Sofia Martins “não sabia viver numa cadeira de rodas”. Hoje, corre o mundo com ela

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“Vão e depois logo se vê”. É o mote da engenheira informática de Setúbal tão à vista como as selfies com Fernando, o seu marido, na porta do frigorífico. Um acidente de viação em Espanha deixou Sofia Martins paraplégica, mas não lhe tirou o amor pelas viagens. Aos 53 anos, já deu a volta ao mundo em 40 dias e ultrapassou centenas de obstáculos. Hoje, fala e escreve sobre eles para precaver os outros e apelar a um turismo acessível e inclusivo.

As férias no monte dos avós no Alentejo e as idas em “latas de sardinha” à Holanda no carro dos pais plantaram o bichinho das viagens. Enquanto os amigos iam para o Algarve, “nós íamos de carro para Espanha”, conta Sofia Martins.

O acidente e as viagens

A meio do curso universitário, um acidente de carro veio mudar a maneira como vivia e viajava. Em Espanha, longe da família e há 30 anos, altura que diz ser “completamente diferente de agora” por haver menos informação, Sofia tinha toda uma realidade para conhecer e novos obstáculos.

“Não sabia estar numa cadeira de rodas ou porque é que uma pessoa ficava numa cadeira de rodas ou como é que se vivia numa cadeira de rodas”, partilha.

Para Sofia, Espanha é um dos melhores países em termos de acessibilidades
Rui Gaudêncio

Estar no país vizinho naquela altura complicada “facilitou”. Numa cidade que diz ter boas acessibilidades, a jovem foi contagiada pela leveza do espírito espanhol e confortou-se nos amigos que fez. “Os espanhóis têm outra maneira de encarar as coisas”, opina Sofia.

“Para mim, Espanha é um dos países mais acessíveis do mundo e já era na altura. Portanto, eles encaram as coisas de maneira diferente e o facto de eu ter ficado assim lá e de ter feito muitos amigos em Espanha, nas mesmas situações do que eu, facilitou o processo”, acrescentou a engenheira que sublinha que, mesmo assim, foi uma altura difícil.

“Só ao fim do ano voltei para casa, porque sabia que ia ser difícil voltar para a realidade, voltar a estudar, voltar a encarar tudo aquilo que eu conhecia de maneira diferente. Portanto, tudo isso não foi fácil. Vai-se aprendendo a viver”, partilha.

Ao longo desse processo, descobriu que “a família e os amigos são a coisa mais importante que existe”.

Fernando, o seu marido, é quem planeia as viagens a dedo. Os hotéis, os voos e as reservas têm a preocupação adicional da acessibilidade. No início, devido à falta de condições, Sofia Martins tinha de levar uma tábua de madeira para onde quer que fosse. Era isso que a permitia tomar banho nas banheiras dos hotéis, que serem acessíveis era coisa rara de acontecer. “Sair de casa implicava que eu ia perder a minha independência”, acrescenta.

Ir à aventura também é possível, afirma, mas prefere ter tudo “organizado e tratado”. No avião, aí já não há muita escolha. Há que avisar e reservar com antecedência os lugares preparados e a assistência.

A Polinésia Francesa, Nova Zelândia, Turquia, Áustria, Alemanha, Bahamas, Islândia e Havai são só alguns dos destinos que Sofia Martins já percorreu. Em muitos deles, o comboio e o carro, este último preferido de Sofia pelo conforto, não são opção.

Resta então o avião que a obriga a ficar horas a fio sem ir à casa de banho e, às vezes, sem beber ou comer. Para tornar a experiência “mais cómoda, dentro do possível, a engenheira informática opta por fazer paragens entre os diferentes destinos e não ficar no ar durante mais de oito horas seguidas.

“Alguns requisitos para hotéis acessíveis” e “5 imprevistos que podem acontecer em viagem” são dois dos artigos do blog de Sofia
Rui Gaudêncio

“É uma opção minha, há pessoas que têm cadeira de rodas e preferem fazer de seguida e não fazer paragem, mas prefiro fazer paragens e não fazer viagens tão longas. Para não ir à casa de banho tenho que usar algumas estratégias: não bebo, não como, não bebo, quase que não respiro. E portanto, fisicamente é cansativo, conta.

O mundo em 40 dias

Mesmo com todos os percalços, Sofia Martins não deixou de viajar. Com o marido, sempre brincou com uma “volta ao mundo, mas o ano passado a brincadeira ficou mais séria. Começou com a viagem à Austrália. Lá os dois pensaram: “vá, mas ninguém vai à Austrália e não vai à Nova Zelândiae deram mais um saltinho. Depois, as coisas tomaram forma quando perceberam que estavam “perto de dar a volta ao mundo. Então, aproveitaram o balanço e cumpriram o sonho de ir à Polinésia Francesa.

Minimizando o mais possível os gastos e tentando encaixar vários destinos em tão curto período do tempo, a volta ao mundo de Sofia e Fernando fez-se, então, num roteiro com a Malásia, Austrália, Nova Zelândia, Polinésia Francesa e Estados Unidos, com escalas no Dubai, na ida, e em Toronto, na vinda. Entre as visitas, houve tempo para uma roadtrip de Los Angeles a São Francisco, de Queenstown a Christchurch, na Nova Zelândia, e de Sydney a Brisbane.

Sofia na viagem a Sarlat, França
DR

“Apanhámos calor, frio, chuva, tempo ameno, praia, campo, cidade, andámos de comboio, metro, barco, autocarro, carro e avião. Ficámos em hotéis razoáveis, uns melhores do que outros, mas suficientemente bons para aquilo que pretendíamos. Houve momentos altos e momentos menos altos, mas, no geral, foi uma experiência incrível e o resultado foi positivo, escreveu Sofia no JustGo, blogue que criou para promover práticas de turismo que tenham em conta as pessoas com mobilidade reduzida.

A ideia de criar esta espécie de diário online surgiu da dificuldade tinha em organizar as suas viagens. Para além de partilhar os lugares e os pontos icónicos que visita, o objectivo principal do Just Go “foi sempre chamar a atenção para a questão das acessibilidades, sublinha.

“Acho que foi a maneira que arranjei de falar sobre acessibilidades e de dizer ao mundo que elas são necessárias, de participar um bocadinho ou de contribuir um bocadinho para que o mundo se torne mais acessível. Portanto, tem estas vertentes todas: de ajudar quem quer ir, de ajudar quem acha que é difícil e que não consegue, de dizer que é possível e de chamar a atenção para as acessibilidades, completa.

Embalada com o projecto, também criou o podcast “Viajar é para todos”, onde conversa com pessoas que enfrentam condições relacionadas com a acessibilidade, mas que, muitas vezes, não são percepcionadas como tal, desde a diabetes à insuficiência renal.

As pessoas acham que a acessibilidade é uma pessoa em cadeira de rodas, só ela é que precisa de acessibilidade. E eu começo a ver que existem outras condições condicionadas pelas acessibilidades que desconhecemos. As pessoas têm o hábito de dizer que eu sou corajosa em viajar e eu vejo que há tantos outros corajosos que não estão em cadeira de rodas”, afirma Sofia.

Como que numa casa cheia de filhos, é-lhe difícil eleger um preferido. Mas Madrid, as praias francesas, a Muralha da China e a viagem ao Canadá são alguns dos destinos mais marcantes que destaca. Ainda assim tanta coisa está por fazer e em banho-maria há muitas [viagens].

Sofia numa das cidades em que mais se sente em casa, Madrid
DR

Próximos destinos? “Tailândia e Vietname”, deseja Sofia Martins, que já tem uma viagem à América do Sul “mais ou menos desenhada e pensada”.

Naquelas viagens em que o melhor dia era voltar para casa, eu pensava: ‘nunca mais vou viajar’, mas depois voltava e, assim que voltava, a sensação de superação que tinha quando chegava a casa fazia com que eu voltasse a viver, conclui Sofia Martins.

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