Quercus salvou 1700 animais em 2025: a história da coruja babysitter

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Entre quedas de ninho, atropelamentos, tiros e envenenamento, quase 1700 animais selvagens ingressaram em 2025 nos três Centros de Recuperação de Animais Selvagens (CRAS) da Quercus em 2025. Balanço da associação ambientalista assinala que os “animais recebidos aumentaram 7% face a 2024” e reflecte as principais pressões que a fauna portuguesa enfrenta.

De um total de 1673 animais recolhidos, cerca de 1577 indivíduos ingressaram com vida e 42,2% foram devolvidos ao seu habitat natural. A taxa de sucesso positiva ronda os 50%, diz Carolina Nunes, coordenadora dos centros da Quercus.

Independentemente dos resultados do ano passado, a responsável confirma que as tempestades deste ano causaram bastantes vítimas. Apesar de não terem sido atingidos em plena época de nidificação, um número elevado de animais sofreram com os ventos fortes e chuva intensa. O caso dos papagaios-do-mar, como já foi noticiado pelo Azul, com mais de mil indivíduos mortos a dar à costa portuguesa, merece o destaque da Carolina Nunes.

Raposa vermelha
QUERCUS Associação Nacional de Conservação da Natureza

A culpa dos humanos

Regressando a 2025, as aves representaram “83,8% do total de admissões”, seguindo-se os mamíferos (14,4%) e répteis e anfíbios (1,7%). Entre as espécies acolhidas ao longo do ano, destacaram-se, pelo maior número de admissões, a gaivota-de-patas-amarelas (Larus michahellis, 8,3%), a andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum, 7%), o andorinhão-pálido (Apus pallidus, 6,2%) e o ouriço-europeu (Erinaceus europaeus, 6,1%).

Os CRA registaram “tiro (1,1%), cativeiro ilegal (1,7%) e envenenamento (0,09%)” como causas de ingresso — números pequenos, mas que escondem danos profundos, sobretudo quando atingem espécies com populações reduzidas e classificadas como ameaçadas, segundo a Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental de 2022. Carolina Nunes confirma a infeliz conclusão: os humanos continuam a ser das maiores ameaças aos animais.

Julho voltou a ser o mês mais crítico, em que foi preciso acolher “cerca de 440 animais (26% do total anual), com destaque para um elevado número de crias órfãs”.

A Quercus coordena o CERAS (Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens), em Castelo Branco, o CRASM (Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Montejunto), no Cadaval e o CRASSA (Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Santo André), no Litoral Alentejano.

Coruja-do-mato
QUERCUS Associação Nacional de Conservação da Natureza

A coruja baby-sitter

Entre os muitos animais acolhidos nos centros de recuperação, há sempre histórias maiores do que as suas feridas. É o caso de uma coruja-do-mato bebé que um dia caiu do ninho, ferindo uma das suas asas, num caso “agridoce” que Carolina Nunes lembra com carinho. Apesar dos constantes apelos para a procura de entidades que possam acolher estes animais (como a linha SOS ou um centro local), a coruja acabou por ser levada para casa de uma família, onde viveu cerca de duas semanas.

Assim, recorda Carolina Nunes, quando chegou ao CRASSA era vítima de queda do ninho com traumatismo e de cativeiro ilegal. O problema é que naquelas duas semanas, a pequena coruja habituou-se a viver com pessoas. A asa foi tratada, mas nunca se conseguiu uma recuperação total. No centro, ao contrário dos outros animais, esta coruja não fugia dos humanos, aliás procurava-os, e vocalizava a sua alegria pelo reencontro. Até com as pessoas que tinham sido os seus cuidadores durante as duas semanas de domesticação forçada.

Percebendo que a sua adaptação ao meio natural seria difícil, pela sua proximidade com os humanos, pela fragilidade da sua asa ferida e também pela falta de competências para sobreviver no meio selvagem, o CRASSA acolheu a coruja. Apesar de toda esta travessia, a coruja nunca ganhou um nome. Era tratada, como as outras, por um número de identificação.

Porém, ao contrário de outros animais que é impossível recuperar nestes centros e devolver à natureza, a coruja ficou no CRASSA. No ano seguinte, mais crescida, ganhou um novo papel. Com mais crias “órfãs” caídas dos ninhos, algo que infelizmente acontece todos os anos, os responsáveis do centro tentaram que a coruja ajudasse na sua recuperação.

Postas as crias junto dela, a “coruja do CRASSA” assumiu o seu papel, protegendo-as, ensinando-as a voar e até a passar com distinção nos testes de captura de presas que fazem com animais vivos. Assim, apesar de permanecer em cativeiro, hoje é uma babysitter de sucesso no centro, assegura Carolina Nunes.

Muitas espécies ameaçadas

É entre as espécies ameaçadas que se encontram alguns dos casos mais emblemáticos. Os centros da Quercus acolheram 127 animais de espécies com estatuto ameaçado.

Ao longo do ano, os CRAS acolheram 127 indivíduos classificados como ameaçados, incluindo 111 de estatuto “vulnerável” (VU), dez “Em Perigo” (EN) e seis “criticamente em perigo” (CR). Entre estas espécies, destacam-se o milhafre-real (Milvus milvus), o abutre-preto (Aegypius monachus), a águia-real (Aquila chrysaetos) e o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis) (ver caixa no final do texto).

O comunicado refere, por exemplo, o caso dos milhafres-reais (Milvus milvus), espécie classificada como “vulnerável”. Em Janeiro deste ano, o PÚBLICO noticiava uma das ameaças a esta espécie protegida: os humanos. Segundo a notícia, a morte de 17 milhafres-reais, no concelho de Almeida, motivou abertura de um inquérito, no qual colaboram a GNR e o ICNF, perante a suspeita de ameaça de envenenamento.

Mocho galego
QUERCUS Associação Nacional de Conservação da Natureza

Mais do que hospitais de fauna

O comunicado sublinha que os CRAS são “muito mais que hospitais de fauna”, são sensores ecológicos. Através dos padrões de ingresso, é possível identificar zonas críticas, práticas ilegais persistentes e períodos de maior vulnerabilidade — como a época de reprodução, que explica o pico de crias órfãs em Julho.

A informação recolhida alimenta projectos de investigação, acções de conservação e campanhas de sensibilização. E o trabalho só é possível graças a “137 estagiários e voluntários” que, em 2025, reforçaram as equipas em áreas como biologia, medicina veterinária e zootecnia.

Estas três estruturas da Quercus – CERAS, CRASM e CRASSA – integram a Rede Nacional de Centros de Recuperação para a Fauna (RNCRF), composta por 13 CRAS em Portugal Continental e coordenada pelo ICNF.

“O reforço da capacidade de resposta dos CRAS perante o contínuo aumento do número de animais ingressados só é possível graças a apoios públicos como o Fundo Ambiental, bem como de diversas instituições, incluindo o Grupo Sonae, a Galp, as Águas de Santo André e a Agriloja, permitindo melhorar infra-estruturas ou adquirir bens materiais e alimentos”, refere a nota de imprensa da Quercus.

Coruja-das-torres
QUERCUS Associação Nacional de Conservação da Natureza

Responsabilidade colectiva

O balanço da Quercus termina com um apelo: os CRAS são uma ponte entre a sociedade e a natureza, que recorda “a responsabilidade colectiva que partilhamos na protecção da vida selvagem e na preservação dos ecossistemas” e possibilita a eficácia de medidas correctivas.

“Por outro lado, sendo locais ricos em informação biológica, permitem avaliar o estado dos ecossistemas e das populações. Desse modo, contribuem para a investigação aplicada à conservação da natureza, como na prevenção da mortalidade de fauna selvagem ou no aperfeiçoamento das práticas clínicas”, refere o comunicado. “Não menos importante, estas estruturas promovem activamente a educação e sensibilização ambiental junto de públicos diversos, através do apadrinhamento de animais recuperados e de outras acções educativas dirigidas à comunidade”.

Num país onde espécies como o milhafre, o abutre‑preto ou o cágado‑de‑carapaça‑estriada continuam vulneráveis, os números de 2025 mostram que a recuperação é possível — mas exige vigilância, recursos e, sobretudo, vontade de proteger o que ainda temos.

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