Os discursos e os gestos políticos dos Óscares em sete momentos

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Embora a maioria dos vencedores e apresentadores dos Óscares de 2026 optasse por discursos apolíticos, alguns dos participantes aproveitaram a cerimónia para criticar os políticos, a violência contra as crianças e as guerras que ocorrem em todo o mundo. Além disso, os pins foram um dos acessórios da noite usados em nome de causas, a favor da Palestina e contra o ICE.

Pins com mensagens

“Não à guerra e Palestina livre”: foi com estas palavras que Javier Bardem iniciou o seu discurso quando subiu ao palco para apresentar os nomeados para Melhor Filme Internacional. Mas a sua posição ficou logo visível na passadeira vermelha devido aos pins que levou na lapela. Um dizia Não à Guerra e outro mostrava o Handala, o símbolo histórico da identidade e resistência palestiniana.

No entanto, o actor espanhol não foi o único a usar pins para passar uma mensagem. A cantora vencedora de um Grammy, Sara Bareilles, usou um onde se lia “ICE OUT” (Fora ICE), aludindo à repressão contra a imigração nos EUA lideradas pelo Serviço de Imigração e Alfândegas (com a sigla em inglês do ICE). O mesmo fez Malgosia Turzanska, designer dos figurinos da primeira temporada de Stranger Things. A escritora e activista queer americana Glennon Doyle decidiu usar uma carteira preta com letras de cristal branco com a frase “F–K ICE”.

Já Saja Kilani, actriz e poetisa, usou um pin dos Artists4Ceasefire, grupo que tem apelado por um cessar-fogo imediato e permanente em Gaza. Kilani é a protagonista do filme tunisíno A Voz de Hind Tajab, candidato a Melhor Filme Internacional.

Melhores actores negros

Michael B. Jordan tornou-se o sexto negro a vencer na categoria de Melhor Actor nos Óscares. Venceu pelo seu papel no filme Pecadores e quando recebeu a estatueta lembrou todos os actores negros que receberam o prémio: “Estou aqui por causa das pessoas que vieram antes de mim: Sidney Poitier, Denzel Washington, Halle Berry, Jamie Foxx, Forest Whitaker, Will Smith. E estar entre esses gigantes, entre esses grandes, entre meus ancestrais… obrigado.”

Michael B. Jordan lembrou todos os actores negros que venceram a estatueta dourada na Categoria de Melhor Actor
REUTERS/Danny Moloshok

Os adultos na sala

Joachim Trier, realizador que venceu o galardão para o Melhor Filme Internacional, Valor Sentimental, concluiu o seu discurso de vencedor com uma crítica clara a quem exerce actualmente o poder: “Quero terminar parafraseando o maravilhoso escritor norte-americano James Baldwin, que nos lembra que todos os adultos são responsáveis ​​por todas as crianças, e não vamos votar em políticos que não levam isto a sério.”

Joachim Trier não esqueceu as crianças vítimas das guerras
REUTERS/Mario Anzuoni?

Já depois da cerimónia justificou a sua frase à imprensa: “Acho que o mundo está num momento em que estamos a receber mais informações do que nunca sobre as injustiças cometidas contra crianças em diversas guerras em curso. E eu sinto, pessoalmente — tenho dois filhos pequenos — que eu e a maioria das pessoas ao meu redor choramos diariamente e sentimo-nos incapazes de fazer algo, porque vimos crianças palestinianas, da Ucrânia e do Sudão sofrerem, e não parece haver nenhuma responsabilização no momento.”

Atentados nas escolas, até quando?

Durante o seu discurso de agradecimento pelo Óscar de Melhor Curta-metragem Documental, o realizador de Todos os Quartos Vazios, Joshua Seftel, homenageou as quatro crianças mortas em tiroteios nas escolas, cujos quartos vazios foram mostrados no documentário: Hallie, Gracie, Dominic e Jackie. Com ele, subiu ao palco Gloria Cazares, mãe de Jackie, uma menina de nove anos morta no massacre da escola de Uvalde, em 2022. “A Jackie é mais do que apenas uma manchete. Ela é a nossa luz e a nossa vida. A violência armada é agora a principal causa de morte entre crianças e adolescentes. Acreditamos que, se o mundo pudesse ver os seus quartos vazios, seríamos uma América diferente. Obrigada”, declarou.

Gloria Cazares homenageou a filha morta num atentado a uma escola dos EUA, em 2022
REUTERS/ Mike Blake

EUA vs Rússia

O realizador David Borenstein, que venceu o Óscar na categoria de Melhor Documentário, Mr. Nobody Against Putin, também levou a política para o palco do Teatro Dolby: “O Mr. Nobody Against Putin trata de como se perde um país. E o que temos visto ao trabalhar com estas imagens é que isso acontece através de inúmeros pequenos actos de cumplicidade. Quando agimos como cúmplices, quando um governo assassina pessoas nas ruas das nossas principais cidades, quando não dizemos nada, quando os oligarcas assumem o controlo dos media e ditam a forma como produzimos notícias.”

Ao seu lado, Pavel Talankin, protagonista do filme e co-realizador, também aproveitou o momento para exigir o fim imediato de todas as guerras no mundo. “Durante quatro anos, olhámos para o céu em busca de estrelas cadentes para fazer um pedido muito importante. Mas há países onde, em vez de estrelas cadentes, há bombas e drones. Em nome do nosso futuro, em nome de todas as nossas crianças, parem já com todas estas guerras.”

David Borenstein, Pavel Talankin, Helle Faber e Alzbeta Karaskova, a equipa que venceu o Óscar para Melhor Documentário
REUTERS/Mario Anzuoni

Na sala de imprensa, Borenstein comparou ainda a Rússia e os EUA. “Uma coisa interessante em trabalhar com uma equipa de russos durante todo este processo foi o meu desejo, como americano, de comparar constantemente a situação nos EUA com a da Rússia. Mas muitos dos meus colegas e amigos russos sempre disseram que não, que não é a mesma situação. Na verdade, está a acontecer mais rapidamente nos EUA do que na Rússia. Trump agiu muito mais rapidamente do que Putin nos seus primeiros anos. Portanto, é tudo o que tenho a dizer sobre isso.”

Um tributo à resiliência

Logo no início da cerimónia de domingo à noite, o apresentador Conan O’Brien avisou que as “coisas poderiam tornar-se políticas” e não perdeu a oportunidade de se referir à programação alternativa de direita exibida durante o Super Bowl, em que Bad Bunny foi a estrela, no mês passado. “Vai haver um Óscar alternativo apresentado pelo Kid Rock no Dave and Busters [cadeia de restaurantes e entretenimento] aqui perto”, brincou.

O apresentador dos Óscares Conan O’Brien
REUTERS/Mike Blake

No final do monólogo, O’Brien deixou o tom humorístico de lado e declarou “sim, esta noite é um evento internacional. Se me permitem falar a sério por um instante, todos os que estão a assistir agora, em todo o mundo, sabem muito bem que estamos a viver tempos caóticos e assustadores”. E continuou: “É em momentos como este que acredito que os Óscares se tornam particularmente relevantes — 31 países em seis continentes estão representados esta noite, e cada filme que homenageamos é o resultado do trabalho árduo de milhares de pessoas a falar diferentes línguas, criando algo belo. Esta noite, prestamos tributo não só ao cinema, mas aos ideais da arte global, da colaboração, da paciência, da resiliência e daquela qualidade tão rara nos dias de hoje: o optimismo.”

Donald Trump, sempre

Quem, como já habitual, não se coibiu de criticar Donald Trump foi Jimmy Kimmel. Quando entregou os Prémios de Melhor Curta-metragem Documental e Melhor Longa-metragem Documental, o apresentador usou o humor: “Ouvimos falar muito de coragem em eventos como este, mas contar uma história que pode matar é verdadeira coragem. Como sabem, há alguns países cujos líderes não apoiam a liberdade de expressão. Não consigo dizer quais. Vamos deixar isto apenas na Coreia do Norte e na CBS.”

Jimmy Kimmel criticou Donald Trump
REUTERS/Mike Blake?

“Felizmente para todos nós, existe uma comunidade internacional de cineastas dedicados a contar a verdade, correndo muitas vezes grandes riscos para fazer filmes que nos ensinam, que denunciam a injustiça, que nos inspiram a agir. E também há documentários em que se anda pela Casa Branca a experimentar sapatos”, ironizou, aludindo ao documentário sobre Melania Trump, ao qual voltaria com a frase: “Uau, ele vai ficar zangado porque a mulher dele não foi nomeada”, fazendo referência mais uma vez ao Presidente norte-americano.

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