As substituições sucedem-se. As razões não são tornadas públicas. Uma, depois outra. Todos os dias é afastado alguém que exercia bem as suas funções em áreas da cultura. Porquê? – perguntamo-nos. O trabalho tem sido realizado, bem realizado. O que justifica que os nomes todos os dias caiam?
Sabemos o que significa fazer isto, no passado há exemplos semelhantes, e sabemos que isso não significa ser mais exigente, ainda que também não percebamos por que razão se avalia com tanta “exigência” a cultura e os outros domínios da vida social e política sejam o que todos sabemos que são, ninhos de mediocridade.
Fui buscar esta fotografia de uma das últimas vezes que fui ao Museu do Aljube e Resistência com alunos. Fui lá muitas vezes e tenho a certeza de que este museu é um dos mais interpelantes para os alunos e público em geral. É um daqueles lugares onde sentimos que a verdadeira visita vale a pena, é tão boa ou melhor do que uma aula. O que se mostra, o que os alunos podem viver com o seu próprio corpo nas celas, diante de paredes que contêm os nomes e arquivos de perseguidos, o que eles podem ouvir dos guias, o que aprendem de História, política, cidadania, de testemunho, de exemplo, de estética, marca-os e torna a formação completa.
Este museu, e o trabalho que nele vem sendo desenvolvido com os alunos, toca-os emocionalmente, evoca o tempo como testemunho e não como deriva abstrata, dilata a sua compreensão dos factos e enquadra-os muitas vezes na genealogia das suas famílias, ou na de outras que lhes estão próximas, inquieta-os eticamente, confronta-os com um passado mesmo atrás deles e de onde ainda se ouvem as vozes dos que os antecederam, incita-os ao ato cívico da resistência, desperta neles a pergunta pela justiça, pela liberdade e igualdade que são as ideias-chave da democracia. E isso importa. Dizem-nos, a cada hora, isso mesmo nos documentos orientadores da ação política e da política educativa em vigor. Até há um tema na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento que se chama Democracia e Instituições e Participação Democrática. Este museu é uma instituição da democracia portuguesa, preserva a sua memória e leva-a para o presente. Tão bem que os antigos sabiam que não há futuro sem passado, tão mal que estes dirigentes sabem essa lição!
Este museu tem um enorme sentido estético e isso também importa: veja-se o estendal dos testemunhos. É mais uma vez o engenho de fazer, muito e significativamente, com pouco. Nem todos sabem fazer isso. Em Portugal, médicos, professores e gente da arte e da cultura têm de fazer assim, multiplicar o pouco em muito. O Museu do Aljube e Resistência tem-no feito e fá-lo, como disse, de uma forma bela. A beleza convida a aprender, porque envolve, predispõe os sentidos e a sensibilidade para o que há para aprender, a beleza não é um ornamento, é uma condição para fazer dos lugares moradas onde nos sentimos integrados e convocados a estar, ficar e voltar. Este museu tem feito isso.
Somos, por isso, forçados a fazer de novo a pergunta: porquê tirar de lá alguém que faz muito e faz bem? Atrevo-me a dizer, muito bem.
Precisamente por vivermos em democracia e, como ensino aos meus alunos, discuto a autoridade, a menos que ela se esteja a transformar em autoritarismo. E se está, então a decisão ainda é mais preocupante e traz consigo a lembrança de tempos que Arendt designou como sombrios, porque o medo e decisão sem porquê fazem-nos sentir a força com que nos apertam nas margens antes livres. E, apertando-nos assim, como também dizem as letras desse outro resistente que foi Brecht, constrangem-nos a ficar em silêncio, enquanto se adia uma pseudo legitimação para estas decisões que, por outro lado, parecem ainda querer fazer-nos distrair do essencial, ou do que também ainda não é claro na saúde, na educação, na política internacional.
Escrevo este texto na qualidade de cidadã e professora. Tendo recebido os serviços bem prestados e não tendo a atual diretora manifestado vontade de sair para desenvolver outro projeto, sinto o dever de questionar a autoridade desta decisão e de agradecer o trabalho desenvolvido em articulação com as escolas, que também são centros e comunidades de investigação. Na escola, como no museu, aprender tem como finalidade conhecer, conhecer para pensar e pensar para agir. Obrigada, diretora Rita Rato.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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