Começa quase sempre da mesma maneira: com o coração a bater mais rápido. No início, são as borboletas no estômago, a sensação de que o mundo inteiro cabe numa só pessoa. Mas, aos poucos, as borboletas podem transformar-se num nó apertado.
Começa com frases que parecem inofensivas. “Se me amasses, não saías com as tuas amigas.” “Preciso da tua palavra-passe, não confias em mim?” “Faço isto só para te proteger.” Frases ditas em voz baixa, que entram pelos ouvidos e causam desconforto no peito: “Se isto é amor, porque é que me sinto assim?”
As primeiras paixões são um capítulo marcante da adolescência, cheio de descobertas e intensidade. No entanto, para demasiados jovens, este capítulo esconde páginas de sofrimento silencioso.
Um estudo nacional de 2025, desenvolvido pela ART’THEMIS+ e que incluiu mais de 6500 jovens, mostra que dois em cada três já foram vítimas de violência no namoro. Contudo, mais preocupante, é o facto de 75% não consideram violência pelo menos um dos comportamentos abusivos questionados. Isto quer dizer que muitas vítimas (e muitos agressores) não se reconhecem como tal.
A violência no namoro raramente começa com um empurrão. Começa com controlo, com humilhações e chantagem emocional e com a violência que vive no bolso e nas redes sociais. E a sua prevenção começa na infância, quando a nossa primeira ideia de amor é moldada.
Nas nossas vidas aceleradas de pais, com pouca paciência e ainda menos tempo, achamos que “ainda são pequenos para perceber”. Mas quando vivemos numa sociedade com uma cultura que, demasiadas vezes, desculpa o controlo como “ciúme” e onde o estigma impede muitos de admitirem ser vítimas de abuso, é imprescindível termos este tema em mente.
O que podemos então fazer, sem moralismos e sem culpas? Começar onde tudo começa. A ideia de amor forma-se nas relações de referência. Quando tratamos uma criança com respeito, quando não usamos medo, silêncio ou humilhação, estamos a ensinar o que ela deve exigir no futuro. Estamos a mostrar como se deve amar e ser amado.
Há também que eliminar a cultura do segredo. As crianças e adolescente precisam de portas abertas. Precisam de ouvir, as vezes que forem necessárias: “Não tens de aguentar sozinho. Podes falar comigo do que quiseres e eu vou ouvir.” Em casa, na escola ou no consultório: criar espaços de escuta aberta salva tempo e, às vezes, salva vidas.
Violência é um crime, não é um “drama de adolescente”. É um problema de saúde, de justiça e de sociedade.
Está nas nossas mãos criar esperança nestas tempestades, que acontecem não apenas no céu lá fora, mas em muitas vidas e corações. Cada vez que um adulto dá o exemplo do respeito. Cada vez que uma amiga acredita. Cada vez que um professor pergunta. E cada vez que um cuidador escuta sem julgar. Vamos sempre a tempo de ensinar, reparar e de quebrar o ciclo.
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