Tempestade Kristin: perguntas que precisam de respostas

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A depressão que viria a ser designada Kristin estava a ser monitorizada pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), pelo menos a partir do dia 27 de janeiro. Analisemos a cronologia da tragédia. No dia 30, às 12h30, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) deu uma conferência de imprensa em conjunto com o IPMA. Segundo este Instituto, a principal preocupação associada à passagem dessa depressão pelo continente deveria focar-se no vento “que seria forte, muito intenso, prevendo-se valores de 140km/h, não se excluindo que localmente esses valores pudessem ser superiores”. Os impactos esperados seriam durante a madrugada no litoral e numa faixa compreendida entre Setúbal e Viana do Castelo.

Na mesma conferência de imprensa o 2.º comandante nacional da ANEPC perspetivou que a Kristin apresentaria um elevado potencial para afetar a segurança de pessoas e bens, redes de comunicações, elétrica, ferroviária e rodoviária e terá sido decidido elevar o estado de prontidão especial da ANEPC para o nível 4 (o máximo) para a orla costeira entre Viana do Castelo e Setúbal e pré-posicionar um conjunto de meios em locais estratégicos. Informaram, ainda, nessa conferência de imprensa, que durante esse dia estariam em contacto permanente com o IPMA de modo a ANEPC poder ser informada com mais detalhe do local da entrada da depressão no continente

Às 16h14, na SIC, o IPMA prestou mais informações sobre a depressão Kristin, afirmando que a sua entrada no território continental seria entre as 3h-6h e teria um poder destrutivo considerável, aconselhando as populações a ficarem no interior das suas habitações e a baixar as persianas. Verificou-se que as regiões de Coimbra, Leiria, Figueira da Foz, Pombal, entre outras, vieram a ser atingidas gravemente pelo deslocamento da depressão Kristin. Os danos traduziram-se na disrupção das redes, destelhamento de edifícios, deixando uma vasta população dessas regiões sem energia elétrica, água e com as suas habitações sem condições de habitabilidade.

Ficam algumas questões que podiam ser respondidas pelos responsáveis pela segurança das populações e património: (1) entre a conferência de imprensa dada pela ANEPC às 12h30 do dia 30 e a aproximação da depressão Kristin ao continente houve atualizações por parte do IPMA do seu trajeto provável de modo ao reposicionamento dos meios pré-posicionados estrategicamente?; (2) o Comando Nacional de Operações de Socorro (CNOS) da ANEPC perspetivou o deslocamento da Kristin, em conjunto com o IPMA, entre as 21h de terça-feira e as 6h de quarta-feira, de modo a estimar as áreas de maior impacto, número de edifícios atingidos, número de desalojados?; (3) quantos membros do CNOS (composto por 13 elementos com cargos de chefia) estiveram na madrugada de terça-feira no Comando a seguir a situação em permanência?; (4) como se pode explicar que, segundo a página oficial da Internet da ANEPC, no dia 30, sexta-feira, estivessem apenas 752 operacionais no terreno a nível nacional? Na época dos incêndios florestais estiveram mais de 13.000 operacionais no terreno.

O sistema de proteção civil não teve capacidade de antecipar, com toda a informação disponível, os impactos prováveis, e fazer tudo para assegurar a disponibilidade do maior número possível de operacionais prontos a intervir nas inúmeras áreas que se antecipava virem a necessitar de reparação de estruturas (telhados, chaminés), desobstrução das vias por quedas de árvores, fornecimento de água, alimentos, etc. Não teve capacidade de planear uma logística de distribuição de bens necessários à população em conjunto com os agentes de proteção civil, entidades privadas e voluntários de um modo coordenado?

No futuro, poderão ser utilizadas novas ferramentas: estações do IPMA com triggers que alertem, em tempo real, o CNOS acerca de valores de intensidade do vento acima de valores pré-definidos. A Inteligência Artificial (IA) poderá ser utilizada na elaboração de múltiplos cenários e dos respetivos planos de atuação, bem com na análise dados numéricos, cartográficos e de imagens de satélite, com vista ao reconhecimento das áreas atingidas e à apresentação de propostas de atuação. Fica uma última pergunta: quando ocorrer um grande sismo na Área Metropolitana de Lisboa, o que vai fazer a ANEPC? Vai apenas receber a ajuda internacional?

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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