
Viajamos para o Parque Nacional Altos de Campana, no Panamá. A marmita de Brian Gratwicke estava cheia de rãs.
Ajoelhado no chão enlameado da floresta tropical, o biólogo abriu o seu frigorífico vermelho Coleman e apanhou uma. Era uma rã-foguete-de-pratt (Colostethus pratti) — do tamanho de uma noz, com riscas a preto e branco. Gratwicke depositou a rã numa pequena tenda de rede, uma espécie de “jaula” para animais domésticos espreitarem o exterior, e encorajou-a a habituar-se ao seu novo lar de transição.
“Lá vais tu”, disse-lhe. “Olha para toda esta bonita manta de folhas.” A rã disparou para o tapete de folhas, sem saber que acabara de saltar para uma experiência de alto risco.
Brian Gratwicke é um biólogo de conservação que dirige o trabalho com anfíbios no Zoológico Nacional e no Instituto de Biologia de Conservação da Smithsonian. Viajou para o Panamá, a meio da época das chuvas, para ajudar a ressuscitar espécies de rãs que tinham desaparecido da floresta tropical húmida há décadas.
Se estes anfíbios conseguirão estabelecer-se por conta própria e prosperar aqui de novo, é algo que permanece incerto.
O que se torna cada vez mais claro é que, sem eles, os seres humanos estão em apuros. Afinal, as rãs — conhecida praga da Bíblia — são, na verdade, guardiãs contra a doença.
Melina Mara/The Washington Post
Menos rãs, mais mosquitos, mais malária
À medida que dezenas de espécies de rãs foram diminuindo em toda a América Central, os cientistas assistiram a uma cadeia de acontecimentos impressionante: com menos girinos para consumir as larvas de mosquito, as taxas de malária transmitida por mosquitos na região subiram, resultando num aumento quíntuplo de casos.
A descoberta desta ligação faz parte de uma área emergente de investigação em que ecologistas e economistas tentam calcular os custos do declínio das espécies.
Os investigadores estão a revelar formas ocultas pelas quais populações prósperas de muitas plantas e animais — incluindo lobos, morcegos, aves e árvores — sustentam o bem-estar da humanidade.
Estão a aprender que, sem salvar a natureza, não nos podemos salvar a nós próprios.
Melina Mara/ The Washington Post
O mistério das rãs que desapareciam
No início, ninguém sabia por que razão as rãs pareciam estar a desaparecer por todo o lado.
No Texas, alguns herpetólogos pensavam que as garças-brancas as estavam a comer. No Connecticut, as pessoas culpavam os guaxinins. No Brasil, atribuíam a culpa a uma vaga de frio. Mas o facto de tantas rãs estarem a desaparecer de tantos lugares no início dos anos 90 sugeria que algo generalizado, mas invisível, estava por detrás do declínio.
Karen Lips era estudante de doutoramento na altura, a trabalhar com anfíbios na Costa Rica, perto da fronteira com o Panamá. Numa visita em 1993, não conseguiu encontrar os sapos que havia estado a estudar. “Quase tudo tinha desaparecido”, recordou. Num primeiro momento, culpou o tempo, a sua lanterna de cabeça, a sua técnica de busca.
Depois lembrou-se de que uma espécie de sapo aparentada havia desaparecido algumas centenas de quilómetros a norte. Ocorreu-lhe: talvez uma “onda” mortífera de rãs estivesse a varrer estes animais de montanha em montanha.
Fosse o que fosse, Karen queria investigar o fenómeno. Instalou acampamento mais a leste, numa floresta no Panamá. Pensou que teria muitos anos para estudar as cerca de 40 espécies de rãs ali existentes. Mas, em 1996, muitas das que ia apanhando estavam ressequidas e letárgicas.
“Por vezes davam um salto e era o seu último fôlego de energia”, recorda Karen Lips, que actualmente é ecologista no Instituto Internacional para a Análise de Sistemas Aplicados. “Davam um grande salto para tentar escapar. E depois já não se conseguiam mover de modo algum, e morriam ali mesmo.”
O fungo fatal
Depois de ter ajudado a publicar uma fotografia de uma infecção na pele das rãs, herpetólogos que estudavam rãs selvagens na Austrália e outras em cativeiro no Zoo Nacional perceberam que estavam todos a lidar com a mesma doença: um fungo que viria a ser apelidado Batrachochytrium dendrobatidis, ou Bd, de forma abreviada.
Julgando-se ter tido origem na Ásia ou em África, o Bd pode ter-se infiltrado em navios ou aviões para atravessar oceanos de outro modo intransponíveis. Cobre agora todos os continentes excepto a Antárctida (onde não há rãs).
O agente patogénico microscópico mata ao escavar-se na pele sensível de um anfíbio, bloqueando electrólitos e esgotando os músculos da sua força. Por fim, uma rã infectada fica tão fatigada que o seu coração pára.
À medida que o fungo avançava para leste pelo Panamá, Brian Gratwicke e os seus colegas apressaram-se a resgatar o maior número possível de rãs. Persuadiram uma empresa de transporte marítimo a ceder sete contentores a uma instalação da Smithsonian situada a uma hora da Cidade do Panamá. Aí, ao longo do Canal do Panamá, construíram uma arca improvisada, empilhando cada contentor do chão ao tecto com terrários cheios de rãs para um programa de reprodução em cativeiro.
A Smithsonian concentrou-se em salvar nove espécies que avaliou como estando no estado mais crítico. “É triagem absoluta”, admite Gratwicke. “Não conseguimos tratar de 200 espécies.”
Entre as visadas para preservação estava a rã-dourada-do-panamá, um ícone nacional e símbolo de boa sorte, representada em estandartes e latas de cerveja.
“É um peso enorme de responsabilidade sobre os nossos ombros”, desabafa Gratwicke. “Porque se falharmos, falhamos com toda uma espécie.”
Neste ano, os investigadores trouxeram também para o cativeiro uma população de rãs-foguete-de-pratt que havia desaparecido do parque nacional mas sobrevivera noutro local, possivelmente por terem desenvolvido alguma imunidade ao fungo. Brian Gratwicke e os seus colegas estavam a transladar duas dúzias dessas rãs potencialmente resistentes para Altos de Campana. Após duas semanas, os investigadores iriam abrir os fechos das tendas, na esperança de que as rãs transplantadas pudessem ajudar a repovoar o parque.
Apocalipse das rãs
A nível mundial, as populações de rãs entraram em colapso por causa do Bd. O fungo afectou mais de 500 espécies de anfíbios, dizimando pelo menos 90 ao ponto de se considerar que estão extintas na natureza.
Para os investigadores que assistiram a tudo isto ao longo das últimas três décadas, era evidente que estava em curso um apocalipse das rãs. O fungo, a par das alterações climáticas e da perda de habitat, tornou os anfíbios o grupo de vertebrados mais vulnerável da Terra.
Karen Lips começou a estudar os efeitos em cascata destas perdas maciças. Descobriu que as algas prosperavam nos locais onde não havia girinos para as consumir. As populações de serpentes, entretanto, diminuíam com menos rãs adultas para comer.
Ao descrever esta perturbação a outros cientistas, despertou o interesse de Michael Springborn, economista ambiental na Universidade da Califórnia em Davis. “Já tinha ouvido falar um pouco do Bd”, recordou, “mas envergonhei-me ao perceber que não compreendia realmente o quanto havia sido impactante.” Os dois decidiram trabalhar em conjunto.
Ligação rãs-humanos
Com ferramentas estatísticas habitualmente utilizadas em economia, mapearam a mortandade de rãs e a propagação do fungo condado a condado pela Costa Rica e pelo Panamá.
Depois compararam essa propagação com os registos de saúde ao nível do condado relativos à malária em humanos. Encontraram um padrão surpreendente: um aumento quíntuplo nos casos de malária após a chegada do fungo e a morte das rãs. Lips, Springborn e os seus colegas publicaram a descoberta em 2022 na revista Environmental Research Letters.
A forma afunilada da região, delimitada de ambos os lados pela Caraíbas e pelo Pacífico, permitiu-lhes acompanhar a propagação da doença em detalhe. “Tivemos sorte num certo sentido, pois há esta… faixa estreita onde o Bd foi, por assim dizer, canalizado”, lembra Michael Springborn.
DR
Alguns herpetólogos, afirma Karen Lips, contentar-se-iam em permanecer na sua área e simplesmente “contar as rãs”. Mas a especialista previu que, “se conseguíssemos ligá-lo às pessoas, talvez conseguisse ter mais impacto. Talvez as pessoas se importassem”.
Os biólogos documentaram há muito tempo as formas pelas quais as pessoas beneficiam da natureza — o que, nos círculos académicos, se designa por “serviços de ecossistemas”.
As abelhas polinizam as culturas, as árvores absorvem da atmosfera o dióxido de carbono que retém o calor e os recifes de coral protegem as comunidades costeiras das tempestades e fomentam o aumento de peixe para alimentação.
Melina Mara/The Washington Post
Mortes infantis, cardiovasculares e respiratórias e mortes por raiva
Mas o esforço interdisciplinar para descobrir a relação entre a biodiversidade e a saúde humana — uma abordagem designada por One Health (Uma Saúde) — está apenas a começar a desvendar ligações ainda mais profundas.
Nos Estados Unidos, investigadores demonstraram que um colapso das populações de morcegos insectívoros levou os agricultores a utilizar mais pesticidas nas culturas, o que, por sua vez, conduziu a uma taxa de mortalidade infantil humana mais elevada.
Na região dos Grandes Lagos, o ressurgimento dos lobos cinzentos teve o efeito surpreendente de manter os automobilistas em segurança. Os canídeos percorrem as bermas das estradas enquanto caçam, afugentando os veados das travessias e reduzindo as colisões com automóveis.
Também na América do Norte, o escaravelho-esmeralda-do-freixo invasor devastou os freixos [espécie de árvores], contribuindo para temperaturas elevadas e um aumento de mortes cardiovasculares e respiratórias.
A Índia pode ter sido palco da mais espantosa ruptura ecológica de todas. Após os abutres sofrerem uma mortandade em massa, as carcaças de gado que antes recolhiam acumularam-se. Matilhas de cães vadios tomaram o lugar dos abutres, provocando um aumento de mortes por raiva.
Eyal Frank, economista da Universidade de Chicago que ajudou a estabelecer a ligação nos estudos de caso dos morcegos e dos abutres, disse que muitas vezes não nos apercebemos de quão crucial uma planta ou animal é para o nosso bem-estar até ele desaparecer.
“Porquê preservar a biodiversidade?”, é a pergunta retórica de Eyal Frank. “Pode ser que hoje não nos apercebamos que esta espécie é importante. Mas podemos vir a percebê-lo no futuro.”
Melina Mara/ The Washington Post
As taxas de malária: rãs e outras causas
Em 2012, o fungo que mata rãs havia conquistado o Panamá, atingindo o seu ponto mais oriental, o Darién.
Uma selva remota e sem estradas, a região é conhecida como um trecho traiçoeiro para os migrantes que tentam fazer o seu caminho da América do Norte para a América do Sul. A população residente é pequena e é constituída maioritariamente por tribos indígenas.
Jando Mejia, do povo Wounaan, seminómada, calcula que foi picado quando visitava a sua mãe ali em 2023. Quando um mosquito se agarrou à sua pele e sugou o seu sangue, deve ter depositado no seu corpo o parasita unicelular chamado plasmodium.
Em poucos dias, o parasita começou a fazer estragos, invadindo e multiplicando-se nos seus glóbulos vermelhos. Os seus olhos e língua ficaram amarelos. A sua cabeça parecia estar a partir-se de dores.
“Não conseguia sentir o sabor da comida. Perdi o apetite e sentia tonturas e fraqueza. Não conseguia fazer nada.”
Jando Mejia estava nessa altura na casa da sua irmã no centro do Panamá. A casa assenta sobre pilares de betão para afastar cobras e outros animais selvagens, mas as suas paredes de contraplacado e as janelas abertas oferecem pouca protecção contra os mosquitos que zumbem. Fumo de espirais repelentes flutua no ar para afastar os insectos. Nas proximidades, os vendedores da aldeia vendem figurinhas de rã-dourada.
A sua irmã instalou-lhe uma cama no chão. A sua mãe fez a viagem do Darién para ajudar. “Estive na cama durante uma semana. Mal me lembrava de nada.”
Mesmo depois de os piores sintomas terem diminuído, passaram semanas até ter forças suficientes para regressar ao seu emprego a 15 dólares por dia numa quinta a cultivar café e bananas-da-terra.
“Não estava normal”, recorda a sua irmã, Chanita Mejia. “Mesmo subir uma pequena colina era difícil. Sentia-se cansado.” Quando conseguiu voltar ao trabalho, tinha perdido um mês de rendimentos.
Nenhum caso individual de malária pode ser atribuído à vaga de mortes de rãs. E outros factores também podem ter contribuído para o aumento dos casos. José Ricardo Rovira, investigador de mosquitos no Indicasat, um instituto panamenho, assinalou que os caminhos abertos por migrantes que atravessam o Darién facilitaram ainda mais a propagação dos mosquitos portadores de malária.
Mas Michael Springborn, Karen Lips e os seus colegas estimam que houve dezenas de milhares de casos adicionais da doença no Panamá e na Costa Rica na década seguinte ao declínio dos anfíbios. Embora seja difícil estimar, esse aumento de casos teria conduzido a “um punhado” de mortes adicionais por ano, disse Springborn.
Rovira sabe bem como a doença pode ser debilitante. Recorda vividamente a febre e os calafrios que experimentou depois de contrair malária duas vezes enquanto colocava armadilhas para mosquitos no Darién.
Diz que não teme a malária, mas aprendeu a respeitá-la. Com 75 anos, tem consciência de que deve ser cauteloso. “Já não vou muito ao campo”, admite.
Melina Mara/The Washington Post
Restaurar as rãs
Na recente viagem de Brian Gratwicke ao Panamá, depois de depositar as rãs-foguete-de-pratt nas suas tendas, voltou-se para a questão de quanto Bd ainda existia por ali.
Desceu a passo largo uma série de quedas de água num ribeiro ruidoso, varrendo com a sua lanterna a margem enlameada. A luz captou um brilho amarelo. Era uma rã-foguete-do-panamá, uma espécie aparentada. Fiel ao seu nome, disparou ao ser avistada. A caçada começou.
Com um pau, Gratwicke empurrou a rã fugitiva para a água. “Esperem, vai subir”, previu, inclinando-se sobre o ribeiro. Os pios semelhantes aos de pássaros das rãs-foguete costumavam encher esta ravina, explicou. Agora, salvo o caudal da água, estava maioritariamente silenciosa.
“Oh, apanhei-a!”, exclamou Gratwicke depois de mergulhar as mãos enluvadas no ribeiro. Retirando um longo cotonete de algodão, esfregou os pés, as coxas e a barriga das rãs antes de as libertar. (Testes laboratoriais aos cotonetes revelariam mais tarde que o Bd estava presente num terço das rãs retiradas da água nesse dia.)
A paragem seguinte foi o acampamento de uma rã-de-coroa-arbórea. Esta rã castanho-chocolate havia sido criada num laboratório da Smithsonian e, após duas semanas a habituar-se à floresta, estava pronta para ser libertada — num local ainda perigoso.
Nate Weisenbeck, colega de Gratwicke na Smithsonian, esticou o braço e abriu a frente de um cubo de rede pregado a uma árvore que bamboleava na encosta da montanha.
“Isto é um projecto-piloto”, disse Brian Gratwicke. “Como é a primeira vez que isto é feito, não se consegue prever realmente todas as coisas que podem correr mal.”
Os investigadores estão a tentar dar às suas rãs as melhores hipóteses de sobrevivência, mas não sabem se sucumbirão ao fungo ou a outros predadores. O trabalho é apoiado financeiramente pelo Fundo Terra Bezos, uma iniciativa filantrópica do proprietário do Washington Post, Jeff Bezos, assim como pelo Zoo da Montanha Cheyenne, pelo Zoo Nova Inglaterra e pelo Governo panamenho.
Nate Weisenbeck tinha instalado uma variedade de possíveis abrigos para a rã escolher: um colmo oco de bambu, uma pilha de vasos de plástico preto, uma casinha de pássaros em madeira.
Quando os investigadores regressaram cerca de seis horas depois, usando lanternas de cabeça para navegar na selva em breu absoluto, todos esses potenciais lares estavam vazios.
Weisenbeck desdobrou uma antena de seis braços num dispositivo que apitava para indicar se estava a aproximar-se do localizador atado às costas da rã.
Circulou em torno da árvore: bip… bip…
Tinha cuidado com os seus pés, para não pisar inadvertidamente uma rã. O dispositivo ficou mais alto. Bip… Bip…
Rodou para evitar que a antena ficasse enredada na vegetação. BIP… BIP… BIP…
“Muito bem, Nate”, disse Gratwicke. Weisenbeck inclinou-se para tirar uma última fotografia da sua rã, pousada numa planta a cerca de nove metros da árvore.
“Ela é selvagem. Sim, esta pode ser a última vez que a vemos”, disse Weisenbeck.
Este artigo faz parte da série “Espécies que nos Salvam” do Washington Post, destacando ligações entre a natureza e a saúde humana. Esta reportagem foi apoiada pelo Pulitzer Center.
Exclusivo PÚBLICO/ The Washington Post
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