Portugueses no Médio Oriente: “Dá medo, mas estamos num dos sítios mais seguros do mundo”

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A mais recente guerra no Médio Oriente – que começou no sábado, após o bombardeamento do Irão pelos EUA e Israel e consequente retaliação iraniana a vários países vizinhos, sobretudo naqueles que têm bases norte-americanas – deixou vários portugueses que moram ou estão a visitar estes países em estado de alerta.

O PÚBLICO falou com alguns portugueses que moram nos Emirados Árabes Unidos para saber como têm sido os últimos dias, enquanto os mísseis são interceptados no ar, e todos reconhecem que se sentem seguros apesar da tensão. “Isto dá-nos medo, não estamos habituados. Mas estamos num dos sítios mais seguros do mundo para poder lidar com esta situação”, refere Marcos Pereira, que trabalha em Abu Dhabi.

Bárbara Lopes e Nuno Lopes, 31 e 33 anos

O casal Bárbara Lopes e Nuno Lopes tem seguido as recomendações para ficar por casa e tem tentado manter-se afastado das janelas e das varandas no terceiro andar em que moram, no Dubai. “É mais prudente ficar em casa por causa da intercepção dos mísseis. Não queremos sair e cair alguns destroços em cima de nós”, diz Bárbara Lopes. O casal, que está há pouco mais de um ano nos Emirados Árabes Unidos, também vai partilhando informações e algumas recomendações na sua página no Instagram.

“Hoje [segunda-feira] está um dia mais calmo”, diz Nuno Lopes, que trabalha numa empresa de tecnologia de comunicação. “De manhã ouvimos algumas explosões, algumas intercepções de mísseis. A tensão mantém-se, não tão alta quanto sábado.” O casal diz que se sente seguro “dentro do possível” e notam que já se vêem mais pessoas na rua.

“As aulas estão a ser leccionadas online para as crianças. O metro manteve-se a funcionar porque os estafetas continuam a trabalhar, as pessoas das farmácias e supermercados também, então precisam dos transportes”, descreve Bárbara Lopes, de 31 anos.

No sábado, depois de verem as notícias, foram ao supermercado. Não foram os únicos com a mesma ideia: “Já não havia carrinhos, havia pouca carne, claramente as pessoas estavam a prevenir-se”. Enquanto estavam no supermercado, ouviram duas explosões e vieram ao exterior, onde ainda viram fumo no ar. Em casa, na varanda, também “foram vários” os mísseis que viram a ser interceptados. À noite, receberam as mensagens de emergência com recomendações. O casal considera importante seguir estas informações oficiais porque “há muita desinformação“. “As nossas famílias estavam em pânico em Portugal” por terem visto informação falsa, reconhece Nuno Lopes.

Cerca de 20 mil viajantes ficaram retidos no Dubai devido à suspensão dos voos e os Emirados Árabes Unidos anunciaram que pagariam pelos hotéis e refeições de quem não conseguisse viajar. A criadora de conteúdos refere que também foi oferecido apoio psicológico a quem precisasse, até porque “toda a gente reage de uma forma diferente nesta situação”. Um casal amigo esteve em casa de Bárbara e de Nuno porque não se sentiam tão seguros por morarem num trigésimo andar. “Tentamos falar uns com os outros para nos acalmarmos, é importante mantermos a calma porque não há nada que possamos fazer: os aeroportos estão encerrados”, diz Nuno. “Nós somos um casal jovem que não tem filhos, compreendemos que quem tem filhos tem outra posição quanto a uma situação destas”, reconhece Bárbara.

O casal de Braga sente que os acontecimentos dos últimos dias não os fizeram mudar de perspectiva quanto a permanecer no país. “Pelo contrário”, acrescenta Bárbara. “Obviamente que isto é uma situação pela qual ninguém quer passar, no entanto, isto também mostra como o país e a nossa cidade está preparada para dar resposta. Foram imensos os mísseis e imensos os drones e quase todos eles foram interceptados”, refere Nuno Lopes. “Os bens essenciais não deixaram de existir e o apoio mantém-se.”

“Já vivemos noutros países e temos a plena noção de que, se existisse uma acção destas, nunca teríamos o apoio e segurança que o Governo dá”, refere Bárbara Lopes.

Marcos Pereira, 36 anos, operador de replays

Quando soube das notícias dos ataques, Marcos Pereira sentiu-se assustado: “Não sabia bem como é que havia de lidar com isto, nunca passei por algo semelhante”, reconhece. Foi quando estava no supermercado em Abu Dhabi que começou a receber alertas da protecção civil: primeiro em árabe, depois em inglês, a pedirem cautela e para permanecerem em casa, afastados das janelas.

O som dos alertas ecoou pelo supermercado. “Começou o telemóvel de toda a gente a tocar” com um som estridente, conta. Enquanto estava no carro a ir do supermercado para casa, viu um clarão no ar e vários mísseis a serem interceptados, com os destroços a caírem. Nesta segunda-feira, o cenário já está mais calmo, diz. “Não vou dizer que não me preocupa e que não me assusta, mas temos de viver com isto porque não há nada que possamos fazer.”

“A primeira coisa que fiz foi desligar-me das redes sociais”, revela, porque sentiu que as pessoas estavam a entrar em pânico. “Tenho visto muito pânico nas redes sociais mas, na verdade, para as pessoas que vivem aqui não tem acontecido praticamente nada que afecte as nossas vidas”. Na zona onde está, viu pelo menos dez mísseis a serem interceptados.

Nas ruas de Abu Dhabi, “nota-se que há muito menos movimento”, diz Marcos Pereira. Como estão em pleno Ramadão, muitas pessoas juntavam-se depois do pôr do sol para comer e conviver, descreve o operador (que trata da edição dos lances em transmissões desportivas); agora, depois dos ataques, “esse movimento extra do Ramadão acalmou bastante”.

Marcos tem continuado a trabalhar presencialmente na Abu Dhabi Media e a única coisa em que tem reparado de diferente são algumas falhas de sinal. Quem trabalha em Abu Dhabi mas vive no Dubai tem de fazer 140 quilómetros e sente-se mais “exposto” na viagem, então algumas pessoas têm-se recusado a trabalhar presencialmente. “Do que ouço dos meus colegas, no Dubai tem sido pior porque os destroços caíram mesmo em cima de edifícios.”

O operador de replays natural de Barcelos costuma ir de bicicleta para o trabalho e tem notado muito menos trânsito, além de também se sentir exposto no trajecto. De resto, tem tentado fazer a sua vida “dentro do normal”, até para não se deixar tomar pelo pânico. “A normalidade só foi afectada por uma questão de precaução”, considera.

“Claro que é estranho, é um ambiente tenso. Dá-nos medo, não estamos habituados. Mas estamos num dos sítios mais seguros do mundo para poder lidar com esta situação”, aponta. “As defesas aéreas funcionam e funcionam muito bem. A única coisa que podemos fazer é manter a calma e esperar.”

Por agora, vai permanecer no país a trabalhar, mas toda esta situação deixou-o a pensar no futuro. Tinha pensado em levar a família para o país (a mulher e a filha de cinco anos) porque “Abu Dhabi é uma cidade muito acolhedora para famílias”, mas agora já pensa duas vezes. “Não vou tomar decisões precipitadas”, diz. O que mais o preocupa é o que irá acontecer no futuro na região do Médio Oriente, destroçada que está a “estabilidade que tinha sido difícil de alcançar”. “Como era antes não vai ser mais”, diz.

Clive Castro, 34 anos, empresário

Mesmo depois dos ataques, o empresário Clive Castro continuou a trabalhar presencialmente no escritório. Vai de carro, e a única coisa que notou foi que havia menos trânsito na estrada, por haver mais gente a seguir a recomendação das autoridades para ficar em casa.

“As pessoas continuam no seu dia-a-dia e acho que isto não é assim tão grave como parece”, conta, em conversa com o PÚBLICO. “”Estou a seguir o meu dia normal: estou a ir ao ginásio, estou a jantar fora, está tudo ok. As pessoas de Portugal estão mais preocupadas do que as pessoas daqui”, comenta.

Clive Castro mora há dois anos e meio no Dubai e, na zona onde vive – em Nad Al Sheba, que fica a cerca de 15 minutos de carro da baixa da cidade – não ouviu explosões. “Honestamente, acho que os alertas [nos telemóveis] foram o mais assustador. Quando o telefone toca ninguém está à espera, os sons de alerta dos telemóveis são ensurdecedores”, descreve.

O empresário, que tem pais madeirenses e nasceu na África do Sul, reconhece que há alguma instabilidade no ar: “Está um pouco tenso, mas as pessoas estão a seguir a sua vida normal. Alguns sítios estão fechados, mas a maior parte dos serviços está a funcionar normalmente”. Ainda assim, sente-se seguro e esta tensão não o faz ponderar sair do país, que considera ser o mais seguro do mundo. “Mesmo quando os voos voltarem, vou continuar por aqui.”

No seu círculo de amigos também não sente que haja pânico. “As pessoas estão mais por casa e estão a fazer os possíveis para manter os seus familiares em Portugal descansados, é o que eu sinto”, diz. Clive Castro tem assistido a “muitos criadores de conteúdo a espalharem fake news” e notícias sensacionalistas, por isso deixa o alerta para a importância de seguir canais oficiais e informação fidedigna. Sem esquecer: “É preciso manter a calma.”

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