A corrente de poeiras proveniente do deserto do Sara que atingiu na terça-feira Portugal continental, depois de ter passado pelo arquipélago da Madeira, intensificou-se nesta quarta-feira, com impacto em todo o território continental, e poderá prolongar-se até ao fim-de-semana. Para a próxima semana, está previsto um novo episódio.
Embora se esperasse que a maior parte das partículas circulasse a altitudes mais elevadas, a engenheira do Ambiente e investigadora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (Nova FCT) Joana Monjardino explicou ao PÚBLICO que as concentrações à superfície aumentaram na terça-feira, podendo provocar deposição de poeiras em automóveis, janelas e painéis solares, ao mesmo tempo que a frente fria e a precipitação inicialmente previstas não se confirmaram, impedindo a esperada “lavagem da atmosfera”.
“Tínhamos indicado que poderia haver uma redução das partículas devido à chuva. Como praticamente não choveu, as concentrações aproximaram-se do valor limite definido na legislação nacional para a protecção da saúde humana”, afirma.
O fenómeno deverá manter-se por todo o território continental até ao fim-de-semana. Depois, uma alteração meteorológica associada a baixas pressões no Norte de África poderá dar origem a um novo episódio, com início previsto para segunda-feira, adianta a investigadora.
No entanto, o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa Ricardo Dias lembra que as projecções assentam em dados meteorológicos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e em modelos que podem sofrer alterações. “Pode até ocorrer amanhã, mas não afectar tanto a região de Lisboa e acabar por se depositar mais no Atlântico”, exemplifica.
Como ocorre o fenómeno e chegam as poeiras a Portugal?
O deserto do Sara é a maior fonte global de poeiras de origem natural, explica Joana Monjardino. Numa depressão localizada no Chade — onde há milhares de anos existiu um grande lago —, permanecem vastos depósitos de sedimentos orgânicos e minerais. Devido às características geográficas e orográficas da região, a área funciona como um acelerador de ventos à superfície, capaz de levantar partículas muito finas e colocá-las em suspensão. Uma vez injectadas na atmosfera, essas partículas podem ser transportadas por milhares de quilómetros de distância, alcançando a Europa.
Segundo a investigadora, trata-se de um fenómeno relativamente frequente, especialmente activo no início da Primavera, embora possa ocorrer ao longo de todo o ano.
O fenómeno está a tornar-se mais frequente e intenso?
Não existem evidências científicas que comprovem que estes episódios estejam a tornar-se mais frequentes ou mais intensos, sublinha Joana Monjardino. Ainda assim, a investigadora reconhece que, “ao longo dos últimos 20 anos, temos vindo a observar episódios mais frequentes e mais intensos, pelo menos em Portugal”.
Segundo a especialista, não é ainda claro se esta tendência está associada às alterações climáticas — nomeadamente ao avanço da desertificação em algumas regiões africanas — ou se resulta da variabilidade natural do clima. “Estes fenómenos são relativamente frequentes e ocorrem em cerca de 20 a 30% dos dias do ano”, refere.
Já o professor Ricardo Dias considera que os episódios parecem hoje apresentar uma maior intensidade e diversidade, tornando-se, ao mesmo tempo, cada vez mais imprevisíveis.
Impactos negativos para a saúde humana
As elevadas concentrações reflectem-se no aumento de partículas em suspensão no ar, um poluente com efeitos adversos sobretudo ao nível do sistema respiratório. Joana Monjardino alerta que os grupos de risco — como doentes cardiovasculares ou pessoas com patologias respiratórias — devem estar particularmente atentos aos sintomas, procurar aconselhamento médico se houver agravamento e não interromper a medicação.
A especialista recomenda ainda evitar a prática de exercício físico ao ar livre durante os períodos de maior concentração. Além dos impactos na saúde, a deposição de poeiras pode reduzir a eficiência de painéis solares e afectar outras superfícies expostas.
Nem tudo é mau
Apesar dos impactos na qualidade do ar, estes episódios também podem ter efeitos positivos. Joana Monjardino explica que parte das partículas levantadas no deserto é transportada em direcção ao continente americano, carregando elementos como fósforo e ferro, nutrientes essenciais para ecossistemas como a Amazónia. Mesmo a longas distâncias, estes minerais podem contribuir para a fertilização natural dos solos.
Também em Portugal podem existir benefícios. “Basicamente, funciona como um adubo natural que vai caindo sobre as nossas terras”, explica Ricardo Dias, destacando o “potencial biotecnológico fantástico” destas poeiras. O especialista recorda que, sobretudo após vários anos marcados pela seca, muitos solos — em particular a sul do Tejo — apresentam baixos teores de matéria orgânica, o que dificulta determinadas práticas agrícolas. Nestes casos, a deposição natural de partículas pode ajudar a compensar essa carência.
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