O Edson aprendeu a ler no tempo previsto, mas não havia maneira de melhorar na fluência leitora, o que lhe dificultava a compreensão daquilo que lia. Depois de desencadear os mecanismos de apoio pedagógico na sala de aula, pensei em envolver a família para lhe dar uma motivação acrescida. Chamei a mãe à escola e rapidamente percebi aquilo que a senhora estava com dificuldade em confessar: a mãe do Edson não sabia ler. E não, não se pense que esta história se passou há muito tempo, num local recôndito do país. Esta história real é atual e aconteceu bem perto da capital.
Perante estas circunstâncias, pensei que o melhor era mesmo conversar com o Edson, sugerindo que complementasse o tempo de leitura na escola acrescentando-lhe alguns momentos de leitura em casa, escolhendo um livro de que gostasse. O Edson ouviu com muita atenção, mas no fim respondeu: “Não posso.” Sem perceber, perguntei-lhe porquê, e não havia maneira de explicar a razão.
Até que, depois de insistir, o Edson lá confessou: “Porque só tenho um livro em casa.” “Ótimo, Edson, então podes ler esse livro!”, incentivei-o. Ao que o Edson continuou a afirmar que não, não podia. Intrigada, questionei-o e, a custo, lá me explicou que o livro era sobre princesas, acrescentando que os livros sobre princesas eram para meninas. Bem tentei convencer o Edson de que essas questões de género não fazem sentido nenhum, que não há livros para meninos nem para meninas, e que ele podia muito bem ler o livro que tinha em casa. O Edson voltou a ouvir com muita atenção e, por fim, concluiu, irredutível: “Não posso.”
Se por ali não havia nada a fazer, sugeri ao Edson que requisitasse um livro da biblioteca da escola, ao que o Edson respondeu: “Não quero.” “Mas não queres porquê?”, interroguei. O Edson explicou que, como demorava muito a ler, o tempo de requisição habitual de uma semana não chegava. Propus que requisitasse o livro durante mais tempo, mas também não queria. De olhos baixos, o Edson finalmente falou: “Professora, o que eu queria mesmo era ter um livro que fosse só meu!”
Esperei por encontrar a mãe do Edson de manhã, no caminho para a escola, e abordei o grande desejo do Edson, ao qual a mãe foi muito recetiva, disponibilizando-se para comprar o livro no final do mês, quando recebesse. Enalteci a sua disponibilidade e sugeri-lhe que levasse o filho à livraria e o deixasse escolher o livro de que mais gostasse. E assim foi.
Um dia, o Edson apareceu na escola inchado de orgulho, com o seu primeiro livro na mão, que se apressou a mostrar aos colegas, contando os pormenores da sua aquisição: não só tinha ido a uma livraria pela primeira vez, como tinha sido ele a escolher o livro, tendo tido o cuidado de optar por uma obra sobre um urso, na sua opinião adequada para meninos. Para não manchar a alegria do Edson, deixei as questões de género para mais tarde, e sugeri de imediato que trabalhássemos na sala O Mistério do Urso, de Wolf Erlbruch, do qual o Edson nos leria todos os dias um bocadinho. E assim foi.
Compenetrado com a responsabilidade de ler o “seu” livro, o Edson treinava em casa a parte da história que ia ler no dia seguinte para a turma. Todos elogiávamos os seus progressos na leitura, que, a pouco e pouco, se iam tornando notórios, e valorizávamos a qualidade da obra escolhida pelo Edson, que agradava a todos.
Mas, claro, este impulso para a leitura não poderia ficar por aqui e, assim, abordei a mãe do Edson, relatando-lhe o sucesso da iniciativa, elogiando os progressos do filho, e sugerindo que, na medida das suas possibilidades, fosse dando sequência à aquisição de livros lá para casa. E assim foi. A pouco e pouco, o Edson foi tendo alguns livros “seus”, cuja leitura o ajudou a progredir. À medida que melhorou na leitura, começou a gostar de requisitar livros na biblioteca da escola, porque já conseguia lê-los numa semana, tal como os colegas.
Tudo isto para dizer que estas questões da leitura e dos livros não raras vezes são uma matéria mais sensível do que imaginamos, pelo que temos de ter a sensibilidade de perceber a realidade das crianças para envolver as famílias de uma forma adequada, pedindo-lhes aquilo que efetivamente podem dar, de uma forma clara e calorosa.
Se me tivesse limitado a dizer à mãe do Edson que os pais deviam ajudá-lo na leitura e que era aconselhável que tivessem livros em casa, provavelmente a senhora iria sentir-se retraída e sem saber o que fazer. Tendo-lhe pedido aquilo que realmente estava ao seu alcance — que era comprar um livro de vez em quando, no final do mês —, a mãe do Edson sentiu que teve um papel importante na aprendizagem do filho.
Percebendo que este investimento representava um esforço para aquela família, fiz questão de o valorizar. Mas acredito que a maior alegria da mãe tenha sido assistir aos progressos do filho: deve ter sentido muito orgulho no dia em que, em vez de ter de pedir à vizinha para ler os recados da escola, pôde ser o Edson a fazê-lo. E assim foi.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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