Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.
Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.
O carnaval começa aqui em São Paulo. Na verdade, desde sexta-feira (6), há bloquinhos na rua e os prédios começaram a tomar providências para salvaguardar-se de foliões mais exaltados. O pré-carnaval mesmo, contudo, inicia neste sábado (14) e domingo (15). O pré-carnaval não é para os fracos, pois testa o fôlego daqueles que chegarão não apenas à Quarta de Cinzas, mas aos blocos de despedida que ainda haverá na semana a seguir. Eu não sou tão heróico, mas é possível que comece meus festejos já durante a semana. Afinal, os blocos carnavalescos passam bem diante do prédio onde vivo. Como não se deixar contagiar pelo “ziriguidum”?
O carnaval brasileiro é uma das maiores produções da cultura em língua portuguesa. Reúne com uma maestria ímpar as contribuições portuguesa, africana e dos povos originários. Uma lição para o mundo do valor da mestiçagem. Essa capacidade de misturar com sucesso as coisas mais diferentes e até antagônicas tem raízes na cultura portuguesa. Portugal de hoje, tão orgulhoso de sua ventura europeia, esquece com frequência que há contribuições brasileiras, árabes e africanas importantíssimas na sua cultura, até no fado.
Uma pena que alguns se apequenem em raciocínios estreitos como as vielas de Alfama, onde nasceu o fado. Aliás, estudos apontam o lundu afro-brasileiro dos séculos XVIII e XIX como uma das matrizes do fado, enriquecendo e valorizando a cultura de Portugal.
O lundu é um gênero musical que chegou a Portugal, fazendo imenso sucesso junto às classes populares onde as transformações costumam ser mais significativas quando as deixam ser. O lundu é um ritmo sincopado. Um ritmo é sincopado quando a música tira o acento do lugar “esperado” – as batidas fortes do compasso – e coloca esse destaque em batidas fracas ou entre as batidas, criando aquela sensação de surpresa, ginga e balanço que convida o corpo a se mexer. Quebra-se o esperado e surge a novidade que nos faz sentir melhor.
Assim como no fado, o lundu está na base do samba carioca. A maior diferença é que no fado o ritmo sincopado ou quase desapareceu ou motivou o rubato. O musicólogo português Rui Vieira Nery nos diz que o fado, para ser aceito pela gente burguesa de bem, viu-se obrigado a “limpar” a sua percussividade excessiva, associada aos negros e à “gentalha” pobre. Ah, os pobres sempre incomodando as pessoas de bem da burguesia, esses que pagam os impostos e não recebem ajudas do governo! O rubato do fado bem pode ter sido uma “malandra” forma de fugir a essa necessidade de elitização, mantendo a construção da surpresa que caracterizava o lundu.
Assim como no ritmo sincopado, o rubato ataca a batida forte da música. A síncope do samba e o rubato do fado modificam esse lugar forte esperado que, de algum modo, é seguro, mas monótono. A síncope o faz antes ou entre os tempos, o que faz o ritmo ser dançante. Já o rubato ataca essa batida forte depois ou a arrasta sobre o tempo, o que faz o ritmo se tornar mais melódico e dramático.
O samba, que reina por excelência no carnaval, incorpora o ritmo sincopado como base de sua própria estrutura. Na busca de superar a rigidez dada pelos ritmos fortes e fracos encadeados e previsíveis, cria um balanço que nos tira do óbvio e faz-nos dançar. O curioso é que essa proposta reinventa as regras do jogo, facilitando a fusão de estilos e influências. Ou seja, o ritmo sincopado é um convite à inclusão e à criatividade.
A cultura brasileira é uma cultura de ritmo sincopado. Não apenas na sua música rica e variada que consegue fundir as mais diferentes contribuições. Na sua estrutura e modo de existir, ser brasileiro obriga a esse pensar sincopado que se traduz no cotidiano.
A caipirinha de saquê e frutas vermelhas, que meu amigo Leonardo tanto gosta, é também uma contribuição desse modo de ver a realidade. Ou como a pizza de presunto de Parma que faz os olhos de Gilberto brilharem, e que é certamente muito melhor que as pizzas italianas que já comi. Nada está fora das possibilidades de ser reconstruído ecleticamente quando há perícia e “malandragem” do raciocínio rápido que são características essenciais à existência da boa síncope.
Isso exige a reflexão ética e a humildade de saber que nem sempre se acerta. Ao contrário, é preciso constantemente pensarmos nos próprios erros buscando melhorias. Mas é essa capacidade ritmada de viver que faz o Brasil ser o país que, pelo menos até este momento, melhor enfrentou o discurso da extrema-direita que deseja “limpar” a “gentalha” do mundo. E nisso estamos de parabéns. O carnaval é também a metáfora deste povo que se reinventa e não deixa que os lugares esperados dominem, mas se recria em esperança e novidade. O mundo precisa de Ziriguidum.
Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com




