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Existe um momento no desenvolvimento em que a criança encontra o mundo sem possuir ainda recursos internos para organizar aquilo que vive. O impulso conduz a experiência. O desejo aparece sem medida. Aquilo que produz prazer tende a se prolongar até que o corpo imponha interrupção. A infância não nasce com a capacidade de estabelecer limites.
Percebo que grande parte do debate público se concentra nos objetos que ocupam o tempo das crianças. Celulares, jogos digitais, vídeos curtos e plataformas virtuais passaram a ser apresentados como centro da discussão. No entanto, reduzir a questão ao dispositivo é uma simplificação que pouco ajuda a compreender o funcionamento psíquico em formação.
A criança não se desorganiza porque existe tecnologia. A desorganização surge quando a experiência ocorre sem contorno. O psiquismo infantil ainda não dispõe de estrutura suficiente para regular intensidade, duração ou interrupção de estímulos. Diante de algo que oferece prazer imediato, a tendência natural é permanecer ali sem perceber o excesso.
Esse princípio pode ser observado em situações muito simples. Uma criança consome chocolate até sentir mal-estar. Continua uma brincadeira até que surja dor de cabeça. Permanece em um jogo enquanto o corpo pede descanso. O limite não nasce de forma espontânea dentro da estrutura infantil.
Por essa razão, o papel do adulto possui função estruturante. A presença parental introduz aquilo que o psiquismo ainda não construiu. O adulto delimita horários, organiza rotinas, interrompe atividades e introduz pausas. Esse gesto, que muitas vezes parece apenas disciplina cotidiana, possui um significado mais profundo: ele participa da formação do ego.
O ego representa a instância psíquica responsável por oferecer contorno à realidade. É por meio dele que o indivíduo aprende a reconhecer limites, tolerar frustração e sustentar equilíbrio entre desejo e possibilidade. Sem esse processo, a experiência psíquica permanece orientada apenas pelo impulso.
Observo que muitas famílias enfrentam dificuldade para exercer essa função organizadora. Em diversas situações, dispositivos digitais surgem como forma de silenciar inquietação ou ocupar o tempo da criança. A estratégia produz tranquilidade momentânea, mas não contribui para a construção de regulação interna.
Quando essa estrutura não se fortalece ao longo da infância, surgem dificuldades que aparecem anos depois. Jovens e adultos relatam dificuldade para interromper atividades, lidar com frustração ou sustentar atenção em tarefas que exigem continuidade. O problema raramente se limita à tecnologia. Ele revela uma fragilidade na capacidade de estabelecer contorno.
Todos os seres humanos carregam algum grau de neurose. Essa condição faz parte da experiência psíquica. O que diferencia um funcionamento que permite vida equilibrada de um funcionamento que produz sofrimento é justamente a presença de um ego capaz de organizar impulsos e delimitar a realidade.
A infância representa o período em que essa estrutura começa a ser construída. Cada limite oferecido por um adulto participa desse processo. Cada pausa ensinada cria uma pequena aprendizagem sobre convivência com desejo e frustração. Com o tempo, aquilo que inicialmente vinha do exterior passa a existir dentro da própria pessoa.
Por essa razão, o objetivo da educação emocional não consiste em eliminar estímulos da vida da criança. O verdadeiro trabalho envolve fortalecer o ego para que o sujeito aprenda a conviver com o mundo sem se perder nele. Quando essa capacidade se estabelece, surge algo fundamental para a vida adulta: a possibilidade de reconhecer excesso e produzir equilíbrio.
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