Só um

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Houve um dia, e eu não sei porque é que nunca mais me tinha lembrado disto, como é que uma coisa assim se dissolve na cabeça, em que o meu pai entrou em casa com um balde cheio de caranguejos vivos, o balde a pingar água salgada no mosaico da entrada, e trazia no rosto uma alegria aberta, quase infantil, que só lha vi outra vez no dia em que nasceu o meu irmão, e levantou a tampa de plástico com um gesto teatral, como se revelasse um segredo antigo, e disse que aquilo não era para comer, não senhora, era para mantermos os caranguejos soltos pela casa, pela sala, pelos corredores, como animais domésticos, e acrescentou que se pudesse escolher, de todos os animais perfeitos e imperfeitos da Terra, seria ele próprio um caranguejo.

A minha mãe arreganhou a tacha, e até hoje não sei se estava mais perto de rosnar ou de sorrir, convencida de que se tratava de mais uma parvoíce, uma entre tantas, dessas que ao meu pai davam mais gozo do que um bagaço ao fim da tarde, e por isso não fez fita, não se zangou, atirou-lhe apenas, com aquele escárnio doméstico que é uma forma de ternura mal disfarçada, um bom caranguejo me saíste tu, olha que bem enganada fui, pensei que tinha casado com uma lagosta fina e calhou-me este quatro patas que só anda às arrecuas, e eu ri-me, claro que me ri, porque havia ali qualquer coisa de irresistível, e o meu pai riu-se também, satisfeito com o efeito da sua entrada triunfal, e o meu irmão, com três ou quatro anos apenas, ainda impermeável ao sarcasmo dos adultos, continuava a empurrar o seu carrinho pela alcatifa, uma réplica impecável de um Mercedes topo de gama que os pais lhe tinham oferecido no Natal.

A minha mãe acabou por rir também, abanando a cabeça naquele gesto tão português, resignado, que se há-de fazer, é a família que temos, e foi então que o meu pai, como quem cumpre uma promessa solene, entornou o balde, vazio de água mas prenhe de caranguejos, e libertou-os no chão da sala. De repente a sala tornou-se um areal improvisado, um território de patas e carapaças.

O meu irmão começou a berrar, largou o Mercedes e correu para os braços da minha mãe, trepando por ela acima como um símio aflito, e a minha mãe desatou também aos gritos, não sei se mais furiosa com a praga de caranguejos que se espalhava velozmente pelo chão, alguns já escondidos debaixo do sofá, conquistando refúgios estratégicos, se com o peso do filho empoleirado no seu pescoço, e gritavam os dois, cada um por razões distintas, mas com a mesma força de pulmões, o pai está maluco! Apanha-me já esses bichos do chão, num carrossel incessante de duas frases que se repetiam como uma sirene doméstica.

E o meu pai olhava fascinado para os caranguejos que passeavam livres sobre o relvado doméstico, como se visse ali confirmada qualquer teoria íntima sobre a liberdade ou a excentricidade ou sei lá o quê, e eu, sem saber o que fazer, incapaz de suportar os gritos da minha mãe e do meu irmão, peguei no balde, agachei-me e comecei a recolhê-los um a um, com o nervoso de quem nunca tinha tocado num caranguejo — eu tinha apenas onze anos — devolvendo-os ao balde da pesca, e quando já lá estavam quase todos, improvisei uma tampa com uma almofada florida, rosa e azul, do sofá, pressionando-a com as mãos para impedir fugas, sob o olhar triste do meu pai, claramente contrariado, como se a sua decisão tivesse sido vetada por uma assembleia invisível chamada família.

Nunca percebemos o que lhe tinha acontecido nesse dia, nunca explicou se era brincadeira ou se falava a sério, se acreditava mesmo que podíamos ter caranguejos como animais domésticos espalhados pela casa, e quando eu estava quase a capturá-los todos ainda ouvi o meu pai sussurrar, só um, podemos ficar só com um?

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