Não é isto a distopia?

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Sempre tive alguma aversão a conversas de circunstância, talvez porque não tenha jeito. Lembro-me de em miúda “entrar muda e sair calada”; hoje acontece menos, que aprendemos tudo, aprendemos que é o mais correcto se queremos socializar ou, simplesmente, sermos educados. Lembro-me de na faculdade, haver intervalos que me aborreciam de morte porque, na minha cabeça, devíamos estar a discutir o que dizia Chomsky — sim, que também está nos ficheiros Epstein, quem não está? —, um livro ou um filme e, em vez disso, tínhamos conversas banais ou estávamos em silêncio a jogar às cartas no bar. Aqueles eram os melhores anos da nossa vida e nós a desperdiçá-los, pensava em desespero. Por isso, vos contava a semana passada como tinha tido a melhor conversa de cabeleireiro de sempre.

Normalmente, o tema de conversa no cabeleireiro é um só: como tenho uma vida espectacular e faço questão que o mundo saiba. Ali parece que todas as clientes são instagrammers: têm famílias fabulosas — eu não me posso queixar! —; têm ou tiveram trabalhos impressionantes — nem o meu colorista sabe o que é que faço na vida e eu adoro a minha profissão! —; têm casas faustosas; fazem festas de aniversário ou vão a casamentos fantásticos. E eu sorrio, participo quando sou interpelada directamente, desligo o cérebro e ouço um blablabla de fundo. Até que, a semana passada, uma professora de secundário em vésperas de se reformar começa a falar de temas que domino. A dada altura, a conversa era só entre nós as duas e imagino que no cérebro dos outros se ouvisse apenas blablabla.

Os cérebros não são todos iguais e a Rita Caetano falou com a neurocientista e jornalista de ciência Helen Thomson que dá exemplos concretos de cérebros muito diferentes, são “cérebros extraordinários”. Para a autora, a importância de compreendermos que não há cérebros iguais, deveria promover a curiosidade sobre as diferenças humanas, além de ajudar a explicar porque é que as percepções da realidade variam tanto. “Se houvesse uma melhor compreensão disto, faria uma grande diferença em muitas questões importantes que estão a acontecer no mundo”, defende.

No seguimento do trabalho sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) nas nossas relações, sobretudo das gerações que começam agora a namorar, para o qual a jornalista Rita Caetano ouviu diversos especialistas estrangeiros (não porque sejam estrangeiros, mas porque têm investigação sobre o assunto), houve uma que ficou de fora desse texto: a economista e professora britânica Noreena Hertz. O ano passado, a especialista fez três grupos de foco com jovens entre os 18 e os 22 anos e classifica como “assustador” o que constatou: os miúdos usam a IA para tudo, até para saber o que vestir de manhã. Uma dependência total, onde se perdem competências sociais, o que levará a uma sociedade cada vez mais isolada e solitária — se eu falo com o chatbot e ele me diz o que eu quero ouvir, porquê falar com pessoas que me podem contrariar?

Mas há mais, o cérebro é um músculo que precisa de ser exercitado e se não o fazemos, vamos perdendo competências e, em última instância, perdemos o que nos distingue dos outros seres vivos. “O pensamento crítico é muito importante e sustenta a democracia. Para que os cidadãos tenham a capacidade de avaliar a informação e de a questionar, esta não pode ser externalizada para um robô cuja produção é muitas vezes opaca e muito difícil de ser totalmente analisada”, declara.

Se não viu, ainda está nas salas de cinema o documentário Orwell 2+2=5, do cineasta haitiano Raoul Peck, que entra no mundo distópico de 1984 de George Orwell, mas também em A Quinta dos Animais, com o propósito de nos fazer ver que caminhámos para a distopia e já chegamos. Esta está a acontecer agora. Neste momento. Quantos de nós, acreditamos mais no que nos diz o Dr. Google do que no nosso médico de família? Do que nos dizem as redes sociais de determinados partidos do que nos órgãos de comunicação social? No que o chatbot diz para vestir, comer, fazer, do que na nossa própria mãe… Não é isto a distopia?

Dizia a professora do secundário em vésperas de se reformar que o que se passa com os seus alunos é que não conversam com ninguém. Nem com os pais, nem com os avós — os avós perderam importância na vida dos netos, eram eles que podiam contar-lhes o que era viver antes do 25 de Abril. “Eu vivi 14 anos e posso dizer-lhe que não era essa maravilha que agora apregoam”, diz-me. “Chegam a casa e só têm conversas de circunstância. Por isso, comem tudo o que vêem nas redes sociais”, continua. No podcast Cultas e Vinho Verde, a actriz Isabel Abreu conta a Inês Meneses que as horas de refeição são para conversar com os filhos, falar do que se passa no mundo, são para reflectir. A professora do cabeleireiro não estava a sacudir a água do capote porque não tem dúvidas que a escola é importante, “cada vez mais, quando os pais se demitem das suas funções”, queixava-se. Sim, a escola é importante e no podcast Birras de Mãe, Ana e Isabel Stilwell falam sobre os dez pecados capitais da educação. E, para fechar o parágrafo dos podcasts, não esquecer o A Vida não é o que Aparece, de Inês Duarte de Freitas, esta semana com a actriz Matilde Breyner. O tema não é fácil e nem sequer é muito falado: a perda gestacional.

No final da semana, a Inês Duarte de Freitas também andou ocupada com a contínua queda do ex-príncipe André, que agora é apenas Andrew Mountbatten-Windsor, Na quinta-feira foi detido por má conduta em funções públicas. Os ficheiros Epstein dão conta que terá fornecido documentos ao financeiro norte-americano. Nesse dia, a família real prosseguiu com os seus afazeres e o rei Carlos III, irmão mais velho de Andrew, veio a público declarar que “a lei deve seguir o seu curso”. O rei foi à Semana da Moda de Londres e Andrew saiu no mesmo dia da esquadra onde foi interrogado. Na sexta, as buscas prosseguiram e, embora seja praticamente impossível Andrew ascender ao trono, já perdeu tudo o que havia a perder, inclusive a casa onde viveu as últimas décadas, a verdade é que continua em oitavo na linha de sucessão, atrás dos sobrinhos e sobrinhos netos. Na sexta-feira à noite, o Governo de Starmer anunciou que pondera avançar com uma proposta legislativa para afastar o ex-duque de York da linha de sucessão. 

Desde que os ficheiros foram tornados públicos que já várias pessoas foram afastadas das suas funções públicas. Fazemos aqui um apanhado, que perde actualidade a qualquer momento porque “a procissão ainda vai no adro”. O que me impressiona, e até pegando no caso do ex-príncipe britânico, é que as investigações não incidem sobre os abusos sexuais contra menores. As mulheres que durante anos e anos denunciaram o que se passou com elas, testemunharam o que viveram, continuam sem ser ouvidas, continuam sem ter direito a justiça. A economia é mais importante que os direitos humanos, que os direitos das mulheres.

Com tanta distopia, o melhor para o nosso cérebro é desligar, por instantes. Nas últimas semanas, o meu desliga à sexta-feira, não porque seja véspera de fim-de-semana, mas porque há um novo episódio de Heated Rivalry — infelizmente termina já esta semana. São seis episódios, mas vem aí segunda temporada. Tal como aconteceu com milhares de espectadores na América do Norte, deixei-me apanhar pela febre da série canadiana que retrata o amor entre jogadores de hóquei no gelo, um desporto altamente competitivo e masculino. Dizer-vos que Heated Rivalry é muito mais do que sexo queer, mesmo muito, é comunicação, é intimidade, é o que muitos, independentemente da orientação sexual, procuram numa relação a dois. Daí o seu sucesso. Juntámos cinco curiosidades sobre a série que são também coisas boas que aconteceram em sequência de esta ir para o ar. Precisamos de coisas boas para manter a sanidade mental. 

Boa semana!

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