O Coração Ainda Bate. A sorte grande

0
1

Mais um almoço, cá em casa, entre amigos, que se transformou numa maratona de partilhas e riso. Estar à mesa e ficar, sem olhar para o relógio, é um prazer de adultos. Valeu a pena crescer também por isto. Ficamos à mesa por saber que o tempo tem outro valor e porque vamos escolhendo com critério com quem o queremos passar. Amadurecer talvez seja isto mesmo: escolher com quem queremos passar o nosso tempo. E isto é válido para amigos e amores.

Ao almoço, partimos todos do mesmo lugar na meta: vimos com a visão clara e nítida, até quando a noite foi mal dormida. A casa organiza-se para receber quem queremos ver. Acontece-me perder o sono na véspera de uma refeição partilhada, pelo entusiasmo que gera. São os detalhes e os amigos – os amigos que também são feitos de detalhes.

Depois da chegada, em que todos se apresentam parcimoniosos, mesmo que o à vontade esteja à mesa, os amigos começam a fazer partilhas, comentários, desabafos. Nada disto estava em mente quando aqui chegaram; aliás, não é invulgar que decretemos prévias fronteiras que não queremos ultrapassar, mas, ao segundo brinde, já a cerca está levantada e as palavras entram disparadas e crescem enquanto o prato se esvazia.

A refeição entre amigos torna-se a terapia que todos fazemos por prazer. É comum acontecerem pequenas epifanias, que nascem da clarividência das palavras dos outros, e facilmente nos fortificamos, quando os outros são mesmo nossos amigos. Volto à questão da importância do tempo: não vale a pena estarmos à mesa com pessoas que estão à espera de um deslize nosso ou que traziam três ou quatro palavras de lado para nos acertarem com elas. Os amigos não fazem ajustes de contas. A premeditação não está à mesa quando falamos de amizade.

Não raras vezes acontece-nos pensar se teremos falado demasiado. Sobretudo se houve partilhas mal calculadas. Ora, entre verdadeiros amigos já se conhecem as particularidades de cada um. Eu posso amar um amigo e saber que ele não resiste a uma confidência e que faz dela a notícia do dia. Não é relevante. A partilha nunca é descabida, se representou uma alegria ou um alívio momentâneo. Os outros é que devem ser merecedores de a receber.

A dada altura, nada é mais edificante para um adulto do que estar à mesa com os amigos. Até se, no dia seguinte, houver um pedido de desculpas por vergonha, por um ou outro excesso que nos parece maior do que realmente foi. É isso que os amigos fazem: minimizam estragos e retiram importância aos danos. Não houve dano nenhum. Ninguém cai do precipício quando está entre amigos.

O almoço de sábado, cá em casa, entre amigos ultrapassou a hora do jantar. Ainda havia flores na mesa, os pratos tinham vindo a ser substituídos, água e vinho dançavam nos copos, as velas iam a meio e a música estava ali em tom mais baixo do que as nossas vozes. A dada altura, já o corpo cedia a um certo cansaço e alguém se precipitou para a despedida. Não foi convincente a intenção. Os amigos nunca querem ir embora se estão felizes. E a casa também não se queixa. Rapidamente, a música que estava ali discreta se impôs e acabámos a noite, que tinha começado no fim da manhã, a dançarmos juntos. Adultos destemidos que não deixam que a idade os derrube.

Há muitas coisas que podemos fazer quando somos crescidos, temos saúde e conforto. Há quem viaje, queira conhecer o último restaurante que está sempre cheio ou vá de prancha até à praia. Todos os caminhos são válidos para convocarmos a nossa alegria, mas nenhum se compara à felicidade de termos bons amigos. Essa é que é a sorte grande da vida adulta.

O coração ainda bate.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com