Projecto português cria plataforma para treinar velejadores de elite

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A crescente exigência técnica da vela de elite, impulsionada por circuitos altamente competitivos e profissionais como o SailGP, coloca uma barreira na entrada na classe que é considerada “a principal referência mundial na vela”: a necessidade de adquirir competências específicas em foiling para competir em barcos altamente automatizados. Conhecedor deste cenário, Renato Conde, que possui um vasto currículo nos bastidores da vela internacional de alto rendimento, avançou com um projecto próprio, que passa por evoluir os catamarãs da classe GC32 e transformá-los numa plataforma de treino reconhecida, capaz de preparar e certificar, de forma mais acessível, velejadores para o universo SailGP.

O percurso de Renato Conde cruza alguns dos mais exigentes patamares da vela de elite. Com experiência na Ocean Race – equipa de terra da Mapfre – e na America’s Cup – foi shore crew da Team Softbank Japan e da Ineos Team UK –, o velejador português construiu carreira entre a competição e o trabalho técnico de alto nível, apresentando um perfil cada vez mais requisitado nas grandes competições: o do velejador que é simultaneamente atleta e especialista técnico, desempenhando com eficiência funções entre a água e o estaleiro.

Nos GC32, Conde afirmou-se como bowman da SAP Extreme Sailing Team, uma das equipas de topo da classe, contexto que serviu de ponte para a entrada do aveirense no universo do SailGP, onde tem vindo a colaborar com a Rockwool Denmark SailGP Team. Foi através dessa experiência directa que identificou uma lacuna clara no circuito: “A falta de uma plataforma de treino foi evidente desde cedo”, revela Renato Conde ao PÚBLICO.

“No SailGP, o calendário apertado e a complexidade logística limitam o treino fora das provas. A montagem dos barcos, a necessidade de pavilhões e de equipas técnicas especializadas tornam tudo muito difícil — e extremamente caro.”

Essa limitação, acrescenta o velejador, reflecte-se na performance. “As equipas mais competitivas são as que têm experiência prévia. A performance está directamente ligada às horas de prática, mas neste momento não existe uma plataforma que permita treinar de forma consistente fora dos eventos.”

Assim nasceu um projecto totalmente português, independente e privado, que procura responder a esse vazio. Em vez de desenvolver um barco de raiz, Renato Conde optou por trabalhar numa base já existente. “A ideia é criar uma plataforma mais acessível, tentando colmatar uma lacuna no mercado.” E os GC32, hoje desvalorizados, permitem essa abordagem: catamarãs que custavam cerca de 480 mil euros estão agora “disponíveis por valores entre 150 e 180 mil euros, o que torna viável utilizá-los como base para desenvolvimento”. O investimento total em cada barco, deverá rondar os 200 mil euros.

A transformação, porém, é profunda. “Queremos criar um barco mais apelativo e actualizado, com maior semelhança aos veleiros de alta performance como são os do SailGP, nomeadamente ao nível da navegabilidade com T-foils.” Entre as alterações estão novos foils, lemes, proas e um plano vélico distinto, mas também mudanças estruturais na operação.

Uma das mais significativas é a introdução de cockpit integrado e roda de leme, o que permitirá “facilitar a condução, melhorar as manobras e optimizar o desempenho geral”, explica ao PÚBLICO. A centralização dos comandos e a electrificação de sistemas aproximam o comportamento do barco aos F50, os catamarãs de alta performance com hidrofoils, capazes de superar 100km/h (54 nós), que competem no SailGP.

Sem contar com apoios ou parcerias externas, Renato Conde tem ao seu lado, no estaleiro da Gafanha da Nazaré dois barcos que estão já em fase avançada de modificação, e o seu irmão, Gilberto Conde, responsável “pelo desenvolvimento técnico, nomeadamente no desenho dos foils e dos mecanismos”. “Têm sido muitas horas a trabalhar, a desenvolver ideias, a cortar e transformar carbono, mas nós temos a experiência, o know-how e a capacidade para o fazer.”

E esse trabalho já começa a despertar atenção. “Inicialmente, no SailGP havia alguma resistência à ideia de criar algo semelhante aos barcos usados no circuito, mas, com o crescimento e investimento da classe, a percepção mudou. Hoje existe curiosidade real sobre o que poderá resultar deste projecto e há contacto frequente para saber o ponto da situação”, revela.

O timing pode ser determinante: “O SailGP ainda não tem uma solução deste tipo e poderá demorar algum tempo a desenvolvê-la. Queremos permitir treino estruturado, criar oportunidades de formação e apoiar equipas que não têm acesso a meios de preparação.”

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