Há momentos em que a escola deixa de ser apenas um lugar onde se aprende matemática, história ou línguas e torna-se um espelho da sociedade. Às vezes, infelizmente, um espelho demasiado fiel.
As notícias recentemente publicadas sobre a organização das refeições numa cantina escolar de uma ordem religiosa, distinguindo, na prática, a comida destinada a alunos economicamente mais favorecidos da comida servida a alunos beneficiários de apoio social, não são apenas um episódio administrativo ou uma polémica pontual, mas sim um problema educativo, moral e político. Porque aquilo que está em causa não é apenas comida e sim aquilo que a escola ensina sem o dizer.
A escola deveria ser um dos poucos espaços onde, independentemente das diferenças que existem fora dela, os alunos são tratados segundo princípios comuns de dignidade e pertença. Mesmo quando as origens sociais não são iguais – e sabemos que muitas escolas, públicas ou privadas, refletem as desigualdades da sociedade –, continua a existir uma expectativa básica: dentro da escola, ninguém deve ser exposto ou distinguido pela sua condição económica.
A sociologia da educação mostrou-nos há muito que a escola não é apenas um espaço de mobilidade social, pois é também um lugar onde as desigualdades sociais podem ser reproduzidas de forma subtil. Pierre Bourdieu descreveu esse processo como uma espécie de “tradução escolar” das diferenças sociais, em que aquilo que nasce fora da escola reaparece dentro dela sob outras formas aparentemente naturais… Mas há momentos em que essa subtileza desaparece.
Quando a diferença se materializa num prato diferente na cantina, deixa de ser apenas um detalhe logístico para se tornar uma pedagogia silenciosa da desigualdade e, neste contexto, as crianças aprendem quem tem direito a quê, quem recebe o “normal”, quem recebe o “apoio” e quem pertence e quem é tolerado.
Se, como foi noticiado, essa diferenciação resulta de regras administrativas associadas ao financiamento público das refeições escolares, então há aqui uma questão séria a colocar ao Ministério da Educação e às entidades responsáveis pela política social escolar. Um sistema de apoio que, na prática, expõe os alunos que pretende apoiar está mal desenhado.
A proteção social, quando é bem feita, protege também a dignidade, mas a questão não termina aqui, porque, neste caso, não falamos apenas de uma escola. Falamos de uma instituição educativa ligada a uma ordem religiosa cuja tradição pedagógica sempre se apresentou como profundamente comprometida com os mais vulneráveis.
A história das escolas salesianas, inspirada em Dom Bosco, está intimamente ligada à educação de jovens pobres, abandonados ou socialmente fragilizados. Foi precisamente nessa promessa de acolhimento que muitos desses projetos educativos ganharam legitimidade social e moral ao longo de décadas. É por isso que esta situação levanta uma interrogação ainda mais desconfortável: como pode uma escola que se reclama dessa tradição aceitar práticas que tornam visível, dentro do espaço escolar, a divisão entre alunos pobres e alunos ricos?
Não se trata de negar as dificuldades de gestão, os constrangimentos financeiros ou as exigências burocráticas que hoje atravessam as instituições educativas. Todos os que trabalham na educação sabem que elas existem, mas há momentos em que as instituições são chamadas a escolher entre cumprir procedimentos ou defender princípios e a escola é um desses lugares onde os princípios deveriam pesar mais.
A Igreja Católica construiu ao longo do tempo uma parte importante da sua autoridade moral na denúncia das desigualdades sociais e na defesa dos mais vulneráveis. Esse património ético permitiu-lhe, durante décadas, falar de justiça social com uma legitimidade própria. Contudo, episódios como este obrigam a colocar uma pergunta incómoda: que caminhos está hoje a Igreja a escolher quando educa? Quando, dentro de uma escola que se reclama dessa tradição, a diferença social se materializa no prato servido às crianças, não estamos apenas perante uma decisão organizativa, mas sim perante uma mensagem moral; mensagem que contradiz precisamente aquilo que a tradição social cristã sempre afirmou querer proteger.
Com tudo isto, mais do que explicações administrativas, o que se espera é clareza, porque a educação não é apenas transmissão de conhecimento, é também formação de consciência. E a consciência de uma instituição mede-se, inevitavelmente, na forma como trata aqueles que têm menos.
Talvez esta polémica possa servir para algo mais do que uma troca de justificações institucionais. Pode também abrir uma discussão séria sobre as orientações do Ministério da Educação nesta matéria e sobre os princípios que uma escola, pública ou privada, laica ou religiosa, não deveria abdicar de proteger, pois não podemos esquecer que a igualdade na educação não se constrói apenas nos currículos ou nos discursos oficiais, mas constrói-se também na mesa da cantina… e é aí, muitas vezes, que a escola revela aquilo que realmente acredita, sendo ela pública ou privada e, neste caso, de dimensão religiosa.
Afinal, o que estamos a ensinar quando separam os pobres à mesa? Que a ajuda vem acompanhada de exposição, que a diferença deve ser visível e que alguns pertencem menos do que outros… E, talvez mais grave, que a pobreza pode tornar-se motivo de distância, de desconforto, até de rejeição. Estaremos a ensinar, desde cedo, a aprender a odiar os pobres? François Dubet tem alertado para o crescimento das “paixões tristes” nas nossas sociedades, sentimentos alimentados pela humilhação, pela desconfiança e pela perda de reconhecimento. Acredito que a escola deveria ser o lugar onde estas paixões são contrariadas, porque, quando a escola começa a ensinar quem vale menos, deixa de ensinar aquilo que mais importa.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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