
Não é todos os dias que se entrega um prémio literário no valor de um milhão de euros. Aliás, tal acontece talvez três dias por ano e um deles é o Nobel da Literatura; o outro é o prémio Planeta de Romance, em Espanha, e por fim, mas não menos valioso, o Million’s Poet, entregue a um poema em árabe nos Emirados Árabes Unidos. Mas quarta-feira à noite foi entregue em Barcelona o primeiro Prémio Aena de Narrativa Hispano-americana à escritora argentina Samanta Schweblin, inscrevendo pela segunda vez o sector literário em língua espanhola neste restrito clube dos prémios milionários. O facto de ser atribuído não por uma editora, como o Planeta, mas por uma grande empresa desligada do meio literário, gerara algum desconcerto.
Samanta Schweblin (Buenos Aires, 1978) foi distinguida pelo seu O Bom Mal, o seu mais recente livro de contos, e bateu outros quatro finalistas, que já tinham sido anunciados a 18 de Março: A Nossa Hora, de Héctor Abad Faciolince, Marciano, de Nona Fernández, Los Ilusionistas, de Marcos Giralt Torrente, e Cânone de Câmara Escura, de Enrique Vila-Matas. Tanto a obra de Vila-Matas quanto a de Schweblin e a de Abad Faciolince estão editadas em Portugal, respectivamente pela Elsinore, pela Dom Quixote e pela Alfaguara.
Quando da sua presença no Festival Literário Folio, em Óbidos, Isabel Lucas descreveu no PÚBLICO a obra desta também ensaísta, ficcionista e cineasta como estando inscrita na abordagem de “uma geração de autores latino-americanos que exploram as fissuras e as ambiguidades da realidade. Em O Bom Mal, a sua mais recente colectânea de contos, Schweblin aprofunda essa estética precisa e silenciosa onde o incómodo se transforma em experiência estética”. Quando da edição da obra em Portugal, a crítica do PÚBLICO considerou O Bom Mal carregado de uma “maturidade nova: os textos não se limitam a confirmar os temas recorrentes da autora (como a estranheza infiltrada no quotidiano, o desajuste das percepções ou a infância enquanto universo de enigmas), ampliando também a dimensão política do seu olhar”.
E agora, tem um milhão de euros na mão após uma cerimónia de entrega de prémios que mereceu toques de reportagem da imprensa espanhola ao invés de um mero anúncio porque houve debate sobre a natureza deste prémio e seu patrocínio. A Aena é a equivalente à ANA portuguesa, uma gestora de aeroportos com elevados lucros e que pertence 51% ao Estado espanhol. O diário El País descreve todo um dia de visitas e fausto e um jantar “tenso” posterior, já que só no fim da ceia é que foi anunciada a vencedora. Havia “visíveis nervos” à medida que se aproximava a hora, nota o mesmo jornal.
A vencedora agradeceu o galardão emocionada, especialmente sendo contista e não sendo esta a sua primeira obra. Não é o Nobel, que só se aproxima do valor do Aena (o prémio da Academia Sueca vale cerca de 900 mil euros ao câmbio actual), mas é uma distinção que, de tanta fartura, gerou desconfiança. Além deste milhão de euros, a empresa compromete-se ainda a gastar outro milhão, desta feita na compra de exemplares dos finalistas (entre 5000 e 10 mil exemplares de cada um dos cinco títulos), para distribuir aos seus funcionários e doar às autarquias onde tem aeroportos para que estas os possam entregar às suas bibliotecas e centros educativos. E os outros quatro finalistas recebem 30 mil euros cada um.
Ainda esta semana, o El País questionava vários agentes do sector literário se faz sentido um prémio de um milhão de euros. Defendia-se antes que este prémio, ao contrário do Planeta (que em Espanha edita Samanta Schweblin e Enrique Vila-Matas), não vem de uma editora mas sim de uma empresa multimilionária. Já esta pensou, no âmbito das suas iniciativas de “sustentabilidade social”, porque é que não havia para a língua espanhola um prémio como o Goncourt francês ou o Booker. Os auscultados pelo diário atentavam que um prémio é uma marca e que assim entrou de rompante num sector que desconhece e mesmo que o seu valor, se mais distribuído, poderia assegurar mais edições e premiados.
O júri foi presidido pela escritora Rosa Montero e no jantar de prémios o presidente da Aena, Maurici Lucena, disse sobre a polémica: “Às vezes as coisas são mais simples”; “é normal que o mecenato seja feito por empresas privadas que não têm necessariamente a ver com as actividades culturais que generosamente financia”.
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