O que significa ser nacionalista hoje?

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Afinal, como definimos o conceito de nacionalismo? Quer se manifeste através da sua linguagem e simbolismo, quer assuma a forma de movimento sociopolítico, o foco mantém-se: a nação. A preocupação com a nação e promoção do seu bem-estar, acima de tudo. Nada de novo aqui. Parece-nos óbvio que o sítio onde nascemos desperte em nós um sentimento de pertença que procuramos preservar. Mas este sentimento sempre foi ambíguo.

Se, por um lado, serviu de combustível às tendências imperialistas e totalitárias na Alemanha ou na Itália, por outro foi essencial aos movimentos de independência e descolonização de um mapa em formação. Num mundo pós-1945, onde (na sua maioria) os estados são reconhecidos como igualmente soberanos pela Carta das Nações Unidas, seria de esperar que a necessidade de afirmação nacional esmorecesse – salvo nas tais minorias em que o nacionalismo permanece um símbolo de resistência à opressão.

No entanto, assistimos ao seu ressurgimento e, surpreendentemente, sobretudo nas grandes potências, onde a reafirmação da identidade nacional parece não só ser um tanto desnecessária como perigosa – tome-se como exemplo da sua expressão máxima as ações do ICE nos EUA, frequentemente apresentadas como defesa da soberania nacional, mas cujos efeitos refletem uma conceção estreita de pertença.

Numa era de globalização, em que uma grande parte da população mundial beneficia da livre circulação de bens, capitais e informação, resistir à circulação de pessoas parece ser uma tentativa desesperada de preservar uma ideia de nação fictícia, inflexível e datada. Pressupõe um desejo de homogeneização que passa por uma rejeição do reconhecimento de um “outro” que já faz (e, em muitos casos, sempre fez) parte do “nós”. Prevalece a ideia da “insegurança” e da “ameaça” que este “outro” vem colocar à “pátria”. (Este “outro” homogeneizado por narrativas simplistas como um só, apesar de normalmente integrar uma enorme diversidade cultural.)

Em casos mais extremos, assiste-se inclusivamente à idolatração de um passado opressivo, como no caso recente do congresso do grupo Reconquista, com referências nazis. O nacionalismo deixa, assim, de ser apenas um sentimento e assume a forma de um programa político que promove diretrizes para a ação política.

Mas o que acontece a este conceito quando pensamos num nacionalismo independente da nação? O que acontece nos contextos onde a diversidade étnica, cultural ou religiosa impossibilita pensar a nação como um todo homogéneo? (Falo de casos como Suíça, Bélgica, Nigéria ou Indonésia). Não assistimos também a movimentos nacionalistas nestas sociedades?

Podemos, então, distinguir entre dois tipos de nacionalismo: nacionalismo étnico (construído maioritariamente em torno de raça, religião e língua) e nacionalismo cívico (baseado na atribuição de direitos a todos os cidadãos, independentemente de raça, religião, língua, religião ou cultura).

Se o nacionalismo continua a moldar o nosso tempo, a questão não é tanto se devemos abandoná-lo, mas que forma estamos dispostos a aceitar. Talvez o desafio contemporâneo não seja extinguir o sentimento de pertença, mas reformulá-lo.

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