Temos de parar de achar que os exames são iguais para todos

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Custa perceber que, embora a ciência e a pedagogia já tenham provado que esses métodos são limitados, enganadores e enviesados, a estrutura da sociedade, com políticos à cabeça, continue a usá-los como o “selo oficial” de um putativo “sucesso”.

Essa insistência só poderá ser entendida à luz de uma mistura de motivos pragmáticos, simplistas e até cínicos: há uma clara conveniência burocrática, e também desresponsabilização, porque é muito mais simples e barato processar gráficos e números e estatísticas do que analisar a complexidade humana de milhares e milhares de estudantes.

Vende-se a ilusão da meritocracia: o exame oferece uma “capa” de justiça ao “esforço” despendido. Quem se saiu melhor na arte de captar matéria para a despejar em folhas cerimoniais é porque se esforçou mais. Os outros não se esforçaram o suficiente, não tiveram o “mérito” necessário, pelo que terão de viver com esse peso.

Diz-se que “a prova é igual para todos”, ignorando propositadamente que as condições de partida (sociais, emocionais e históricas) são completamente desiguais e sem qualquer ponto de equidade. Ignora-se, também, que este tipo de prova não define mais ou menos capacidade.

O sistema de testes serve como um filtro que, na maioria das vezes, replica a estrutura de classes actual sem parecer que o está a fazer de forma propositada. No fundo, continuamos a usar um medidor de outro século (eugenista e industrial) para etiquetar pessoas, um medidor que é incapaz de detectar e valorizar outras formas de conhecimentos e/ou capacidade.

Temos, assim, um circuito vicioso e viciado: a conveniência administrativa fornece a ferramenta, a aceitação cultural normaliza o processo e a manutenção do status quo garante que as elites, que mandam no que é curriculum ou não, no que é informação ou conhecimento, ou o seu contrário, balizem as regras do jogo à sua medida. No fundo, os exames, como os testes, funcionam enquanto mecanismo de “lavagem de privilégio”, transformando a vantagem socioeconómica num resultado “científico” e “meritocrático”, perpetuando e validando quem já está no topo e convencendo quem está na base de que a falha é puramente individual ou biológica. É a eugenia moderna com uma roupagem mais burocrática e menos explícita.

Esta estrutura é tão duradoura porque, para derrubá-la, seria necessário abdicar da ideia de ranking entre pessoas, algo de que as nossas instituições (e o mercado) ainda não parecem dispostas a abdicar.

Pierre Bourdieu explicou, muitas vezes, que o sistema educativo serve para reproduzir a desigualdade, não para a eliminar. E a grande ironia é que mesmo quem se posiciona à esquerda acaba por reforçar esta hegemonia, com o discurso do “elevador social” e do “mérito escolar”, validando a narrativa neoliberal de que o sucesso depende apenas do esforço individual, ignorando as barreiras estruturais que Bourdieu tanto apontou.

Os exames são instrumentos excludentes. Como os testes e como as notas/classificação, ao contrário da avaliação formativa. Mas esta discussão fica para um próximo texto.

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