O eleito e o vencedor

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António José Seguro foi eleito presidente de Portugal no domingo passado, com 66,82% dos votos — o maior número de votos da história do país, superando o de Mário Soares em 1991. Mas quem venceu mesmo essas eleições foi André Ventura. Parece um paradoxo. Não é.

Ventura obteve 1,73 milhão de votos — 280 mil a mais do que o Chega nas legislativas de 2025. Sua percentagem, 33%, superou os 31% que a Aliança Democrática do primeiro-ministro Montenegro conquistou no ano passado. O líder do partido classificado como de “extrema-direita” agora lidera a direita portuguesa. Não por autoproclamação — pelos números. O PSD, que governou Portugal por décadas, não conseguiu sequer levar seu candidato à segunda volta. Marques Mendes ficou pelo caminho. Quem disputou o futuro do país com o socialista Seguro foi Ventura.

E o que isso significa? Que a trajetória está clara. O Chega saltou de 1,3% em 2019 para 23% em seis anos. Se o crescimento continuar nesse ritmo — e não há razão para supor o contrário —, Ventura será primeiro-ministro nas próximas legislativas. Os números não mentem. A cada eleição, mais portugueses votam nele. E não são fascistas. São pessoas cansadas de promessas vazias, de insegurança, de imigração descontrolada e de uma elite política que parece viver em outro planeta.

Esse fenômeno não é português. É global. Trump voltou à Casa Branca. Milei governa a Argentina com motosserra e aprovação popular. Meloni comanda a Itália. Kast acaba de vencer no Chile. A direita cresce na Alemanha, na França, na Espanha. Tratar tudo isso como “onda fascista” é preguiça intelectual — ou má-fé. É recusar-se a entender por que milhões de pessoas, em democracias consolidadas, escolhem líderes diferentes dos suspeitos habituais.

Nesta semana, Flávio Bolsonaro esteve em Paris. Deu entrevista à CNews, o canal de maior audiência da TV paga francesa. Reuniu-se com Marion Maréchal, sobrinha de Marine Le Pen. Encontrou deputados europeus, empresários brasileiros, jovens conservadores no Institut de Formation Politique. Criticou Macron em solo francês — chamou-o de incompetente. Foi recebido como estadista. Antes, passou por Israel, Bahrein, Estados Unidos. O filho do ex-presidente brasileiro constrói pontes internacionais enquanto Lula coleciona desafetos. As pesquisas mostram empate técnico entre os dois para 2026.

A esquerda pode continuar fingindo que a direita não existe, que seus eleitores são ignorantes manipulados, que basta esperar a “onda passar”. Não vai passar. A insatisfação com o establishment é real. As pautas de segurança, soberania nacional e valores tradicionais ressoam em milhões de pessoas que não se reconhecem no discurso progressista. Ignorar isso não é virtude — é miopia.

O que a direita entendeu e a esquerda se recusa a admitir é simples: as pessoas querem ordem, prosperidade e identidade. Querem sair de casa sem medo. Querem que o dinheiro dos impostos volte em serviços públicos, não em ideologia. Querem que suas fronteiras signifiquem alguma coisa. Quando Milei corta ministérios e a inflação cai, quando Bukele prende gangues e a criminalidade despenca, quando Trump promete deportações e a classe trabalhadora aplaude — não é porque o mundo enlouqueceu. É porque governos anteriores falharam em entregar o básico. A direita oferece respostas. A esquerda oferece rótulos.

Em Portugal, o Chega cresceu falando de corrupção, segurança e imigração — temas que os partidos tradicionais tratavam como tabu ou respondiam com platitudes. Ventura foi chamado de racista, populista, demagogo. E a cada insulto, ganhou mais votos. Talvez seja hora de perguntar não por que tantos votam nele, mas por que deixaram de votar nos outros.

Seguro tomará posse em março. Governará com um Parlamento onde o Chega é a segunda maior força. Terá de dialogar com quem a esquerda prefere cancelar. Enquanto isso, Ventura prepara o próximo passo. O eleito foi Seguro. O vencedor, quem sabe, ainda está por vir.

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