O Coração Ainda Bate. “Love Story”

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Eu sei que as séries vieram roubar tempo e espaço à leitura, ao cinema, até à vida com os amigos e, muito provavelmente, ao encontro com o amor. Normalmente não é em casa, sozinhos, que o amor nos acontece. Hoje em dia, talvez pelos obstáculos que um amor nos pode erguer, preferimos muitas vezes ficar no sofá (ou na cama) a ver uma série. Nas séries acontece o amor e a capacidade de sonharmos que esse amor ainda é possível. Normalmente é. Custa-nos é sair do sofá.

Serve o preâmbulo para dizer que me tenho dedicado, de forma obsessiva, a uma série. Chama-se Love Story, é mais uma produção de Ryan Murphy e conta a história de amor de John F. Kennedy Jr. e de Carolyn Bessette. Quando falei a um amigo desta série, ele respondeu-me: “já chega de séries sobre ricalhaços”. E eu sorri, assentindo, e logo de seguida fui ver mais um episódio.

Por que razão está meio mundo paralisado nos anos 1990, de volta aos Portishead, aos figurinos minimalistas de Calvin Klein e sobretudo a escavar a intimidade de um casal que morreu precocemente num acidente de avião em 1999? Porque nos é difícil resistir à beleza dos outros, até quando dela desdenhamos, porque o passado facilmente se torna um lugar apetecível e idealizado e porque aquela parcela de tempo antes do início do novo século nos trouxe de facto uma criatividade fora de série. Podia invocar mais motivos, sendo que o maior de todos é a história de amor entre o menino bonito da América e uma mulher que destoou do aparato mediático de então. Provavelmente não estariam casados nos dias de hoje, mas o fim abrupto da vida de ambos cristalizou o amor deles, o nosso tempo.

Ainda não analisei como devia a minha obsessão pela série. É certo que, como muitos, também eu não resisto à beleza, embora o que me encante esteja muitas vezes para além do óbvio. O facto de já ter visto duas vezes cada um dos cinco episódios disponíveis leva-me a pensar que há aqui qualquer coisa mais. Aliás, nunca fiz isto com nenhuma outra série, tendo revisto com tempo e paixão Mad Men, a Balada de Hill Street, Mildred Pierce ou a Balada de Nova Iorque. A forma como nos ligamos a uma série diz mais de nós do que pensamos. Já a forma como o algoritmo nos inunda com este conteúdo está para além do nosso pensamento.

Em casas diferentes, vejo em simultâneo, com a minha melhor amiga, “Love Story”. A dada altura ela terá dito: “mas estes anos 90 foram tão especiais”. E eu fiquei a pensar: terão sido?

Na internet, como sempre acontece, toda a gente tem uma opinião sobre o amor do casal improvável; o fosso que se cavava entre os dois, a pressão da família, o estilo minimal de Carolyn Bessette, que está a ser recuperado do perfume às peças que usava. Ela discreta, sem momentos televisivos. Ele bonito e mediático, filho de um presidente assassinado, de uma mãe que foi depois Onassis. Autor de uma revista que esteve à frente do seu tempo, chamada George, e que, segundo o que tenho lido, ainda estará atual, trinta anos depois.

John Kennedy, o rapaz de quem todos queriam roubar um pedaço. Carolyn, a mulher intrigante que roubou o coração de John.

A verdadeira razão para estarmos obcecados pela série é, na verdade, a história de amor entre os dois, sendo relevante o que cada um representava. O que nos acontece neste século 21 é que temos poucas histórias de amor a que nos agarremos. Todas nos parecem ocas, postiças.

O amor está desacreditado porque deixámos de apostar nele. Mas fomos nós que construímos essa falta de fé. Não foi o amor do novo século que perdeu romantismo; nós é que o escolhemos fácil, efémero e descartável. A dada altura preferimos não sofrer a viver. Numa sociedade anestesiada, como pode o amor romântico sobreviver? Nós já trocamos um “amo-te” por um “like”.

Por isso não se admirem que o mundo esteja a viver a febre de John Kennedy Jr. e de Carolyn Bessette. Eles morreram mas o amor deles não. O amor que ficou cristalizado num tempo onde todos um dia nos apaixonámos.

O coração ainda bate.

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