Se há rede, filtro de barro e cuia de chimarrão, é uma casa brasileira, com certeza

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A analista de sistemas Juliana Pimentel, em Portugal desde 2017, pôs uma peça de decoração no seu novo apartamento, em Benfica, que é disputada pelos amigos brasileiros que chegam para visitá-la. Típica das regiões Norte e Nordeste do Brasil, a rede é para a carioca o local ideal para relaxar com o marido e os dois filhos.

Até a cachorrinha do casal, Zuca, uma golden de cinco anos, tem aproveitado o conforto a mais. Para Juliana, uma casa brasileira tem que ter uma rede. Quem não tiver quintal, pode pendurar o acessório na varanda (aberta ou fechada), como ela fez no seu apartamento, ou em qualquer outro canto da casa. O importante é relaxar na rede, que ela trouxe do Brasil, com detalhes em macramê, e que a conecta com sua terra natal.

“A gente usa a rede para ler, dormir e conversar ou para pegar um pouco de sol, porque ela fica na varanda, que é integrada à sala. Com exceção das crianças, que brincam de balanço (baloiço)”, diz. “Os meus amigos não querem mais saber de ficar no sofá. Todos adoram a rede, que é algo que faz parte da nossa cultura”, frisa.

A analista de sistemas Juliana Pimentel faz questão de ter uma rede em seu apartamento em Lisboa: local ideal para relaxar
Rui Gaudêncio

No quesito comidinhas, para Juliana, toda casa brasileira tem que ter feijão, farofa, picanha, leite condensado, paçoca, cuscuz (doce) e açaí. “E queijo tipo minas (não o frescal) também. Anda raro de achar e, quando compramos, é quase um acontecimento para a família”, entrega ela, que cobra “pedágio” dos amigos que vão à sua nova casa.

“Sentimos falta de chocolate Bis, que é caro em Portugal, de biscoito goiabinha e de balas (rebuçados) de doce de leite ou aquelas baratinhas mesmo, como 7Belo e Juquinha. São tantas coisas que nos remetem à nossa terra. Nós comemos fechando os olhos e trazendo as boas lembranças na memória”, afirma.

Camisa do Flamengo e caipirinha

O executivo Márcio Nunes chegou a Portugal com apenas com duas malas quando resolveu se mudar para o país em 2019. Mas, mesmo com pouca bagagem, uma peça de roupa ele não deixou para trás: a camisa do Flamengo. O carioca rubro-negro, que cresceu frequentando o estádio do Maracanã, lugar que ele sempre faz questão de ir quando visita a família no Rio de Janeiro, agora não tem apenas uma, mas uma coleção de camisas do seu time de coração.

“Eu nunca tive coleção de camisas do Flamengo e, quando emigrei para Portugal, trouxe apenas uma. Mas, agora, cada vez que vou ao Rio, acabo comprando mais uma. Elas trazem a memória não apenas do Maraca, mas da viagem. Acabei deixando algumas na casa da minha mãe, mas tenho seis na minha casa em Cascais. Inclusive, uma é do Fla Cascais, que é meu reduto flamenguista em Portugal”, diz.

O executivo Márcio Nunes vestido com a camisa do Flamengo e com a coqueteleira na qual prepara a caipirinha
Rui Gaudêncio

Para ele, em toda casa brasileira também não pode faltar uma coqueteleira para fazer caipirinha. O utensílio foi comprado em Portugal. “Quando me mudei, não trouxe quase nada. Era uma tentativa de não ficar preso às coisas que me deixariam com mais saudade do Brasil. Mas, com o tempo, percebi que, além de eu gostar de caipirinha, prepará-las com amigos é algo que me conecta com minhas raízes”, enfatiza. “Sempre me lembro da batidinha de limão que minha mãe fazia e eu levava para o meu pai enquanto ele limpava ou mexia no carro nos fins de semana.”

O executivo ainda tinha uma tela com a imagem do Pão de Açúcar — um dos cartões-postais mais bonitos do Rio — pendurada na parede, mas que ficou na casa da ex-mulher. “Ela trouxe par Portugal uma imagem pequena do Cristo Redentor também.

Churrasqueira e panela de pressão

A jornalista Simone Mousse não abriu mão de ter uma churrasqueira na casa com quintal onde vive com o marido e os três filhos em Cascais. No Rio de Janeiro, onde moravam antes de cruzar o Atlântico, há três anos, o churrasco de fim de semana fazia parte da programação da família.

“Morávamos em uma casa com um jardim grande e churrasqueira. Nosso programa preferido dos fins de semana era receber os amigos para um churrasco. Nada mais brasileiro do que termos em Portugal a nossa própria churrasqueira. É um dos pontos que nos conectam com as nossas raízes”, afirma.

E a feijoada também. Simone, logo que chegou em solo luso, comprou uma panela de pressão. “Não pode faltar feijão em casa. E com carne seca sempre”, frisa ela jornalista, que ainda tem uma luminária no formato do Pão de Açúcar para decorar seu novo lar.

O brasileiro Larry Lira não abre mão de ter uma churrasqueira, em torno da qual reúne familiares e amigos
Arquivo pessoal

Natural de São Paulo, filho de pernambucanos, o profissional de tecnologia da informação (TI) Larry Lira vive há sete anos em Portugal e também faz questão de ter em casa uma churrasqueira — utensílio que considera indispensável e que o conecta diretamente às lembranças, aos afetos e aos amigos do Brasil.

Ponto de encontro

Ao longo dos anos, o brasileiro já teve várias churrasqueiras. Hoje mantém duas, uma delas instalada na varanda do apartamento onde mora, no Fundão, região Centro do país, transformada em ponto de encontro nos fins de semana.

“O churrasco está entre os hábitos do nosso país, que mantemos em Portugal e que acaba sendo mais do que fazer uma comida, uma refeição. No Brasil, o churrasco de domingo sempre foi costume para reunir família e amigos. E essa é justamente a forma de nos mantermos conectados com o país e a nossa cultura”, destaca Larry.

No Fundão, a prática se tornou comum entre os brasileiros. Quando Larry chegou a Portugal, o apartamento onde foi morar já tinha churrasqueira. E, para Larry, o churrasco é mais do que uma refeição. É ritual, convivência e pertencimento.

“A gente costuma ter esses momentos com os amigos, momentos de socialização, pois a gente tem saudade dessas coisas do Brasil. Percebo que os portugueses só usam a churrasqueira, por exemplo, nos parques, para fazer a refeição por 30 minutos, uma hora. Assam logo toda a comida de uma vez e pronto, acabou. Normalmente assam sardinha”, frisa ele. E complementa: “Nós, brasileiros, fazemos diferente: chegamos cedo, às 9h da manhã, e já começamos a assar cortes como a costela. Vamos assando as carnes e ficamos até o dia escurecer”.

Água pura e fresca

O filtro de barro, também conhecido como filtro de cerâmica ou São João, devido a uma das marcas mais emblemáticas que ajudaram a popularizar o produto, é um elo de saudade com o Brasil. A empresária Natacha Fink tem um exemplar na sua casa em Portugal e em seu restaurante, em Cascais. O próximo vai ser instalado no escritório do Palaphita. “É muito bacana ver a relação dos brasileiros quando o veem. Traz uma ligação com a infância de quem cresceu no Brasil, uma memória, uma saudade”, diz, referindo-se tanto aos funcionários quanto aos clientes.

No caso dela, o filtro era um objeto presente na casa dos pais, em Manaus. “Sempre tive filtro de barro em casa, e meus pais sempre falaram da qualidade da água que é filtrada e fica naturalmente fresca. Quando vi para comprar em Lisboa, pesquisei mais a fundo e realmente li maravilhas sobre a funcionalidade”, destaca.

O filtro de barro remete à infância de muitos brasileiros
Rui Gaudêncio

Na casa da empresária carioca Christin Maciel também não falta água do filtro de barro. “Uma das minhas primeiras memórias de infância está ligada a esse objeto. A minha avó, Maria Pereira Guimarães, tinha um na casa dela e, desde pequena, entendia que era um investimento em saúde e um produto ecológico”, diz. Afinal, quando a água é filtrada, muitas garrafas plásticas deixam de ir para a natureza.

Gaúchos agradecem

O filtro de barro, uma criação brasileira, é composto por um recipiente de cerâmica dotado de uma torneirinha, que deixa a água naturalmente fresquinha, com algo em torno de cinco graus de temperatura. “A grande estrela desse sistema é o filtro de carvão ativado, que filtra até 99% das impurezas da água. Qualquer água colocada ali vai filtrar”, garante.

A relação de Christian com o filtro de barro é tão forte que ela decidiu importá-lo diretamente do Brasil para a sua loja, focada em produtos brasileiros, especialmente no segmento da alimentação. “Quando assumi o Mercadim, há dois anos e meio, logo pensei em levar esse produto para o mundo, pela história e significado inerente a ele. O menorzinho, de dois litros, tem muita gente que leva na mala para os países onde vivem.

Para além do filtro de barro, que costuma agradar não apenas brasileiros, mas também portugueses e outros estrangeiros, ela apresenta nas suas prateleiras objetos que agradam desde a turma do Sul do Brasil aos nordestinos.

“Temos cuia, bomba, filtro e vários tipos de erva-mate para o chimarrão dos gaúchos que vivem em Portugal se sentirem em casa. E também cuscuzeira, que faz a alegria tanto de pessoas que vieram do Nordeste para cá quanto chefs focados em nossa gastronomia”, assinala.

Cuscuz no barco

O produtor cultural pernambucano Diego Guimarães, natural de Recife, vive em um barco na Marina do Parque das Nações. E, na pequena cozinha, não falta a sua cuscuzeira de estimação. O objeto é usado para o cuscuz feito a partir da farinha de milho, um prato típico do Nordeste brasileiro, consumido do café da manhã ao jantar.

“O cuscuz tem cheirinho de saudade. É um alimento muito simbólico no Nordeste brasileiro. Fazer esse prato que não faltava em casa é uma mistura de tradição e lembranças”, sintetiza o produtor. Para ele, a ligação com esse tipo de objeto ajuda a amenizar o distanciamento do país de origem. “A vida de imigrante é uma escolha, mas não é fácil. E a comida traz esse aconchego”, diz.

O fato de viver embarcado e com as limitações de sua cozinha, ele diz que não prepara o prato com tanta frequência. Mas quando o faz, capricha. “Gosto do cuscuz com carne seca ou queijo coalho. Viajo para Pernambuco sem sair de Lisboa”, diz.

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