As maiores vítimas das tempestades são, novamente, os mais velhos, os que vivem isolados e abandonados.
São eles, cuja voz quase nem se ouve pelo desgaste dos anos, que mal sabem usar o telemóvel (que agora não funciona), que estão sem luz elétrica há dias e dias, que não têm força para reclamar, nem para preencher os impressos que lhes são exigidos.
Um estudo recente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto conclui que os idosos que apresentam níveis mais elevados de solidão são também os que utilizam com mais frequência os recursos de saúde, nomeadamente consultas, urgências e medicamentos. Por isso, recomendam-se mudanças estruturais na forma como a solidão é reconhecida e tratada.
Se a solidão e o abandono já eram um problema grave para este grupo etário — e as últimas reportagens televisivas sobre os lares ditos ilegais mostram bem a negligência que paira sobre ele — estas recentes calamidades vão torná-lo ainda mais grave.
Num dos países mais envelhecidos da União Europeia, o isolamento físico e social é um problema crescente — e não é exclusivo das zonas rurais e do interior. Pelo contrário, a solidão instala-se cada vez mais nos grandes centros urbanos, onde os vizinhos não se conhecem e não se falam. E onde não existem redes de apoio.
Talvez o exemplo recente mais chocante desta fragilidade social seja o da idosa, de 73 anos, que estava morta há dois anos, dentro do seu apartamento, num bairro do Porto, sem que os vizinhos ou as autoridades se apercebessem. Só o alerta da médica de família, que estranhou a sua ausência, levou a que o corpo fosse descoberto.
É urgente que, de uma vez por todas, se encontrem soluções para este problema adiado, fortemente agravado com a pandemia, mas nem por isso objeto de atenção especial. Falta coragem para fazer deste tema uma prioridade. Recorde-se que o que se passou com os mais velhos na covid-19 justificou em grande medida o PRR. Em vão…
A sociedade atual valoriza o bem-estar. Vamos então dar mais valor ao bem-estar dos nossos mais velhos, vamos transformar as suas vidas. E transformar não é ter como única alternativa a entrada num “lar” — ou asilo, como também lhe chamam, em tom depreciativo. Transformar é repensar o modelo de prestação de cuidados para esse grupo etário, antes de a dependência se tornar irreversível.
Aos hospitais continuam a chegar diariamente centenas de pessoas com doença crónica descompensada que acabam por ficar internadas indevidamente, os chamados “casos sociais”, ocupando camas de enfermaria durante meses e, por vezes, anos, sem qualquer solução à vista. Estas situações sobrecarregam os serviços de saúde e resultam, muitas vezes, da mesma realidade de isolamento: falta apoio social, resposta social ou acompanhamento no domicílio. O hospital torna-se, assim, a única resposta de segurança.
Portanto, impõe-se, desde já, criar condições para que os idosos permaneçam no seu domicílio. Uma solução que nos obriga a refletir sobre o modelo atual da sociedade, nomeadamente na flexibilização dos modelos de trabalho, no apoio às famílias cuidadoras e nos programas comunitários.
Reconheçamos a complexidade do problema e a necessidade de uma resposta estruturada, muito para lá do aumento de camas no setor social. É urgente repensar o envelhecimento, a forma como a sociedade cuida dos mais velhos, daqueles que já deram tanto de si. É tempo de olhar para todos eles com humanidade e gratidão, devolvendo-lhes o apoio, a rede e a dignidade que merecem.
Com fortes implicações na Solidariedade e Segurança Social, esta questão tem um impacto significativo na Saúde e, por isso, não pode ficar de fora do pacto, pretendido e reiterado pelo Presidente eleito António José Seguro. Trata-se de um problema que é de todos nós e, por isso, de todos exige uma resposta coletiva.
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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