Ontem tive uma audiência

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Via de regra, não atuo em processos judiciais. Este foi, inclusive, o meu primeiro, e, muito provavelmente, também o último, em tribunal em Portugal. Não posso entrar nos detalhes do processo, mas tratava-se de uma cliente muito especial, em uma questão que, honestamente, nunca deveria ter chegado à Justiça. Um conflito pequeno, de valor baixo e sem qualquer relevância estratégica. Uma disputa que poderia, e talvez devesse, ter sido resolvida de forma muito mais simples. Mas, enfim, lá fomos nós.

O tribunal era um lugar lindo, imponente, carregado de história. Só de estar ali já valia a experiência. A audiência começou como tantas outras: os advogados são chamados a expor brevemente a questão e verificar se há possibilidade de acordo. Os ânimos se exaltam um pouco, algo absolutamente normal em audiências.

Em determinado momento, porém, a juíza interrompe e inicia uma frase com algo como: “Porque no direito português isso é assim…”. O tom não era técnico. Era outro. Era um tom que, de forma muito clara, parecia querer lembrar, ou talvez insinuar, que eu não pertencia totalmente àquele lugar. Que eu era “a advogada brasileira”.

Naquele instante, senti o sangue ferver. Mas me contive. A advogada que trabalha comigo disse depois que, quando ouviu aquilo, fechou os olhos e pensou: “Ela não está dizendo isso para a Fernanda… não pode estar.” A audiência seguiu. O processo acabou sendo encerrado com um acordo. As partes se despediram, os advogados também, e todos cumprimentaram a juíza.

Antes de sair, pedi licença para lhe dizer algo. Disse que talvez ela não tivesse percebido, mas que aquela frase, dita daquela forma, não deveria ter sido dita em audiência. Ela respondeu que não fez por mal, que não teve essa intenção.

Eu disse que compreendia. Mas que sim, eu, e todas as advogadas presentes, tínhamos percebido. E que situações como essa acontecem mais vezes do que deveriam. Notei naquele momento que ela realmente pareceu refletir. Como se só então tivesse se dado conta.

E talvez esse seja justamente o ponto mais importante. Muitas vezes, o preconceito não vem de uma intenção declarada. Ele aparece de forma automática, quase invisível, porque está silenciosamente instalado no subconsciente.

Um relatório recente da OCDE, International Migration Outlook 2025 mostra que, mesmo em países desenvolvidos, imigrantes continuam enfrentando barreiras sutis de integração e reconhecimento profissional, muitas vezes não por falta de competência, mas por percepções e estruturas sociais que ainda os colocam como “outros”.

Talvez seja exatamente isso que aparece em pequenas frases como aquela. Não é hostilidade aberta. É algo mais sutil. Mas ainda assim real. Saí do tribunal pensando muito nisso.

Portugal é um país profundamente marcado pela migração. Durante décadas, e ainda hoje, milhões de portugueses construíram suas vidas fora do país: na França, em Luxemburgo, na Suíça, no Brasil, nos Estados Unidos, em Angola e em tantos outros lugares.

É impossível contar a história de Portugal sem contar também a história da sua diáspora. Talvez, por isso mesmo, Portugal pudesse ser também um dos países que melhor compreendem o que significa chegar a um lugar novo. Saber o que é ser estrangeiro. Saber o que é precisar provar, mais de uma vez, que se pertence.

E sabe por que digo tudo isso? Porque tenho dois filhos, de 10 e 8 anos, que se mudaram para Portugal quando tinham apenas dois anos e meio e oito meses, respectivamente. Eles cresceram aqui. São portugueses. Se reconhecem como portugueses. Vivem esta terra como sua.

Mas têm também um orgulho imenso de serem brasileiros. E não por acaso. Porque isso faz parte da história da nossa família. Da nossa essência. Está no sangue, nas memórias e nas histórias que atravessam o Atlântico. Eles vivem isso no dia a dia, nesse lugar silencioso onde as identidades se encontram.

Portugal é a nossa escolha diária. Mas naquele espaço do meio, entre o Brasil e Portugal, é onde mora o nosso coração.

Não escrevo isso com amargura. Escrevo porque acredito que certas coisas precisam ser ditas. Porque algumas conversas precisam acontecer. E porque sociedades verdadeiramente maduras são aquelas capazes de olhar para si mesmas com honestidade, e crescer a partir disso.

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