
Querida Ana,
Um dos meus irmãos acusou-me em tempos de ter implodido o modelo de educação da nossa mãe, que funcionara na perfeição até aparecer uma sétima filha que não se conformava à norma. Eu. A minha resistência foi tal que, para dizer a verdade, morreu ainda a tentar!
Podia estar a contar-te isto como uma forma encapotada de me auto elogiar, para tentar receber o epíteto de rebelde ou outro igualmente heróico, mas não vejo nada disto como notável, nem tem sabor a vitória. Preferia mil vezes não ter sido a birrenta da família e, há dias, em que tenho pena de não ter aprendido muitas daquelas regras que, agora, aos sessenta e quase seis anos reconheço que provavelmente me tornariam a vida mais fácil, a mim e aos que têm de viver comigo.
Queres um exemplo? Dou-te já dois: a minha indisciplina com as horas de me deitar e a incapacidade de me sentar à mesa a horas certas e comer.
Todas as noites luto contra o cansaço para conseguir pelo menos mais uma hora só para mim, como se fosse um hamster e guardasse nas bochechas todas as coisas boas para as apreciar quando toda a gente já está a dormir. E, por muito que tente, não consigo adiar os repentinos desejos de ir comer qualquer coisinha — uma bolacha, um chocolate, um iogurte —, mesmo que falte só meia hora para o almoço ou para o jantar e depois, obviamente, rabujo que não tenho fome quando chega a hora da refeição. O que é cruel para quem se deu ao trabalho de a preparar.
Diz-me, filha minha, passei-te estes maus exemplos? Consegues que os teus filhos não comam bolachas cinco minutos antes do almoço? E, se não, tens remorsos? Devias ter, porque vão ficar como a avó.
Querida Mãe,
Primeiro nunca teria remorsos se os meus filhos ficassem parecidos com a avó, mesmo com todos esses defeitos horríveis que enumerou!
Segundo, o que me conta é muito interessante e, talvez, sintomático das diferenças entre as nossas gerações — com as vantagens e desvantagens que trazem consigo.
Imagine que, por um segundo, encaramos a Isabel pequenina como neurodivergente, ou seja, com uma forma de processar e sentir o mundo diferente da dos irmãos. “Aí, Ana, lá vens tu com diagnósticos e patologizações”, já a oiço dizer, mas tenha paciência, e continue a ler por mais um bocadinho.
Imagine agora que vemos esta criança com um perfil diferente, com características de maior impulsividade, tendência para falar muito, interromper as pessoas, rápida, divertida, intensa nos sentimentos (bons e maus), com uma dislexia não diagnosticada, com uma sensibilidade elevada aos sons e, por todas estas coisas, com tendência para explosões emocionais maiores. Uma criança para quem os métodos mais tradicionais de parentalidade não funcionam bem porque muitos destes “sintomas” não resultam da falta de autoridade ou de força de vontade.
Porque, sejamos francos, acha que a Isabel pequenina, tão ansiosa (como ainda hoje) por agradar, não teria feito tudo o que podia para corresponder às expectativas? Teve falta de estrutura? Não. Teve falta de bons exemplos? Não. Teve falta de sentimentos de vergonha e de culpa? Não. Então, talvez seja justo concluir que fez o melhor que conseguiu e que, se sessenta e tal anos depois, ainda sofre por não conseguir cumprir tantas dessas “regras” — que a mãe considera sinais de boa educação —, é por que, decididamente, não é uma questão de “preguiça”.
É evidente que me posso enganar completamente, e aquilo de que a mãe precisava era de mais… disciplina? É nessa versão que acredita? Percebo perfeitamente alguma alergia ao constante “olhar psicológico” sobre os problemas, sobretudo quando se analisam as questões fora de contexto e se martelam interpretações até se conseguir que o diagnóstico encaixe na dificuldade, mas ainda assim acredito que há uma diferença enorme entre as duas visões. Se formos pela sua narrativa, o que fica é que a Isabel pequenina foi um falhanço, uma desilusão, que não conseguia cumprir com coisas tão simples como horas de dormir ou de comer, e era birrenta e chata.
Na minha visão, a Isabel pequenina era uma miúda incrível que precisava de ajudas especiais e de uma parentalidade diferente. Se não a recebeu foi culpa dos seus pais? Não! Fizeram o melhor que conseguiram e, aliás, fizeram-no tão bem que os seus grandes defeitos resumem-se a coisas insignificantes. Além de que o modelo que lhe deram lhe trouxe, sem dúvidas, várias capacidades que lhe são muito úteis. Mas, trouxeram-lhe também uma sensação de exaustão por tudo o que teve que compensar para lidar com as expectativas, ou pela ansiedade extra que a assalta sempre que não cumpre com algo? Talvez, mas isso deixo para o seu psicoterapeuta.
O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990
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