
Os meus pais nunca tiveram carro. É curioso porque, sendo o meu pai um homem determinado, que batalhou imenso na vida, deixou caducar a carta sem que isso o afectasse muito. Quando viemos de Lisboa para Mindelo, primeiro vivemos perto da praia e o meu pai fazia mais de dois quilómetros a pé até à estação, para ir trabalhar para um banco no Porto. Nunca o ouvi falar de carros. Somente da casa que construiu com o resultado do seu trabalho.
Também me lembro do momento em que pagou o empréstimo da casa por completo e de isso ter sido um motivo de orgulho. A cada um, o seu. Eu, até à adolescência, lamentava o facto de os meus pais não terem carro. Andar a pé e à chuva não é uma boa memória, mas, passados estes anos todos, quase admiro o facto de o meu pai nunca se ter deslumbrado com os motores e as cilindradas. Podia, em qualquer altura da vida dele, ter comprado um carro e não o fez. Nunca soube bem porquê. A verdade é que eu também não tirei a carta. Eu, que lamentava a falta de viagens que não fossem as do comboio.
Havia, ali ao lado de casa, a prima Micas, parentesco afastado, mas prima por insistência, já que mais ninguém de família vivia perto de nós. Prima Micas, mulher grande e forte, mais velha do que a minha mãe, conduzia o seu carocha azul-bebé que eu adorava. E com ela fazia pequenas viagens para meu deleite. Estofos axadrezados e com ar sempre novo, uma vez que o Wolkswagen ficava parado muito tempo na garagem. Talvez se a Prima Micas me tivesse prometido em herança o “Boguinhas”, como ela lhe chamava, eu tivesse motivação para estar hoje a guiar de cabelo ao vento.
Eu não tenho carta e o meu marido também não. A minha filha, com 18 anos, a minha esperança para viagens de longo curso no asfalto quente, também recusa por agora a condição da condução. Tem outras prioridades. Eu também tive, nomeadamente não ter qualquer prioridade, a não ser gozar os meus dias sem muitos espartilhos.
As pessoas ficam sempre espantadas quando digo que não conduzo ou guio. Também dava uma crónica isto de usarmos determinadas palavras em diferentes contextos sociais. Deus me livre de alguma vez dizer “encarnado”… Mas falava da carta e da condução porque na verdade queria hoje falar de prioridades. Apesar de me ter custado muito na altura, acho agora notável o meu pai nunca se ter perdido em consumições com o consumo automóvel. Achamos formidável que os nórdicos não tenham carro e que se desloquem para o trabalho de transportes públicos, mas em Portugal não ter carro é coisa de pobre. Ter o carro à porta e poder puxar-lhe o lustro ao domingo, com a camurça, é melhor do que ler um livro. Até porque, assim, o vizinho pode roer-se de inveja. E um livro lido não é troféu nenhum.
Eu habituei-me a ser uma encartada falhada, que nunca pôde confirmar o seu estatuto pelo carro mostrado. Com isto não descarto a possibilidade de um dia vir a conduzir, embora ninguém tenha essa fé em mim. Riem-se, com algum desdém, sempre que digo que ainda vou andar pela estrada a cantar, enquanto ponho o cotovelo na janela do meu “boguinhas”. Também nunca me ocorreria chamar este nome ao meu carro, se o tivesse. Se tivesse um carro chamava-lhe Ricardo. Ou Ricarro.
Custa muito aos outros aceitar as escolhas pouco normativas. É válido para tudo; não ter carta, ser gorda quando podia fazer um esforço para caber nas roupas que usa, estourar dinheiro naquilo que parece um desperdício se a vida é feita de sacrifícios e tudo deve ser poupado, usar cabelo comprido se não se é uma mulher, ter uma sexualidade que até podia ser contrariada. São tantas as coisas grandes e pequenas que nos trazem o espanto, por não caberem no nosso formato – aquele que nos impingiram desde sempre.
Não é de estranhar que, perante a diferença, a resposta seja sempre a perplexidade e infelizmente o ódio. São séculos de modelos decalcados da norma. Provavelmente foi alguém que se sentia desadequado a criar um padrão normalizado. Há quem, sentindo-se diferente, aposte no rebanho, em vez de premiar a ovelha que destoa.
Os diferentes nunca terão a minha indiferença. É preciso coragem para destoar.
E aqui vou eu de viagem, num carro que me leva aonde quero chegar. Se eu estivesse a conduzir como é que podia ter escrito esta crónica?!
O coração ainda bate.
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