O regresso de Passos Coelho não será pelas melhores razões

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Um ex-primeiro-ministro comentar a agenda governativa de um sucessor não é inédito: Soares e Cavaco Silva fizeram-no amiúde. Há, contudo, uma diferença entre estas intervenções e a torrente de declarações de Passos Coelho dos últimos dias. Ao contrário dos exemplos do passado, quando Passos Coelho comenta abundantemente a ação de Montenegro não o faz para influenciar a agenda governativa, mas porque não esconde um desejo de regressar a São Bento.

Deixo de parte as motivações pessoais, até porque é irrelevante saber se o que move Passos Coelho é ressentimento pela forma como saiu do Governo ou, talvez mais sensível, ausência de reconhecimento por parte dos sucessivos líderes do PSD – de Rui Rio, de quem nunca foi próximo, mas, pior, de Montenegro, que se tornou figura na política nacional sob a sua alçada. Na verdade, o que conta é o efeito da sua omnipresença no espaço público.

Numa das várias declarações dos últimos dias, Passos Coelho foi certeiro no diagnóstico sobre o seu regresso: “Se algum dia se vier a equacionar, não há de ser, seguramente, pelas melhores razões”. Com uma legislatura que não completou sequer um ano, Passos Coelho só volta a São Bento nos próximos tempos se Montenegro sair abruptamente. E mesmo que a saída repentina de Montenegro não seja provocada pelo regresso do diabo como o conhecemos do passado, não ocorrerá pelas melhores razões.

Aliás, das duas uma: ou o ramerrame (para recorrer a uma expressão do próprio Passos) continua e a maioria parlamentar pouco sólida de que goza Montenegro se desfaz em ar ou, alternativamente, a Spinumviva regressa a galope, levando à remoção do atual primeiro-ministro. Qualquer dos motivos traria consigo uma sequência intrincada de implicações políticas.

No passado, seria um pouco excêntrico que um Governo falhado fosse sucedido por um novo Governo apoiado pelo mesmo partido. O natural era que ao declínio de um governo PSD sucedesse um governo PS. Mas isso eram outros tempos, nos quais a bipolarização perfeita funcionava. Hoje, temos um regime assente em três polos e o PS está destinado a uma longa cura de oposição.

Um falhanço de Montenegro, paralisado na governação, não se traduziria, agora, na emergência natural do PS como alternativa. Pelo contrário, nada nos garantiria que não seria o Chega a capitalizar, com uma maioria parlamentar de direita a ter o partido de André Ventura como o mais votado. Convenhamos que não só não seria a melhor das razões, como, a concretizar-se a ultrapassagem, não é líquido que Ventura continuasse disponível para acolitar Passos Coelho primeiro-ministro. Talvez a pressa de Passos Coelho se prenda com a consciência de que se aproxima a derradeira oportunidade para se impor como líder natural da direita.

Sobra a Spinumviva. Já o escrevi várias vezes: com a gestão desastrosa de uma história que não tem ponta por onde se lhe pegue, Montenegro desbaratou o principal ativo de um chefe de Governo: a credibilidade. Só mesmo a suspensão generalizada da descrença permite continuarmos coletivamente a fingir que Montenegro ainda preenche os requisitos éticos exigíveis a um primeiro-ministro. Passos Coelho até pode partilhar esta opinião, naturalmente não a pode verbalizar. O que sugere uma outra explicação para as sucessivas aparições das últimas semanas: o antigo primeiro-ministro intui que alguma coisa irá suceder a breve trecho envolvendo o atual primeiro-ministro. Até para um cético como o autor destas linhas, convenhamos que estamos face às piores razões para remover um primeiro-ministro em exercício.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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