O Coração Ainda Bate. O tempo de uma canção

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Várias amigas e conhecidas acabaram as suas relações ou viram os seus namoros e casamentos chegarem ao fim. Umas são mães, outras querem ser. Todas são mulheres autónomas e com as palavras certas na boca, mesmo que elas nos falhem em momentos decisivos ou fracturantes. Quando uma relação acaba as melhores palavras são as que ficaram por dizer: as que fomos adiando por preguiça ou receio da inconveniência e aquelas que surgiram já depois do fim da relação, mas que não dissemos por termos sido apanhadas desprevenidas. É muito comum ouvirmo-nos depois com os amigos em actos de heroísmo que não o chegaram a ser, imaginando os diálogos que nunca tivemos: “eu devia era ter-lhe dito que…”- insiram aqui as palavras que ficaram por dizer. São mesmo muitas.

As relações de hoje andam à velocidade do tempo porque já ninguém atrasa o seu ritmo para que o do outro prevaleça. Já pensaram na quantidade de mulheres que sacrificaram as suas carreiras para que a dos maridos ou companheiros florescessem? De quantos casos ouço eu falar de mães que, tendo adiado o seu inegável talento, ficaram em casa e, já com filhos, foram depois estudar à noite, acumulando a vida da casa e do trabalho, procurando cumprir o sonho maior de se realizarem profissionalmente? Como é que isto nunca foi uma questão para os homens? Quantas mulheres reviam os textos dos seus maridos escritores e elas, que também escreviam, eram relegadas para segundo plano, porque, ali a brilhar, só poderia ser o homem? Uma mulher de bem só podia ser artista com um grande estofo e cobertura familiar.

O século 20 ainda foi trémulo na chegada das mulheres à esfera pública, assumindo as suas vocações, não deixando que lhes ofuscassem o talento, lutando pela igualdade que continua, como sabemos, por cumprir. Sabemos todos que a igualdade entre homens e mulheres ainda não é igualzinha, mas continuamos a lutar por isso e este século tem-se revelado um megafone amplo para as nossas causas.

Deixem-me voltar aos amores das mulheres emancipadas. Falo diante do privilégio de quem tem trabalho e casa. Estas mulheres até podem estremecer perante o fim da relação, mas são rápidas a organizar-se na nova vida. Olho para elas, para as que conheço, e é se como elas não arranjassem tempo para ficar a sofrer. Sofrem, mas continuam a escrever e compor, a dar concertos, a fazer teatro, a chefiar o departamento como antes, a irem buscar os filhos à escola, e, no meio de tudo isto, uma lágrima escapa-lhes porque ouviram uma canção ou identificaram uma palavra que as liga inevitavelmente ao amor passado. As mulheres do século 21 choram pelos amores perdidos, enquanto, na agenda, marcam mais um e outro trabalho. Sem contemplações para parar.

Por falar nesta questão das lágrimas, lembrei-me que li recentemente sobre Emma Thompson, que confessava a humilhação que sentiu, e como a sua auto-estima ruiu, quando foi traída pelo então marido, o actor e realizador Kenneth Branagh. A verdade é que Emma, segundo palavras da própria, viria a canalizar essa dor para o momento pungente em ‘Love Actually’, quando descobre que o presente que pensou ir receber do marido no Natal não seria para ela. O que acontece? Eu sei que o filme é uma comédia romântica vista mil vezes, mas eu também me comovo sempre nesse momento; a personagem de Emma, Karen, recebe um CD não propriamente desejado, apesar de ser Joni Mitchell e ‘Both Sides Now’, e vai para o quarto chorar, devastada pela certeza de que aquele casamento não continuava a ser o mesmo. Em poucos minutos, os da canção, recompõe-se e volta para a família a tempo de não estragar o Natal, mas com a certeza da separação. É um bom momento este. E elucidativo: podemo-nos desmoronar nos minutos que dura uma canção, mas erguemo-nos a tempo de continuar a ouvir o álbum. O mundo não acaba porque um amor acabou. Há mais para ouvir e descobrir. É isso que estão a fazer as minhas amigas.

O coração ainda bate.

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