No 15.º aniversário da Uivo — Mostra de Ilustração, mais de 40 artistas expõem Um Mundo (s)em Guerra. Até dia 1 de Março, no Fórum da Maia, a ilustração impõe-se como um acto de reflexão e de resistência, de posicionamento e de activismo.
“Se podemos pensar numa ideia de paz como construção colectiva, então talvez seja neste encontro entre arte, ética e imaginação que reconheçamos a vocação maior da ilustração contemporânea — ser força para fazer do nosso um mundo melhor”, diz Cláudia Melo, curadora da exposição, que foi inaugurada no final de 2025.
Para Isidro Ferrer, um importante nome da ilustração e do design gráfico espanhol, que ali mostra o seu livro No, esta é uma “exposição necessária sobre o posicionamento ético face aos conflitos bélicos e à guerra, que neste momento é tão sangrenta em tantos lugares do mundo que está a mudar a fisionomia das emoções, dos sentimentos e dos posicionamentos”.
Além deste núcleo expositivo internacional, a Praça do Fórum da Maia mostra 11 ilustrações criadas por alunos de Escolas de Ensino Superior Artístico: Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto; Escola Superior de Educação (Instituto Politécnico do Porto), Instituto Politécnico Cávado e Ave e a Universidade Lusófona — Centro Universitário do Porto.
As paredes exteriores do fórum voltam a exibir desenhos em grande formato, com uma série de quatro ilustrações assinadas pelo artista mexicano David Álvarez.
Yaroslava Yatsuba (Ucrânia)
O artista palestiniano Fuad Alymani desenvolveu um projecto com crianças e jovens dos 10 aos 18 anos, articulando o seu percurso visual com a energia criativa da comunidade local. Trabalharam “a percepção de diferentes contextos vivenciais — locais de guerra e de paz”. O resultado é visível nas paredes da exposição da Uivo 15, transformando-o “num espaço vivo de encontro: um território partilhado onde a arte se torna diálogo, a criação desafia fronteiras”, diz a organização.
Do colectivo de artistas 3 Pontos… (Ricardo Gonçalves, Jacinta Costa e Carlos Casimiro Costa), pode ver-se e percorrer-se uma instalação a três dimensões que parte da dicotomia fundamental entre a guerra e a paz. Ali, os visitantes são convidados a desenhar ou a escrever sobre a guerra e sobre a paz.
No exterior, estão dispostos os cartazes de artistas ucranianos da campanha Stand with Ukraine e ilustrações do estúdio Aza Nizi Maza, conhecido por transformar o seu espaço criativo num abrigo durante a guerra e por dar voz, através da arte, ao olhar das crianças em tempo de conflito. Já no interior, a Casa da Democracia abre-se como um refúgio improvável.
Expressar a repulsa pela guerra
Isidro Ferrer, na masterclass que deu nos primeiros dias da exposição, contou o seu processo criativo para o livro que ali expõe, a partir de um texto de Paula Carbonell, e que foi publicado em Espanha em 2024.
“Recebi este texto há 17 anos e foi escrito por causa da guerra no Iraque”, começou por contar perante uma sala cheia de estudantes, professores e artistas plásticos.
“Um dia, ela viu na televisão imagens de um autocarro que tinha sido bombardeado. Era um autocarro escolar e todas as crianças que estavam lá dentro tinham morrido. A partir da raiva e da impotência, Paula Carbonell sentiu a necessidade de se expressar.”
Isidro Ferrer
Escreveu então um texto que começa assim: “O meu irmão e eu íamos para a escola. O meu amigo não chegou, a professora disse para voltarmos para casa. O meu irmão e eu não o encontrávamos.”
Isidro Ferrer leu o texto dois anos depois do fim da guerra no Iraque. “Fiquei comovido, parecia um texto importante. Eu ilustro-o, disse-lhe.” Mas não houve um prazo definido.
“Tiveram de passar 16 anos para que eu sentisse a mesma necessidade de dar forma visual ao texto que ela concebeu.” E isso aconteceu há dois anos, “quando, após o massacre do Hamas, que resultou na morte de mais de 1500 israelitas inocentes por um grupo terrorista, o governo de Israel decidiu entrar em Gaza e cometer uma das maiores atrocidades da humanidade, que é um genocídio, em que já há mais de 70.000 pessoas mortas, na sua maioria população civil, crianças, mulheres, idosos”.
O designer quis então desenhar a sua “repulsa”, não apenas por esse acontecimento em particular, “mas porque está a ocorrer um massacre horrível no Sudão e há uma situação de enorme injustiça na Ucrânia”.
Para ele, “o mundo está a mudar a uma velocidade vertiginosa, e nós, as pessoas que nos dedicamos a estas profissões, temos a capacidade de nos expressar, não sei se para mudar as coisas, acho que não, mas pelo menos para manifestar a nossa repulsa ou manifestar o que temos aqui”, diz, apontando ao coração.
João Vaz de Carvalho
O livro nasceu “de um impulso e de uma necessidade”. Para o criar, “fechou-se” durante quatro meses e enfrentou-o “de uma forma muito brutal, muito visceral”. Socorreu-se da sua formação em cenografia e escolheu trabalhar com essas ferramentas, ao contrário do que é habitual quando ilustra. “O teatro é o texto, é a actuação, mas também é a cenografia, a coreografia, a disposição cénica, é o movimento e é a luz.”
Inspirando-se nas diferentes visões de Adolphe Appia, Gordon Craig (com uma concepção do teatro para além da representação) e de Tadeusz Kantor (que via o teatro como emoção e ilusão), quis “aplicar essas teorias à construção dramática do livro”. E fê-lo.
A escada e o buraco
Em No, há dois elementos-chave que não fazem parte da narrativa, mas que são simbólicos: “Um é a escada e o outro é um buraco.”
Porquê a escada? “A escada permite-nos subir, escapar, aceder a algo que está acima.” Mais: “A partir da nossa concepção judaico-cristã, entendemos que o bem está em cima e o mal está em baixo, tudo o que é bom está em cima, o céu, as nuvens, mais alto não se pode chegar. Tudo o que tem que ver com a ilusão ascende e tudo o que tem que ver com o mal, com o diabo, com a maldade, com a perversão, o terror, a angústia, a morte, está no lado oposto, em baixo, o abismo, o buraco, a escuridão, o inferno.”
Foi essa dicotomia que quis representar no livro. Conseguiu. Um buraco vai crescendo progressivamente e ocupando cada vez mais espaço no “cenário”, à medida que as páginas avançam. E sentimo-nos afundar.
Parte final da história: “Tínhamos fome, o meu irmão adormeceu, o pai disse que se podia dizer: puta guerra.”
Artistas com trabalhos expostos: Ahmed ElKhalidi (Jordânia); Amanda Baeza (Chile/Portugal); Angelo Abu (Brasil); Bartek Kiełbowicz (Polónia); Charlie Guerreiro (Portugal); Chila Mochila (Portugal); Damien Glez (França/Burquina Faso); Daniel Garcia (Portugal); David Alvarez (México); Deimante Rybakoviene (Lituânia); Delfim Ruas (Portugal); Edgar Vargas Ávila (Venezuela); Elisabeth Pérez Fernández (Espanha); Fahd Al-Bahady (Síria); Fuad Alyamani (Estado da Palestina — Cisjordânia); Hani Abbas (Síria); Inês da Fonseca (Portugal); Isidro Ferrer (Espanha); João Vaz de Carvalho (Portugal); Karolis Strautniekas (Lituânia); Mar Reboredo (Argentina); Mo Qasem (Estado da Palestina); Mohammad Sabaaneh (Estado da Palestina); Mykhailo Skop (Ucrânia); Núria Tomàs Mayolas (Espanha); Pedro Ribeiro Ferreira (Portugal); Rabbit Hutch (Austrália); Ricardo Ladeira (Portugal); Rui Vitorino Santos (Portugal); Sonja Danowski (Alemanha); Twożywo (Polónia); Vasco Gargalo (Portugal); Yaroslava Yatsuba (Ucrânia); Aza Nizi Maza (Ucrânia); Poster Territory; Coletivo 3 Pontos… (Jacinta Costa, Carlos Casimiro Costa e Ricardo Gonçalves — Portugal)
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