O fim da monarquia?

0
3

Vivo em Inglaterra há anos suficientes para reconhecer as dores de um país quando algo dá de si. E nunca num estrondo, mas num ranger lento, como madeira antiga a ceder debaixo dos pés.

Neste sentido, a prisão do ex-príncipe André não foi uma surpresa, mas a confirmação de algo há muito por acontecer. Porque todos sabíamos. Sabíamos nós, sabiam os jornais, sabiam os motoristas, sabiam os seguranças, sabia o palácio.

E se naquela manhã fria de Inverno em Sandringham os factos mantiveram-se inalterados, ao mesmo tempo passamos a ter autorização para olhar em frente. Por ser inevitável sentir qualquer coisa a deslocar-se, uma peça invisível do cenário a sair do sítio. Este país vive de símbolos: o chá das 5, as filas, a coroa. E quando um símbolo cai não põe apenas a instituição em causa, mas milhões de almas cujas vidas foram passadas na órbita destas estrelas.

Estrelas sem gás, quase defuntas. Anãs brancas. Ou talvez buracos negros.

E já aqui vivo há tempo suficiente para apreender a monarquia não como uma atracção turística, mas a ponta visível de um sistema onde a terra, o dinheiro e o poder são hereditários, apenas para uma pequena percentagem de privilegiados e nunca para distribuir à mesa de todos. O poder não pode, sob circunstância alguma, cair na rua.

E ver o ex-príncipe André detido levanta questões incontornáveis sobre a engrenagem ao seu redor, engrenagem essa responsável pela sua quase imunidade ao longo de décadas.

Penso na família real a defender primeiramente, e acima de tudo, a sua imagem numa postura nos antípodas de quem está ao lado das 1200 vítimas de Epstein. A mesma família capaz de rapidamente custear um acordo extrajudicial com Virginia Giuffre, na procura do silêncio contra o incêndio moral da opinião pública.

Sejamos claros: o último elemento da família real britânica a prestar contas à lei foi Carlos I, em pleno século XVII, ou seja, há mais de 300 anos.

E um acontecimento desta magnitude afecta-nos directamente porque volvidos três séculos a monarquia não só está bem presente como presentes estão as rendas pagas pelos comuns britânicos para poderem viver nesta terra. Porque quem comprou casa sabe ser a casa não completamente sua, e há sempre um nome antigo, um fundo, um título, uma entidade cuja ausência nas fotografias de família não a coíbe de cobrar todos os anos o direito de ali residir.

O impacto no nosso futuro não é de todo abstrcato, antes pelo contrário, bastando para tal questionar seriamente a monarquia para de imediato abrir outras fendas por onde mais perguntas possam passar. Quem possui a terra? Porquê? Quem decide quem pode viver onde? Por que razão trabalhar uma vida inteira não chega para comprar um pedaço de terra sem pedir licença a uma entidade tão vezes nobiliárquica como invisível? Temos amigos com filhos os quais já há muito desistiram do sonho de deixar uma casa. E sim, a certeza de um tecto só nosso é um luxo indecente.

E não, não basta a queda e julgamento de um ex-príncipe se o ex-príncipe é apenas um entre milhares de abusadores. E a monarquia ao seu redor, até hoje inquestionável e indiscutível, não pode, nem deve, sair ilesa deste processo. Não agora, volvidos quase 20 anos a viver, literalmente, em terras de Sua Majestade.

Porque pela primeira vez este país começa a chamar para si, e como seu, este chão por debaixo dos pés. O fim do feudalismo? Pelo menos o fim da monarquia.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com