Há cerca de uma década li um livro que me marcou profundamente, escrito pelo famoso filósofo Byung-Chul Han. Em A Sociedade do Cansaço, descreve-se uma mudança profunda na forma como vivemos e nos exigimos: deixámos para trás uma sociedade marcada pela disciplina e pela obediência e entrámos numa lógica em que cada pessoa se torna responsável por se pressionar a si própria. Já não há um “tens de fazer”, mas um “podes sempre fazer mais”, que soa a liberdade mas acaba por gerar autoexploração constante. O problema, segundo o autor, é que esta obsessão com o desempenho, a produtividade e a superação contínua elimina o espaço para o descanso, para a pausa e até para o simples não fazer nada. O resultado é um cansaço que vai muito além do físico, um esgotamento mental e emocional que se manifesta em fenómenos cada vez mais comuns como o burnout e a ansiedade.
Ora, ainda que esta teoria se aplique à forma global como a sociedade vive e se organiza, a alimentação e a procura de uma melhor saúde e composição corporal estão claramente incorporadas neste grande emaranhado de emoções. E não me refiro a cansaço com os sabores de alimentos saudáveis, ou até mesmo ao ato de cozinhar. O desgaste começa antes, no momento em que a comida deixa de ser apenas comida e passa a ser um potencial problema. Nas idas ao supermercado, por exemplo, em que se olha de forma aprofundada para os rótulos, tentando comparar com outros alimentos da mesma gama, e em que frequentemente não se chega a grandes conclusões.
A verdade é que nunca se falou tanto em nutrição e alimentação, assim como no seu impacto a diferentes níveis. O problema vem com os estudos citados fora de contexto, listas de “evitar”, alimentos promovidos como salvação e outros tantos como condenação. Ao mesmo tempo, nunca foi tão comum ouvir pessoas cansadas, confusas, frustradas com a própria relação com a comida. Pessoas que sabem, em teoria, o que deveriam fazer, mas já não têm energia mental para o aplicar.
E isto porque nos querem fazer acreditar que “comer bem” não é apenas comer hortícolas suficientes e evitar excessos. Tudo parece passar por escolher os alimentos certos, da forma apropriada, numa quantidade previamente calculada, e alocá-los nos momentos do dia mais alinhados com o que a fisiologia exige. Passa ainda por desconfiar de ingredientes, equilibrar macronutrientes, pensar no intestino, na inflamação, no açúcar escondido, no processamento. Tudo isto enquanto se trabalha, cuida de filhos, cumpre horários, equilibra as finanças familiares e tenta ter uma vida minimamente funcional.
Há, porém, um ponto em que este cansaço deixa de ser desgaste e começa a tocar algo mais sério. Quando a preocupação com comer bem se torna ansiosa e inflexível, quando se evitam convívios ou se sente uma culpa intensa pelos pequenos desvios àquilo que é considerado ótimo. Este fenómeno é, atualmente, denominado ortorexia, e afeta cada vez mais pessoas nas sociedades tidas como mais avançadas. Nestes casos, não se trata de querer comer saudável — até porque isso seria comum e desejável. Trata-se de quando o “saudável” deixa de ser um guia e passa a ser uma obsessão, criando um paradoxo: a procura por uma melhor saúde acaba por condicioná-la. E muitas vezes passa despercebida, porque vem mascarada de disciplina e de autocontrolo.
Tudo isto me tem levado a pensar no meu papel enquanto nutricionista. Como me posicionar, como comunicar, o que focar e como contribuir para uma melhor relação com o ato de comer? É que o ato de comer, que durante séculos foi algo intuitivo e com cariz social, transformou-se para muitos num exercício de vigilância permanente, um pequeno exame repetido várias vezes ao dia.
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Com tudo isto, não me insurjo, naturalmente, contra a nutrição e a sua importância. Nem tão pouco questiono quem, por variadíssimos motivos, gosta de olhar para o seu dia alimentar com algum rigor. Até porque, se fosse o caso, teria de mudar de área profissional. Mas a verdade é que repenso, mais do que nunca, o prisma através do qual se deve comunicar nutrição, de forma a contribuir para uma melhoria efetiva da qualidade alimentar global com o cuidado de não potenciar padrões comportamentais perniciosos.
E, para fechar, uma segunda referência cultural nesta crónica, já que não diria melhor do que Capicua numa letra escrita em 2020, mas cada vez mais atual: “Tu tás farta de segundas / e de terças e de quartas / e de quintas e de sextas / até das folgas te fartas / Há brunch e sumos detox / laser e botox / Porque há secas / E dietas, e profetas e blogs.” Nem mais!
O autor escreve segundo o AO90
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