
Um amigo meu que, por qualquer razão (talvez apenas pela estima entre nós de muitos anos), gostava de ler a minha colaboração ocasional no PÚBLICO, pergunta-me insistentemente por que deixei de escrever para o jornal, tendo em conta o significado histórico das guerras que, infelizmente, abalam o Médio Oriente, a Europa e a América, para não falar das sempre silenciadas guerras do Sudão e da guerra repressiva do Estado talibã, nomeadamente contra as mulheres, no Afeganistão. Porque não falo de Putin, de Trump, de Netanyahu e de outros ditadores que estão a destruir o conceito de Democracia e da Ordem Internacional? Respondo-lhe que há muito não escrevo porque — além de alguns artigos anteriores terem sido enviados para o PÚBLICO “em linha”, de que não gosto, pois sempre li os jornais em papel — está tudo dito. Ou seja, deixo o que resta dizer para os comentadores políticos, os chamados especialistas e os estrategas militares que se vão entretendo, com proveito ou sem ele, com a função de simplesmente falar, ressalvando honrosas excepções de alguns que estudam verdadeiramente os temas e nos dão, efectivamente, novidades. Só para falar do último artigo que li, gostei de saber, através de um artigo no Diário de Coimbra do professor de Medicina Américo Figueiredo, que Trump padece da síndrome de Hübris, descrito há muito pelo neuropsiquiatra David Owen. Húbris significa em grego qualquer coisa como uma impetuosidade orgulhosa e insolente, egocêntrica e sem consciência da realidade.
Obviamente a invasão da Ucrânia foi mais um golpe imperialista da Rússia de Putin, Rússia que agora não é dos czares, nem soviética, nem democrática. Netanyahu, que deveria defender o direito adquirido do Estado de Israel, através, quando muito, de uma guerra defensiva, depois do criminoso golpe de 7 de Outubro de 2023 perpetrado pelo Hamas, aproveitou as circunstâncias para fazer uma guerra ofensiva contra a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, e agora contra o Irão e contra o Hezbollah no Líbano. A loucura de Trump levou-o a atacar o Irão, beneficiando a indústria da guerra e subvertendo todas as leis internacionais e internas dos Estados Unidos, contra a União Europeia, contra a própria NATO e à margem da Constituição e dos poderes do Congresso, depois de, num golpe inacreditável, ter prendido o presidente Maduro e sua esposa, na Venezuela, para serem julgados nos Estados Unidos!
A húbris de Trump e dos seus seguidores do Partido Republicano, mais preocupados com as benesses políticas e económicas do que com os princípios políticos e éticos, fez esquecer a história milenária do Islão, que, quando se apega ao fundamentalismo, jamais abandona os conceitos e os costumes ancestrais da sua religião ou até os reforça, tirando sentido ao movimento da oposição em prol de uma teoria e de uma prática secularizadoras do Estado e do princípio da separação do Estado das igrejas, sejam elas quais forem. E fez perder a força e até o significado da oposição que grassava na Venezuela, contra a religião política de Hugo Chávez e de Maduro, ao mesmo tempo que abandonou a Ucrânia à sua guerra defensiva.
Agora, depois de Trump ter feito esta guerra inútil, o que vai acontecer? Todos sabemos, além de que as guerras acabam por não ter fins felizes, que nunca conhecemos o futuro. Parafraseando uma frase irónica utilizada para adivinhar o resultado de um jogo, “prognósticos só no fim da guerra”. A história não é algo que se preveja. As excelentes análises do que se passou, com as críticas necessárias, nunca podem prever o que se vai passar — é esta a única lição que podemos tirar da observação dos factos. O resto é apenas um ramalhete composto de palavras, sempre pouco credíveis e sobretudo de grande inutilidade. É o avassalador “mundo do espectáculo”!
No ano em que se celebra o 140.º aniversário do nascimento de Marc Bloch, fuzilado sumariamente pelos nazis na França de Vichy, por pertencer à Resistência, continuamos a estudar “os homens no tempo”, pois, como dizia Michelet, citado pelo historiador dos Annales, “Aquele que queira ater-se ao presente, à actualidade, não compreenderá a actualidade”. Resta-nos desejar, como diz a heroína de um dos meus westerns de eleição, embora pouco reconhecido pelos críticos, depois de ter havido duelo após duelo e de sair vencedora contra o ditador: “Voltou a lei à cidade”. Assim seja, mas a lei e a cidade já não voltarão a ser as mesmas.
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