Regressar ao espírito do paraíso

0
3

Há semanas, a abertura de um texto no New York Times despertou-me. Jim James, líder dos muito americanos My Morning Jacket, afirmava que “quando se conhece alguém que também conhece o Spirit of Eden, sentes imediatamente uma afinidade”. O pretexto para o artigo era a reedição em vinil do quarto álbum dos britânicos Talk Talk. Um disco destinado ao insucesso comercial, marcado por gravações dispendiosas (oito meses em estúdio com longas sessões diárias) e que levaria ao fim litigioso da relação da banda com a editora, a EMI. Quase quatro décadas passadas do seu lançamento, Spirit of Eden talvez se tenha tornado mais influente do que popular, mas Jim James tem razão: é um daqueles sopros emocionais que forja afinidades. Eletivas.

Perdoem-me o registo pessoal, mas eu que já gostava do Jim James, a solo e em grupo, senti um frémito ao ler o texto: por saber que o álbum está de novo disponível e por saber que há uma teia de convertidos para quem aquele foi um disco que fez (faz) a diferença. A educação sentimental por vezes foge no tempo, mas na adolescência eu tinha o bom hábito de etiquetar a data em que comprava discos e livros: na contracapa do vinil da edição original de Spirit of Eden lá encontrei manuscrito, “novembro de 1988”. A obsessão terá começado por essa altura. Mais tarde, em processo de reconversão audiófila, comprei, de novo, o álbum, desta feita em CD. Infelizmente, não consigo datar o momento. Por agora, aguardo ansioso por uma nova cópia da reedição em vinil. Suspeito que nisso sou igual ao Jim James e a muitos outros.

Spirit of Eden é o resultado do ensimesmamento criativo de Mark Hollis e de um processo de gravação com músicos convidados a improvisar enclausurados e sem grandes instruções em horas infindáveis de sessões. Um disco em que o recurso exclusivo a instrumentos anteriores à década de setenta traduziu-se numa autenticidade sonora sem marca do tempo. De alguma forma, há ecos do processo de gravação de Pet Sounds, com Hollis, acolitado pelo produtor Tim Friese-Greene, a fazer as vezes de Brian Wilson no comando das operações em estúdio.

Ao longo de apenas seis temas, o disco espelha uma atmosfera esparsa, com respirações lentas e interlúdios de silêncio que logo são substituídos por picos instrumentais que rompem a tranquilidade. Ao quarto disco, a voz de Hollis era o único elemento de continuidade na sonoridade de uma banda que tinha alcançado algum sucesso comercial – e até nas pistas de dança – com uma pop neo-romântica de inclinação eletrónica e que agora abraçava um bucolismo pastoral irremediavelmente britânico.

Na altura, aquela música inquietou as almas quentes e influenciou muito do que se seguiria: o post-rock, por exemplo, encontrava ali uma âncora (os Tortoise ou alguma da música mais relevante que os Radiohead fizeram têm a inscrição de Spirit of Eden). Mas o álbum foi também uma espécie de epitáfio, com Hollis a declarar que “não tinha mais nada para dizer”, a retirar-se da ribalta, dedicando-se literalmente “a cultivar o seu próprio jardim”. O retiro, na verdade, não seria absoluto: em 1998, ainda lançaria um álbum em nome próprio, The Colour of Spring, uma pequena maravilha de comedimento. Seguiram-se vinte anos de silêncio, até à sua morte precoce em 2019. Outro dos Talk Talk, o baixista Paul Webb, daria a mão a Beth Gibbons dos Portishead e juntos fariam um outro disco iluminado e despojado, adequadamente denominado Out of Season.

O pretexto para este texto fora do tempo? Simples e fundamental: a esperança de que algum leitor se junte à comunidade de devotos deste Spirit of Eden, agora de novo disponível.

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com