Slow Productivity, ou como a academia precisa de abrandar

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Quando o primeiro McDonald’s abriu em Roma em 1986 sentiu-se um pequeno choque cultural: um fast food plantado numa cidade que trata a comida como património. O ativista italiano Carlo Petrini viu o contraste e ajudou a desencadear o movimento Slow Food, uma recusa em confundir velocidade com progresso. A academia, discretamente, tem feito o contrário.

Temo-nos felicitado por nos termos tornado eficientes, enquanto os nossos dias começaram a parecer-se com um drive-through. O académico contemporâneo é um malabarista sempre em movimento: ensino, artigo, revisão, comissão, júri, reunião, defesa de doutoramento, divulgação, candidaturas, mais uma reunião, email, email outra vez.

No Seminário dos Jovens Cientistas (SJC) da Academia das Ciências de Lisboa, tentámos olhar para isto a partir de um conjunto deliberadamente misto de perspetivas. Somos um físico, uma geógrafa, um matemático, um investigador de literatura, um historiador, um químico, e partilhamos a nossa experiência usando o formato de um diário, vídeos e sons, assim como pequenos inquéritos internos no SJC, respondidos por um grupo mais alargado do que o nosso núcleo de discussão.

Queríamos transformar uma sensação familiar em algo mais estruturado: quão fragmentada está a nossa atenção, e o que é que isso faz ao trabalho que importa? As respostas foram difíceis de esquecer. Noventa e um por cento disseram que verificam o email por notificação ou mais do que uma vez por hora. Mais de metade só se desliga mensalmente, sobretudo nas férias, ou quase nunca. E 73% disseram que recusam regularmente pedidos de peer review – ou seja, a estrutura invisível da ciência avalia as publicações científicas. É aquilo de que todos nos queixamos, de que ainda dependemos para avançar na carreira, e que ainda queremos que seja boa.

Depois fizemos uma pergunta simples: o que é que “chega” significa no fim de um dia de trabalho? Algumas respostas foram pragmáticas. “Uma tarefa concluída”, “algumas horas de concentração”. Outras foram inquietantes. “Já não me lembro da última vez que senti isso”, “há sempre mais qualquer coisa”. É um tipo especial de cansaço, aquele em que o dia académico nunca acaba.

A esta altura alguém dirá, com razão, “aprendam a dizer que não”. Nós dizemos. Mas a lista das coisas a que dizemos que “não” — revisão por pares, convites para conferências, supervisão científica, comissões — é tudo aquilo que faz da academia uma comunidade. Dizer “não” torna-se uma tática de sobrevivência que é racional ao nível individual, mas corrosiva ao nível coletivo.

É aqui que a ideia de Slow Productivity surge como um novo paradigma e, talvez, uma saída da armadilha. Cal Newport, autor do livro homónimo, resume-a em três princípios: fazer menos coisas, trabalhar a um ritmo mais natural, obsessão pela qualidade. O objetivo não é ser preguiçoso, mas deixar de confundir movimento com significado. Complementámos esta leitura com outras vindas da literatura feminista e intersecional, para incluir na Slow Productivity uma política do cuidar, um leque de potenciais vulnerabilidades, e o desejo de transformação coletiva.

O nosso diário tornou isto concreto. Uma pessoa escreveu no diário que precisava da quantidade certa de ruído para que as ideias colidam. Outras descreveram o melhor pensamento como silêncio, uma construção lenta, uma espécie de coreografia interna. E este é o ponto central. Quando aceleramos o ambiente, não produzimos apenas mais. Produzimos diferente. Submetemos mais publicações, mais pedidos de financiamento, mas perdemos profundidade. Nas nossas reflexões, à pergunta “o que peço aos outros que sacrifiquem em nome da minha realização profissional?”, surgiram jantares em família em que a cabeça está a meio caminho, fins de semana que desaparecem, amigos adiados.

Se o problema fosse puramente individual, resolvíamo-lo com melhores hábitos. Mas o sistema recompensa disponibilidade constante e produção constante. Penaliza os investigadores que são lentos da forma que a ciência muitas vezes precisa. E se a justificação de que cientistas podem viver melhor numa academia organizada em torno de um ritmo mais humano não é suficiente, há uma outra. A de que a qualidade e o impacto da ciência nacional aumentam. Talvez o sistema científico português, que se modernizou muito nas últimas décadas, possa beneficiar de uma cultura de qualidade natural.

Então, o que fazemos? Não podemos fingir que há uma solução perfeita. Podemos experimentar coisas e avaliar se ajudam. Uma primeira tentativa é deixar tempo livre no sentido literal: blocos de tempo, que não sejam facilmente devorados por reuniões, como janelas previsíveis de trabalho profundo, tornando o direito a desligar-se uma norma. Devemos também ser suficientemente corajosos para experimentar qualidade em vez de quantidade.

O que aconteceria se, por um período, um departamento encorajasse os investigadores a publicar no máximo dois artigos por ano? Pode soar radical apenas porque normalizámos o contrário. E devemos ser honestos sobre quem pode iniciar esta mudança cultural. Investigadores em início de carreira não podem ser os que assumem o risco reputacional de abrandar num sistema que contabiliza velocidade. Esta mudança precisa de ser modelada e protegida por docentes em posições estáveis, por painéis de avaliação, por lideranças institucionais.

O Slow Food nunca significou rejeitar a modernidade, mas escolher para que serve a velocidade. A academia deveria fazer o mesmo. Se queremos melhor ciência, devemos parar de construir um mundo em que a única forma sustentável de a fazer é correr.

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

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