O carnaval e o extremamente desagradável

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Adoro o humor de Joana Marques na mesma proporção em que morro de medo de ser uma das perfiladas. Não gosto de mim a ponto de ser alguém boa para o programa, mas sou estúpida (e falastrona na internet) o suficiente para, procurando, achar. Tenho até uns poemas bem vergonhosos que meu terror seria a Joana vê-los (Joana, se estiver lendo isso e quiser uns exemplos, posso enviar por e-mail).

Quase todos nós temos bons motivos para sermos ridicularizados. Eis o ponto, a Joana Marques tem bom olho pro ridículo e boa língua para aumentá-lo. O glitter do comediante é poder exagerar no ridículo do outro e de si mesmo fora do carnaval. E talvez seja exatamente por isso que a época me fascina: é o único momento do ano em que todo mundo ganha autorização prévia para ser material do Extremamente Desagradável e a própria Joana Marques ao mesmo tempo.

Viver o carnaval fora do Brasil é uma ótima oportunidade para desativar o Instagram. Mas aqui, cada vez mais, tem motivos para brasileiros nostálgicos não reclamarem. Tem blocos ótimos, como o BLOCU, os do Baque Mulher, o Qui Nem Jiló e outros tantos, com menção honrosa ao trabalho da Matuta, Duda Meireles, como a ambulante (“ó o pesado!”) que leva Gabriela aos foliões saudosos.

Mas, sejamos honestos, não é o Brasil. E parte de nós não quer apenas um carnaval, quer “o” nosso carnaval. Venho de São Paulo, então conheço bem essa sensação de “é carnaval, mas é um outro carnaval”. O de São Paulo virou carnaval mesmo nos últimos 10, 15 anos. E talvez Lisboa esteja vivendo isso agora, um carnaval virando o seu tipo de carnaval. Tem que dar tempo, investimento e foliões.

No meu primeiro carnaval em Lisboa, sai fantasiada de telefone do SEF (sempre ocupado) e meu companheiro de estereótipo do português migrante no Brasil, o da padaria. Ai que delícia zoar tudo o que a gente mais odeia. O riso como vingança mínima e simbólica. O riso como ajuste de contas. E é aqui que volto à Joana. Porque o que ela faz o ano inteiro, amplificar o ridículo alheio e o próprio, o carnaval faz de maneira coletiva, difusa e quase terapêutica. Pharmakon: remédio e veneno.

Aí meu apelo: precisamos urgentemente errar mais nas avenidas (ou nas ruelas) portuguesas. Carnaval é sobre rir do opressor e do que nos oprime, desejar sem pudor o que nos assusta. Não como no Halloween (essa festa tão sem libido), mas com liberdade e tesão.

E rir do ridículo, mesmo o nosso, é uma delícia.

“Achamos muito difícil manter a nossa dignidade enquanto caminhávamos pelas ruas”, disse Charles Darwin em 1832 ao visitar o carnaval de Salvador. Historicamente, na Europa e fora dela, carnaval sempre foi sobre inverter papéis e bagunçar hierarquias. O carnaval português, o tradicional, também é isso. A ordem se desmancha, autoridades são parodiadas, a rua vira palco de exagero e peças.

Nessa época do ano, a dignidade sempre esteve em risco. Que delícia.

Voltando à Marques, uma vez, numa entrevista sobre poesia escrita e poesia oral, eu disse que achava importante saber colocar na boca o que toquei com as mãos e até hoje tenho pesadelos com essa fala fora de contexto (novamente, Joana, posso passar a minutagem, se quiser). Uma frase que fazia tanto sentido na minha cabeça e que ficou tão ridícula quando disse em voz alta e está por aí gravada e online.

Neste momento em que tudo parece vigilância, autocentramento e medo de errar, o carnaval pode ser a possibilidade do descontrole autorizado sem que viremos podcast na quarta-feira. (Mas, novamente, Joana, “se a internet me quiser…”).

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