Os regimes não se tornam moderados quando ficam sob pressão. Tornam-se mais calculistas. E, no caso da República Islâmica do Irão, esse cálculo tem uma longa tradição: quando o custo da confrontação aberta sobe, cresce a tentação da ação indireta, negável e assimétrica. Por isso, a questão não é saber se Teerão poderia recorrer ao terrorismo como resposta ao conflito atual. Poderia, naturalmente. A questão séria é outra, até que ponto essa opção lhe é útil no quadro presente.
Convém começar por desfazer um equívoco confortável. Se o Irão recorrer ao terrorismo, não estaremos perante uma rutura estratégica, um gesto de desespero súbito ou até uma anomalia de percurso. Estaremos, isso sim, perante uma adaptação de métodos antigos a circunstâncias novas. A República Islâmica construiu, desde 1979, uma prática consistente de projeção extraterritorial que combina ideologia, repressão e ambiguidade operacional. O terrorismo, neste contexto, não aparece como exceção ao sistema. Faz parte do mesmo.
É precisamente por isso que a discussão tende a ser toldada por um erro de perspetiva europeu. Durante demasiado tempo, insistiu-se em tratar a violência iraniana fora das suas fronteiras como uma excentricidade regional, uma nota de rodapé do Médio Oriente ou uma matéria demasiado sensível para ser nomeada com clareza. O resultado é conhecido, cada operação é recebida como se fosse surpreendente, quando na verdade confirma um padrão. O problema não está na falta de sinais. Está na persistência de uma certa ingenuidade diplomática que continua a chamar complexidade àquilo que, muitas vezes, é apenas recusa em ver.
Ora, o contexto atual torna esta hipótese menos abstrata. Sob pressão militar, diplomática e interna, Teerão enfrenta um dilema clássico dos regimes revolucionários envelhecidos, mostrar capacidade de retaliação sem desencadear uma resposta ainda mais devastadora. É aqui que o terrorismo readquire valor instrumental. Não porque substitua a guerra, mas porque permite manter poder de intimidação abaixo do limiar de uma escalada frontal. É uma ferramenta particularmente apelativa para quem precisa de provar que continua perigoso, mas não quer pagar o preço político de um confronto sem margem de negação.
Importa ainda notar que várias das alavancas tradicionais do Irão parecem hoje menos sólidas do que noutras fases. A rede de proxies continua relevante, mas não é imune ao desgaste, à fragmentação e ao cálculo de sobrevivência dos seus próprios intermediários. Nestas circunstâncias, a violência indireta, seletiva e externalizada torna-se ainda mais funcional. O recurso a redes criminosas, a operações de intimidação contra dissidentes, a ações contra alvos simbólicos no estrangeiro ou a formas híbridas de sabotagem e coação corresponde a uma lógica que o regime conhece bem, punir sem assinar por extenso.
Não estamos, portanto, perante o cenário simplista do grande atentado espetacular, imediatamente atribuível e pedagogicamente inteligível para a opinião pública ocidental. Esse tipo de resposta teria custos estratégicos evidentes e limitaria, de forma drástica, qualquer margem diplomática residual de Teerão. O mais plausível é algo menos cinematográfico e, por isso mesmo, mais difícil de antecipar e mais fácil de subestimar, violência de zona cinzenta, tentativas de assassínio, intimidação transnacional, sabotagem pontual, instrumentalização de terceiros e operações concebidas para produzir medo suficiente sem clarificar em excesso a autoria.
Há nisto uma ironia que não devia ser ignorada. O mesmo regime que se apresenta regularmente como vítima da agressão externa preserva, quando lhe convém, uma notável flexibilidade na exportação do medo. A retórica da soberania convive, sem grande embaraço, com práticas de coerção que atravessam fronteiras, recorrem a intermediários e procuram precisamente beneficiar da hesitação das democracias em nomear a ameaça. É uma forma peculiar de política externa, invocar legalidade enquanto se subcontrata a violência.
A resposta à pergunta inicial é, por isso, desconfortavelmente simples. Sim, a hipótese de o Irão recorrer ao terrorismo é real. Não porque o regime tenha perdido a racionalidade, mas porque está a agir segundo uma racionalidade que lhe é familiar. O terrorismo, para Teerão, nunca foi apenas uma linguagem de fanáticos ou uma deriva marginal. Foi, demasiadas vezes, um instrumento de pressão estratégica, repressão extraterritorial e comunicação política por meios violentos.
O erro, da parte europeia, seria esperar um gesto inequívoco, quase didático, para admitir o que o historial do regime há muito sugere. O Irão pode não responder com a grandiloquência trágica que muitos imaginam. Pode preferir algo mais eficaz, um intermediário, um alvo vulnerável, uma operação suficientemente opaca para semear medo e suficientemente ambígua para alimentar a negação. Não é uma versão menor do problema. É a sua forma mais contemporânea. E, talvez por isso mesmo, a mais útil para quem já percebeu que, quando a força falha, a sombra continua a servir.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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