra-se na figura do pai (Stellan Skarsgård), supostamente coadjuvante, mas com tempo de tela quase igual ao da protagonista (Renate Reinsve). Cineasta que negligencia as filhas após o divórcio (cuja ex-mulher é uma figura invisível), tenta, anos depois, reconquistar uma delas oferecendo-lhe um papel.
Danny Moloshok/ Reuters
A filha, atriz premiada, recusa, magoada pelo passado. O pai rapidamente recorre a outra atriz americana (Elle Fanning), quase para provocar ciúmes e uma competição feminina por si. O filme promove uma reconciliação de traumas intrageracionais: o diretor recupera a família e a casa que havia abandonado — volta, enfim, ao seu lugar “originário”.
Talvez seja inevitável perguntar se estamos assistindo a um retorno. Entre 2010 e 2015, parecia existir um deslocamento nas narrativas audiovisuais: mulheres, minorias raciais e sujeitos dissidentes começavam a ocupar o centro das histórias. Hoje, olhando para a paisagem atual, talvez possamos reconhecer que aquilo foi, em parte, uma tendência de mercado.
Uma roteirista que trabalha para plataformas de streaming contou-me recentemente uma história reveladora. Foi contratada para desenvolver uma comédia romântica cuja protagonista seria uma mulher negra recém-divorciada. Meses depois, chegaram novos dados de audiência: a maioria dos assinantes pagantes era de homens brancos com mais de quarenta anos que diziam sentir falta de se ver representados.
A orientação mudou. A história passaria a centrar-se num homem branco quarentão. A narrativa podia permanecer a mesma. Bastava mudar quem estava no centro. Será isso que estamos vendo agora? Um ajuste silencioso das histórias ao público que se acredita dominar o mercado?
Estatuto masculino
Há também um pano de fundo cultural mais amplo. Nos últimos anos assistimos ao crescimento da chamada “manosfera”, associada a ideologias como a “red pill”, que interpretam transformações sociais recentes como perda de estatuto masculino. Ao mesmo tempo, vários estudos indicam que rapazes enfrentam hoje dificuldades específicas: desempenho escolar mais baixo, menor presença no ensino superior, maior isolamento social e uma maior adesão a agendas neoconservadoras.
Influenciadores lucram precisamente com essa sensação de perda, numa mistura de autoajuda, hipermasculinidade, ressentimento e nostalgia por hierarquias de gênero mais tradicionais. Nesse contexto, proliferam discursos que apresentam os homens como um grupo em crise.
Não é absurdo perguntar se esta ansiedade social e o clima cultural mais amplo começam também a infiltrar-se, ainda que de forma indireta, nas salas de roteiristas e nos fundos e patrocínios que sustentam o cinema comercial. Se durante algum tempo parecia existir um esforço para deslocar o centro das narrativas, talvez estejamos agora a assistir ao movimento inverso: a necessidade do regresso a figuras masculinas, num momento em que a masculinidade se sente fragilizada.
Não se trata aqui de acusar esses filmes (ou os seus realizadores) de aderirem a discursos misóginos. Alguns dos personagens supracitados muitas vezes nos enervam mais do que despertam empatia — há, claramente, uma crítica implícita nisso. São personagens falhos, é verdade, profundamente humanos (e ainda bem).
Mas, no fundo, a questão permanece em aberto: quem pode ocupar o centro simbólico das histórias? Não é um assunto resolvido ou superado; estará sempre em disputa. Trata-se de saber quem pode falhar, abandonar, desaparecer e regressar — até mesmo ser um bocadinho risível e ridículo — mas, ainda assim, não deixar de ser o herói.
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