O artigo de opinião de Ana Rita Bessa, ex-deputada do CDS, CEO da editora Leya e vogal do Conselho Fiscal da CUF, intitulado “Sem estacionamento não há SNS”, sobre a greve na Unidade Local de Saúde de Braga, no dia 13 de março, assenta em pressupostos incompletos e numa leitura descontextualizada da realidade.
A questão do estacionamento não é acessória nem recente. No Hospital de Braga, decorre de um modelo herdado da anterior parceria público-privada, que mantém custos elevados para profissionais e utentes, sem alternativa adequada, tendo inclusivamente registado aumentos nos últimos dois anos. Trata-se de um problema estrutural, há anos por resolver, que obriga profissionais de saúde a pagar para trabalhar no SNS. Há trabalhadores a suportar encargos anuais na ordem dos 612 euros. Não é uma questão da percentagem que isso representa no salário, mas uma questão de princípio.
Importa olhar para a realidade concreta dos profissionais de saúde do Hospital de Braga: horários exigentes, jornadas até às 22h ou à meia-noite, noites e fins de semana sucessivos, dificuldades de acesso e salários que, em muitos casos, já não acompanham o custo de vida. Para quem vive deste rendimento, este encargo não é simbólico — tem impacto direto no orçamento familiar e nas condições de vida.
Também não corresponde à realidade a existência de alternativas de transporte adequadas, sobretudo no período noturno, em que não existe qualquer oferta compatível com os horários praticados.
A greve de 13 de março foi de todos os profissionais de saúde. Envolveu médicos, enfermeiros, técnicos superiores de saúde, assistentes operacionais e outros trabalhadores, através de várias estruturas sindicais. Foi uma mobilização alargada de quem assegura diariamente o funcionamento do hospital.
As reivindicações são claras: isenção do pagamento de estacionamento para os profissionais; fim da prática discriminatória que isenta o conselho de administração e direções, devendo esse direito ser estendido a quem presta cuidados diretos; criação de acessos rodoviários que garantam segurança e fluidez; e a renúncia da ACSS aos 25% das receitas do estacionamento, permitindo viabilizar a gratuitidade.
E há um contraste que não pode ser ignorado. Em muitos contextos de gestão, sobretudo no setor privado, são assegurados carros de serviço de gama elevada, com seguros, manutenção e combustível incluídos, estacionamento dedicado e um conjunto alargado de benefícios. A naturalização dessas condições contrasta com a realidade de profissionais que, no SNS, suportam custos para trabalhar.
Cada um é livre de defender o modelo que entende para o país. Mas essa defesa exige um mínimo de reconhecimento da realidade de quem assegura cuidados: profissionais sujeitos à exigência permanente e doentes dependentes de um serviço público sob pressão.
A greve não é um fim em si mesma — é um instrumento legítimo quando o diálogo falha. E, neste caso, é também uma forma de defender o próprio SNS. Profissionais que lutam por condições de trabalho dignas estão a lutar por melhores cuidados de saúde para os utentes.
Por isso, não pode ser estabelecida qualquer oposição entre profissionais e utentes. Quando há consultas e cirurgias adiadas, a responsabilidade não recai sobre quem, durante anos, alertou sem resposta. Recai sobre o Conselho de Administração da ULS de Braga e o Ministério da Saúde, liderado por Ana Paula Martins, que persistem em não resolver um problema há muito identificado.
O essencial é simples: respeito por quem sustenta o Serviço Nacional de Saúde.
Joana Bordalo e Sá, presidente do Sindicato dos Médicos do Norte e vice-presidente da Federação Nacional dos Médicos
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