
Desta vez, a rã compreendeu em tempo útil que o escorpião não consegue nem quer contrariar a sua natureza, e que ambos teriam morrido no rio. A versão iraniana da velha fábula desenrola-se agora no estreito de Ormuz, e os aliados europeus de Washington decidiram dizer não a Donald Trump.
Não há ingratidão ou cobardia na recusa europeia (e asiática) aos pedidos norte-americanos de auxílio para reabrir o estreito por onde passava até há três semanas um quinto do petróleo mundial – um estreito encerrado pelos iranianos como mais que previsível consequência de uma guerra lançada sem pretextos nem metas claras.
Porque é que Trump mergulhou afinal o Golfo numa nova guerra? O programa nuclear iraniano não tinha sido já “obliterado” em 2025? A ameaça balística era tão mais grave do que a realidade das últimas semanas, com ataques retaliatórios sobre todo o Médio Oriente? A Casa Branca acreditava mesmo na velha fantasia neoconservadora, nunca materializada, de uma revolução democrática alimentada a bombas? Libertam-se os iranianos matando os seus filhos?
Foi Trump simplesmente enganado pelos israelitas sobre uma suposta ameaça iminente vinda de Teerão? Ou precisava Trump apenas de uma nova distracção ao ver-se cercado no caso Epstein?
Todas as opções. Ou outra qualquer. Ou nenhuma.
E qual é o plano agora, afinal? Como se decapita a Hidra de Teerão? Como se desbloqueia Ormuz? E se há mais mísseis iranianos que interceptores americanos? Quando é que se canta vitória?
É possível que o Presidente norte-americano não tenha ele próprio respondido em silêncio a qualquer uma destas perguntas. A recusa dos aliados é por isso racional. Não se entra numa aventura quando não se percebe porque começou, nem como terminará. Muito menos após um ano de humilhante espezinhamento, sem qualquer garantia de que o comportamento não seria imediatamente retomado depois da guerra, como escreve Anne Applebaum na The Atlantic – qual escorpião que pica a rã.
Os termos “risco moral” e “too big to fail” entraram-nos no quotidiano durante a crise financeira de 2008. O primeiro explica o risco da ausência de consequências das próprias acções – um banco toma decisões irresponsáveis porque sabe que os contribuintes estarão lá para pagar as perdas. O segundo liga-se ao anterior como uma pescadinha de rabo na boca – os contribuintes vão mesmo ter de salvar o dito banco, porque o colapso de uma instituição tão central arrastaria consigo todo sistema.
Estamos então no “momento 2008” do que resta da ordem mundial. Trump, contudo, tem reduzido o peso relativo dos Estados Unidos no mundo, paradoxalmente, ao querer “fazer a América grande outra vez”. Abriu assim uma janela de oportunidade para que não se perpetue o risco moral. Algum dia teria de se lhe dizer não.
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