“Portugal é o país onde as casas se portam pior do que o clima”

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O clima mudou e as casas têm de o acompanhar. Com a Terra cada vez mais quente, os espaços que habitamos terão de se adaptar não só ao aumento das temperaturas, mas também a fenómenos extremos mais intensos e frequentes — das ondas de calor que transformam lares em locais inóspitos às tempestades que arrancam telhados e janelas.

“Portugal é o país onde as casas se portam pior do que o clima, como dizia nos anos 1990 um antigo professor meu, Eduardo Oliveira Fernandes”, diz ao PÚBLICO Clara Pimenta do Vale, professora da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP). Passadas algumas décadas, o diagnóstico permanece actual, nota a docente, numa conversa por videochamada.

Grande parte das habitações “não foi intervencionada” e permanece vulnerável ao sobreaquecimento no Verão, frio excessivo no Inverno e a fenómenos extremos para os quais não foi desenhada. “E é isso que temos de tentar alterar”, diz a investigadora do Centro de Estudos Nuno Portas da FAUP. As casas portuguesas foram desenhadas para um clima estável — mas esse clima “já não existe”.

Portugal chega a este ponto com um parque habitacional que envelheceu e com regras que, segundo os arquitectos ouvidos pelo PÚBLICO, nem sempre reflectem o clima de transição que caracteriza o Sul da Europa. O país é também um território onde a pobreza energética tem expressão significativa, e a nossa relação com as casas — o modo como foram construídas, usadas, reparadas ou abandonadas — denuncia um grande atraso na adaptação climática.

Começar pela raiz do problema

Como podemos então adaptar as casas ao clima actual e futuro? Por coerência, os arquitectos sublinham a urgência de o próprio processo construtivo se tornar menos intenso em carbono. Todos os anos, quase 40% de todo o dióxido de carbono (CO2) libertado para a atmosfera está associado ao sector da construção.

Para o arquitecto Diogo Lopes Teixeira, fundador do gabinete Hori-zonte, a formação em arquitectura ainda não prepara suficientemente os estudantes para compreender a dimensão científica do desempenho térmico e energético. Reconhece que só mais tarde, já na prática profissional, começou a perceber o “peso de um edifício em termos de massa carbónica” e a importância de medir — com rigor — o que se constrói.

Diogo Lopes Teixeira, do Hori-zonte, gabinete que desenvolveu um guia para orientar a arquitectura em direcção à sustentabilidade
Nelson Garrido

Um exemplo desta prática é o projecto Macau Valley, construído em Vila Nova Gaia. Ali, garante, o olhar arquitectónico vai além do conforto térmico, focando-se também no carbono incorporado. Com o apoio da Dosta Tec, uma empresa de engenharia bioclimática sediada no Porto, foi possível avaliar o ciclo de vida total do edifício. Estes dados ajudam a tomar decisões informadas durante o projecto, diz Diogo Lopes Teixeira.

“O resultado da análise da Dosta Tec, que nos acompanha desde o início, foi uma pegada de 461 quilos de CO2 equivalente por metro quadrado, valor que está significativamente abaixo do das médias europeias (600kg CO2e/m2)”, afirma o arquitecto da Hori-zonte ao PÚBLICO. O valor obtido também é inferior ao limiar de referência do Índice Ambiental do Porto, que é de 700kg CO2e/m2.

Diogo Lopes Teixeira descreve um projecto onde cada detalhe procura responder ao sol, ao vento, à temperatura e à necessidade de reduzir consumos. E defende que a arquitectura deve antecipar fenómenos extremos, como as ondas de calor que transformarão Lisboa numa cidade “mais parecida com o Norte de África” e o Porto numa cidade “mais parecida com Lisboa”. Estas projecções, alerta, não são especulação: são inevitabilidade científica com a qual a arquitectura tem de lidar.

O Macau Valley é descrito como um projecto onde o sol, o vento, a temperatura, a humidade e a topografia foram considerados num estudo preliminar. A orientação solar, o sombreamento e a ventilação cruzada foram “pensados para reduzir consumos energéticos” e evitar a dependência de meios mecânicos como o ar condicionado.

O aço e o cimento utilizado inclui 97% de conteúdo reciclado, segundo a descrição do projecto. As garagens dos edifícios não são totalmente subterrâneas, dispensando uma escavação profunda do terreno e o uso de maiores quantidades de betão — um material que requer uma quantidade brutal de energia para ser produzido.

Segundo o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), cerca de 8% de todas as emissões mundiais de CO2 resultam directamente da produção e do comércio de betão. Depois da água, o cimento constitui a substância mais utilizada no planeta.

O arquitecto Samuel Gonçalves, do estúdio Summary, defende métodos de construção mais limpos e o desenvolvimento de novos materiais
Summary/DR

Betão com casca de arroz

A indústria do betão é simultaneamente difícil de descarbonizar e prescindir. O arquitecto Samuel Gonçalves, fundador do estúdio Summary, rejeita a ideia de que o betão será eliminado das práticas construtivas. “Não vale a pena tentar erradicar o betão, já é algo incontornável, mas é preciso transformá-lo”, diz ao PÚBLICO.

Samuel Gonçalves acredita que temos de “continuar a investir a nossa energia no desenvolvimento de composições alternativas para o betão armado que não sejam tão prejudiciais do ponto de vista da produção”.

O problema maior reside na composição do cimento, responsável pela maior parte das emissões, e arquitecto sublinha que trabalhar com agregados reciclados, sempre que possível, melhora significativamente o impacto ambiental.

Em Portugal, um exemplo deste tipo de abordagem é a “casa casca de arroz”, construída em Ovar com resíduos daquele cereal. O material inovador do projecto foi desenvolvido pela empresa Farcimar, em parceria com o Instituto Superior Técnico e o Instituto de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico para a Construção, Energia, Ambiente e Sustentabilidade (Itecons)​.

Nesta casa construída em Ovar, a casca de arroz funciona não só como acabamento exterior, mas também como isolamento térmico
Alexander Bogorodskiy/DR

Samuel Gonçalves sublinha que a inovação material não precisa de encarecer a construção — pode torná‑la mais acessível se for adoptada em escala e integrada em sistemas modulares industriais.

O arquitecto explica que este tipo de solução, que recorre a subprodutos agrícolas como alternativa parcial ao cimento tradicional, beneficia ainda da lógica modular. Trata-se de peças de betão com casca de arroz produzidas em fábricas e transportadas até ao local de construção.

Elogio ao sistema modular

Samuel Gonçalves descreve a modularidade como uma forma de aumentar a qualidade e melhorar as condições de trabalho, comparando o processo à montagem de peças de Lego, desde que as ligações sejam pensadas para permitir desmontagens futuras.

“O betão é um material com um ciclo de vida muito longo”, sublinha o arquitecto, temos de rentabilizar esta durabilidade “concebendo peças que possam ser desmontadas e reutilizadas noutros edifícios” em vez de encararmos cada estrutura como descartável.

Módulos em madeira destinados à construção de 14 habitações públicas em Oeiras
Miguel Filgueiras/ DR

A modularidade, diz, “não é ficção científica”, e pode funcionar com madeira, betão ou outros materiais. Um exemplo disso mesmo é o projecto de 14 habitações públicas em módulos de madeira que estão a ser construídas em Oeiras, a pedido da autarquia local.

“A partir do momento em que trabalhamos abrigados, dentro de fábrica, conseguimos um controlo de produção muito maior”, afirma, sublinhando que isso permite fazer mais com menos, reduzindo custos directos e indirectos associados à obra tradicional ao ar livre.

A professora Clara Pimenta do Vale recorda que a pré‑fabricação já era defendida por Arménio Losa (1908-1988) no primeiro Congresso Nacional de Arquitectura, realizado em Lisboa em 1948. Mas a palavra “prefabricado” ficou, entretanto, marcada pelas soluções precárias do pós‑25 de Abril e pela produção pesada, de má qualidade, em betão.

Hoje, porém, nota a docente da FAUP, a modularidade permite maior controlo de qualidade, maior reciclagem de materiais e condições de trabalho mais inclusivas, com maior participação feminina em ambiente de fábrica. Mesmo assim, a arquitecta alerta: para saber se uma solução é sustentável, é sempre preciso calcular, medir. E isso implica metodologias específicas, porque a sustentabilidade, insiste, “é também uma questão de valores” e não apenas de marketing verde.

Clara Pimenta do Vale, professora da Faculdade de Arquitectura do Porto e investigadora do Centro de Estudos Nuno Portas
DR

O sustentável é acessível?

Um dos desafios da arquitectura sustentável é garantir que a sustentabilidade não encareça a construção nem a transforme num privilégio de poucos. Samuel Gonçalves explica que o mercado está viciado em soluções mecanizadas e em tecnologias “desproporcionais”, que aumentam custos iniciais e futuros das obras.

O arquitecto do Summary diz que muitas das exigências actuais obrigam a instalar equipamentos que, na verdade, “não seriam necessários se desenhássemos e isolássemos correctamente os nossos edifícios”. O preço da ineficiência normativa recai directamente sobre os utilizadores e sobre os municípios, que, segundo o arquitecto, poderão não ter capacidade financeira para manter sistemas tão complexos de ventilação e conforto térmico daqui a 15 anos.

Diogo Teixeira reconhece o mesmo problema: muitas soluções sustentáveis encarecem o custo inicial dos projectos e encontram resistência entre promotores que “privilegiam o lucro” e concentram decisões no orçamento imediato, e não no desempenho futuro do edifício.

Por isso, afirma, é crucial garantir mecanismos que alinhem construção sustentável com viabilidade económica, lembrando que a habitação a custos acessíveis financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) dá apenas “entre 5%, 10% e às vezes 15%” de peso ao critério ambiental nos concursos públicos, o que desincentiva a inovação e mantém os preços das soluções alternativas mais elevados e menos competitivos no mercado nacional.

A própria reabilitação, vista pelos três arquitectos como o caminho mais sustentável, é também uma questão de preços. Samuel Gonçalves alerta que demolir para construir de novo é um ciclo “mais rápido, eventualmente mais barato e mais imediato” para o sector, mas que cria um custo ambiental colossal, equivalente a “cerca de meia tonelada de emissões de CO2 por cada metro quadrado construído”.

Habitações com duas frentes favorecem a ventilação cruzada e o arejamento durante o Verão
Nelson Garrido

A construção nova é, portanto, duplamente cara: no presente e no futuro. A reabilitação, mais barata do ponto de vista ambiental e até estrutural, continua a ser travada por enquadramentos legais rígidos e por uma cultura que considera o novo mais rentável, mesmo quando não o é, segundo os arquitectos ouvidos pelo PÚBLICO.

Clara Pimenta do Vale acrescenta outra camada económica à discussão: a necessidade de manutenção. Explica que muitos sistemas instalados em nome da eficiência energética acabam por ser desligados porque as famílias não conseguem suportar o custo da energia ou porque desconhecem o funcionamento.

A docente relata casos em que grelhas de ventilação foram tapadas com papel higiénico para evitar o frio no interior das habitações, precisamente porque manter um sistema eficiente se torna financeiramente impossível para quem habita a casa. Assim, uma solução que parece sustentável no papel torna-se, na prática, cara e socialmente desigual.

Os três arquitectos convergem na ideia de que a construção amiga do clima não pode continuar a ser apresentada como um produto premium, reservado a quem pode pagar inovação. Tem de ser, antes, a base de um mercado habitacional justo. E isso só acontecerá quando a legislação deixar de impor tecnologias desnecessárias, quando a reabilitação for uma prioridade política, quando a industrialização permitir reduzir custos sem perder qualidade e, por fim, quando a medição do ciclo de vida de uma obra mostrar que a sustentabilidade, longe de ser um luxo, pode ser uma economia para quem vier a habitar aquele espaço.

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