Trump cortou o petróleo a Cuba. A China está a investir em energia solar na ilha

0
3

A China está a ajudar Cuba na corrida para produzir energia solar enquanto os Estados Unidos impõem um bloqueio petrolífero à ilha das Caraíbas, criando a sua pior crise energética em décadas —​ ainda nesta semana, a ilha sofreu um apagão eléctrico total.

A Administração Trump afastou-se dos compromissos climáticos assumidos pelos EUA e está a reinvestir em combustíveis fósseis. Já a China, está a aproveitar o domínio que tem no mercado das tecnologias de energias renováveis, e usa ofertas de equipamento, conhecimentos e financiamento como alavancas geopolíticas.

Pequim aumentou a assistência energética a Havana nos últimos anos, no âmbito de uma relação de segurança cada vez mais profunda, que alegadamente inclui estações de espionagem em Cuba que podem recolher informações sobre os Estados Unidos e os países vizinhos.

Esse apoio energético está agora a suscitar um interesse acrescido, numa altura em que o Presidente Donald Trump aumenta a pressão sobre o Governo cubano para iniciar negociações, cortando o fornecimento de petróleo e ameaçando invadir Cuba.

“Acredito que vou ter a honra de ficar com Cuba“, disse Trump na segunda-feira. Questionado sobre se isso significaria diplomacia ou acção militar, o Presidente norte-americano disse: “Ficar com Cuba de alguma forma… Quer a liberte, quer a conquiste, penso que posso fazer o que quiser com ela, se querem saber a verdade. Neste momento, é uma nação muito enfraquecida.”

Depois de o Exército dos EUA ter capturado o Presidente venezuelano Nicolás Maduro, e de ter sido morto o líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, bem como vários outros líderes do regime iraniano, as ameaças de Trump deixaram de parecer retórica vazia.

As Nações Unidas alertaram para o facto de Cuba, um país com 11 milhões de habitantes, estar já à beira de um colapso humanitário. Além disso, o país enfrentou uma grave crise energética, com apagões intermitentes que perturbaram operações críticas. Na segunda-feira, o Ministério da Energia de Cuba comunicou um “corte total” do sistema eléctrico nacional.

China contra a “interferência”

O porta-voz da Embaixada da China em Washington afirmou, em Fevereiro, que a cooperação energética com Cuba tinha alcançado “resultados frutuosos” e que iria continuar. “Opomo-nos à interferência injustificada de forças externas e rejeitamos quaisquer acções que privem o povo cubano do seu direito à subsistência e ao desenvolvimento”, afirmou o porta-voz Liu Pengyu, em declarações ao The Washington Post.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China falou com o seu homólogo cubano na semana passada, dias depois de Trump ter dito que a ilha estava em “grandes dificuldades”.

O investimento que a China faz há décadas nas tecnologias de energias renováveis está agora a ajudar a proteger Pequim da crescente crise do petróleo e do gás, estimulada pela guerra de Trump contra o Irão. Mas mesmo antes de os preços do petróleo e do gás terem disparado em flecha este mês, a China já estava a exercer o seu domínio, e Cuba é um dos locais onde isso é mais evidente.

As exportações chinesas de equipamentos fotovoltaicos para Cuba dispararam de cerca de cinco milhões de dólares, em 2023, para 117 milhões de dólares em 2025, e não mostram sinais de parar, de acordo com o grupo de reflexão britânico sobre energia Ember.

Rápida expansão

No ano passado, Pequim comprometeu-se a ajudar Cuba a construir mais de 92 parques solares até 2028, e, segundo as autoridades, mais de metade desses projectos já estão em funcionamento.

Imagens de satélite de 2025 mostram aglomerados de painéis solares a surgir numa questão de semanas. Já neste mês, o Governo cubano anunciou que a ilha tinha gerado, pela primeira vez, mais de 900 megawatts de energia fotovoltaica num segmento de meio dia.

Dado que as necessidades energéticas de Cuba são comparativamente baixas, mesmo uma pequena quantidade de energia adicional deu um contributo significativo. De acordo com Dave Jones, analista da Ember, a energia solar pode agora ser responsável por 10% da produção de electricidade em Cuba, contra quase nada há um ano.

Essa seria uma das expansões mais rápidas da energia solar de sempre, disse Jones, e poria Cuba à frente da maioria dos países —​ incluindo os EUA — na parcela de electricidade gerada pela energia solar.

“Cuba”, disse Jones, “está talvez a meio de uma das mais rápidas revoluções solares”. As autoridades chinesas deixaram claro que tencionam replicar o que estão a fazer em Cuba noutros locais.

A recente volatilidade no abastecimento de combustíveis fósseis ajudará a sua causa, dizem os analistas. “A dependência dos combustíveis fósseis está a destruir a segurança e a soberania nacionais e a substituí-las por subserviência e custos crescentes”, avisou Simon Stiell, secretário executivo da convenção sobre alterações climáticas das Nações Unidas, em declarações aos líderes europeus, em Bruxelas, na segunda-feira.

“A luz do sol não depende de estreitos marítimos vulneráveis”, declarou, em referência ao estreito de Ormuz. Uma das razões pelas quais Cuba está a crescer tão rapidamente é que as empresas chinesas não estão apenas a produzir e a exportar equipamento solar, mas também a facilitar a instalação, com empresas chinesas a trabalhar directamente em Cuba para construir parques solares.

Linha de produção de painéis solares numa fábrica em Hefei, na província de Anhui, na China: o investimento nas tecnologias renováveis tem sido uma aposta chinesa
CHINA DAILY/REUTERS

China “faz acontecer”

Isto é diferente de outros países que adoptaram em massa a tecnologia chinesa de energia limpa, como o Paquistão, onde os clientes têm sido, em grande parte, famílias e empresas individuais que compram e instalam painéis nos seus próprios telhados.

“A China não vai instalar uma série de pequenas centrais solares em todo o mundo”, disse Jones. “Por isso, o que estamos a ver em Cuba é algo único.”

Noutros locais, afirmou, as autorizações e os contratos governamentais para esses projectos podem demorar meses ou anos. Em Cuba, as empresas chinesas estão “a fazer acontecer”.

No entanto, a energia solar não ainda está nem perto de satisfazer as necessidades energéticas de Cuba. De acordo com os dados oficiais, os combustíveis fósseis representavam 95% da matriz energética de Cuba até ao início de 2024.

Trump afirmou que está disposto a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para levar o Governo comunista cubano, liderado pelo Presidente Miguel Díaz-Canel, a fazer um acordo que inclua várias concessões aos EUA.

O apoio da China “não vai fazer diferença suficiente” contra essa campanha de pressão, disse Evan Ellis, professor de Estudos Latino-Americanos no Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA.

Num discurso transmitido publicamente na semana passada, Díaz-Canel reconheceu que o aumento drástico da capacidade solar não foi suficiente para resolver a crise energética. “Mesmo com tudo o que estamos a preparar, continuamos a precisar de petróleo”, afirmou.

Segundo os investigadores, dado o clima tropical de Cuba e as infra-estruturas energéticas existentes, ainda há muito espaço para o crescimento da energia solar. O Governo cubano levantou neste mês os direitos aduaneiros sobre as importações de energia solar, e introduziu novos incentivos para que os particulares adoptem a energia solar.

“Há um caminho fácil para Cuba continuar”, disse Jones. Aquilo de que Cuba precisa a seguir é de sistemas de baterias, essenciais para armazenar a energia fotovoltaica para utilização durante a noite, quando os défices são mais graves, explicou.

Pessoas juntam-se na rua em Havana, durante o apagão total em Cuba esta semana
Norlys Perez/REUTERS

O armazenamento em grande escala em baterias é caro e pode ser difícil de instalar. Mas a China está a correr para melhorar a tecnologia, disse Jones, e os progressos nos últimos meses têm sido “incríveis”. “De acordo com os dados da Ember, as exportações chinesas de baterias no ano passado atingiram um nível recorde.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

Disclaimer : This story is auto aggregated by a computer programme and has not been created or edited by DOWNTHENEWS. Publisher: feeds.feedburner.com