A filiação de Camões nos poetas (e não só poetas) da antiguidade clássica não sofre contestação. Todos os estudiosos, desde Faria e Sousa, no século XVII, o reconhecem: a lírica é devedora a Horácio e a Ovídio, a par de vários outros, a épica evoca a todo o passo Virgílio, acima de tudo, credor também das éclogas, o teatro inspira-se, desde logo, em Plauto. Imitar os clássicos era, no século XVI, uma regra, um código de honra, um sinal de qualidade e perfeição.
Os Lusíadas seguem de perto a Eneida, de Virgílio, e têm ecos de autores latinos e gregos: Vénus é a protetora da armada de Eneias e da do Gama; a viagem é comum a ambos os poemas; uma tragédia de amor é central em um e outro (Dido/Eneias e Inês/Pedro); acumulam-se em Os Lusíadas artifícios retóricos de inequívoca inspiração virgiliana. Quando o poeta proclama «Cessem do sábio grego e do troiano / as navegações grandes que fizeram» (Lus. 1.3.1-2), está a afirmar que a gesta que vai cantar é superior à de Ulisses e de Eneias (o grego e o troiano), mas está também a assumir uma espécie de cartão de identidade, dizendo que as tem como ponto de partida. E confirma-o logo a seguir: «Dou-vos também aquele ilustre Gama, / que para si de Eneias toma a fama».
As normas renascentistas recomendavam a imitação (imitatio) e Camões não as desrespeitava.
Mas nem sempre é assim. As infrações multiplicam-se e mostram que o nosso poeta fez questão de se demarcar do legado do seu antepassado (Virgílio) e somou em relação a ele desencontros, que não existem por acaso.
Virgílio dizia ir cantar um herói, um varão, Eneias, no singular, Camões canta muitos: «as armas e os barões».
Duas deusas (femininas, portanto) se confrontam na Eneida, Vénus a favor e Juno contra Eneias, mas em Os Lusíadas à mesma Vénus opõe-se Baco, um deus (masculino).
O amor no poema virgiliano é sempre sinónimo de desgraça (e as mulheres com ele) e no camoniano é exatamente o oposto: a Ilha do Amores é o prémio concedido aos marinheiros portugueses; as ninfas acalmam os ventos e amainam a tempestade com as armas da sedução; Vénus seduz Júpiter para que acuda aos portugueses; e tantos outros exemplos que seriam inimagináveis no autor da epopeia romana.
Há uma tempestade e um concílio dos deuses em cada um, mas os tempos em que acontecem são distintos, a criar significações e funções bem diferentes.
E até a tão estranha dedicatória. Virgílio canta Augusto, o imperador, mas não lhe dedica a Eneida. Ou antes, não lhe dirige uma dedicatória, porque é implícito que o poema, onde Augusto é personagem nuclear, lhe é dedicado. Camões dirige-se a D. Sebastião em dedicatória surpreendentemente longa. Mas não o canta, porque o rei o não merece ou, pelo menos, ainda o não merece: «enquanto eu estes canto e a vós não posso, que não me atrevo a tanto». O futuro dirá se o merece: «tomai as rédeas vós do reino vosso; / dareis matéria a nunca ouvido canto». Que é como quem diz ao rei que mostre o que vale, para depois ser cantado. Ou seja, Camões faz ao rei uma dedicatória longa para não ter de o cantar, Virgílio canta o imperador e assim se dispensa de lhe fazer dedicatória.
E mesmo as tragédias de amor apenas coincidem nisso mesmo: em serem tragédias de amor. Da firmeza, afirmação e altivez de Dido, expressa na raiva, na vingança e no suicídio, à humildade submissa de Inês, expressa na aceitação do cadafalso, vai uma enorme distância.
Camões filia-se nos clássicos, sim; inquestionavelmente. Mas não a ponto de se despojar da sua identidade. E o modo como corta esse cordão umbilical não pode deixar de nos interrogar.
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