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A xenofobia nem sempre grita. Às vezes, ela sussurra. Vem disfarçada de preocupação com a limpeza, de zelo pelas regras do condomínio, de comentários sobre o volume da música ou o cheiro da comida. Não precisa de insulto explícito. Basta o olhar que mede, a mensagem que cobra, o tom que presume culpa antes de qualquer conversa.
Para quem emigrou, o cotidiano pode virar um campo minado de pequenas hostilidades. Um objeto repousado por minutos no canto de um corredor vira uma grave falta. Uma visita que chega mais tarde vira uma perturbação. O sotaque que revela a origem vira razão suficiente para desconfiança. É a xenofobia que não se assume, mas que pesa todos os dias.
Os casos explícitos aparecem nas manchetes. Em 2025, uma pessoa foi presa por oferecer dinheiro a quem agredisse brasileiros nas ruas de Lisboa. Mulheres brasileiras relatam ser abordadas com propostas sexuais simplesmente por abrirem a boca — o sotaque virou fetiche e, ao mesmo tempo, estigma. Nas redes sociais, os comentários se repetem: “voltem para a terra de vocês”, “estão a roubar os nossos empregos”, “antes éramos um país seguro”.
Mas a xenofobia do dia a dia é mais silenciosa. É o vizinho que vigia, o colega que desconfia, o atendente que destrata. É a sensação permanente de estar sob julgamento, de precisar provar que se é digno de ocupar aquele espaço. O imigrante trabalha, paga impostos, cumpre as regras — e ainda assim carrega o peso de ser sempre o outro.
O curioso é observar onde essa energia se concentra. Há uma disposição enorme para fiscalizar o vizinho, reclamar na fila do supermercado, buzinar no trânsito. Pequenas batalhas cotidianas travadas com vigor impressionante. Mas quando se trata de cobrar dos políticos, exigir serviços públicos que funcionem ou questionar por que os salários são tão baixos, o silêncio prevalece. A indignação, que transborda no elevador, desaparece nas urnas.
Talvez fosse mais produtivo redirecionar essa energia. Em vez de vigiar quem deixou uma caixa no corredor por cinco minutos, perguntar por que a saúde pública tem listas de espera de meses. Em vez de comentar o sotaque alheio, questionar por que um país com sol o ano inteiro importa tanta energia.
Em vez de hostilizar quem veio de fora, reconhecer que são esses mesmos imigrantes que sustentam setores inteiros da economia — da construção civil ao turismo, da agricultura aos cuidados com idosos.
Os imigrantes que escolheram Portugal não vieram tirar nada de ninguém. Vieram somar. Trabalham, consomem, pagam Segurança Social, abrem negócios, criam filhos. Pedem apenas o que qualquer pessoa merece: respeito e um pouco de tolerância.
A xenofobia que mora ao lado não precisa de lei para ser combatida. Precisa de espelho.
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