Joshua Byers estava esperançado quando votou em Donald Trump em 2024. O funcionário administrativo, de 26 anos, acreditou no antigo e actual presidente quando este disse que iria baixar os preços e melhorar a vida da classe trabalhadora.
Mais de um ano depois do início do segundo mandato de Trump na Casa Branca, e perante a crescente preocupação com a guerra com o Irão, o arrependimento começou a instalar-se em Byers.
“Sinto-me traído”, disse Byers ao The Washington Post depois de participar num grupo de discussão com jovens eleitores nos arredores de Charlotte. “Não percebo porque estamos a combater [no Irão] se nunca fomos atacados”, afirmou ao grupo de cerca de duas dezenas de jovens. “Simplesmente não percebo porquê.”
As preocupações de Byers evidenciam um sentimento crescente entre os apoiantes mais jovens de Trump. Muitos dos participantes disseram ter acreditado na promessa de Trump em 2024, ajudando a impulsioná-lo de volta à Casa Branca ao captar mais apoio entre os jovens eleitores do que qualquer candidato presidencial republicano nas últimas duas décadas. Mas, com os preços persistentemente elevados, a percepção de que Trump está demasiado concentrado em conflitos internacionais e dúvidas sobre a forma como as autoridades federais estão a aplicar a política de imigração do presidente, muitos dizem agora questionar porque votaram nele.
A frustração destes jovens eleitores revela também uma vulnerabilidade mais ampla para os republicanos num dos pilares da coligação que sustentou o regresso político de Trump. O grupo de discussão na Carolina do Norte, sondagens recentes e um coro crescente de críticas por parte de influenciadores masculinos que apoiaram Trump sugerem que o desvio à direita entre homens no final da adolescência e na casa dos 20 anos, nas eleições de 2024, poderá ter sido um fenómeno isolado.
“Nem sequer diria que isto é viver”, afirmou James Wiest, técnico de máquinas de jogos de 23 anos, de Mooresville, Carolina do Norte, durante o encontro organizado pelo Instituto de Política da Universidade de Harvard. “É mais sobreviver.”
Uma sondagem Washington Post–ABC–Ipsos divulgada no mês passado revelou que 70% dos jovens entre os 18 e os 29 anos desaprovam a forma como Trump está a exercer a presidência, contra 29% que aprovam. Os jovens que apoiaram Trump também se mostram significativamente menos entusiasmados em votar nas eleições intercalares: apenas 51% dos eleitores entre os 18 e os 39 anos que votaram em Trump dizem ter a certeza de que votarão este Outono, comparados com 77% dos eleitores de Kamala Harris da mesma faixa etária.
“Já nem tenho muita vontade de votar”, disse Byers. “Estou mesmo a começar a pensar que não faz diferença. … Não quero sentir-me responsável por ter votado e depois sentir que fui enganado, que avaliei mal a situação ou que tomei a decisão errada.”
Os eleitores mais jovens também são mais propensos a reprovar a guerra no Irão, segundo outra sondagem do Washington Post divulgada na terça-feira. A maioria dos eleitores entre os 18 e os 29 anos opõe-se à campanha militar, em comparação com 40% de todos os adultos.
Os republicanos apoiam esmagadoramente a operação, mas a divisão geracional também existe dentro do próprio partido. A mesma sondagem concluiu que 51% dos republicanos e independentes inclinados para o partido com menos de 40 anos apoiam a acção militar, contra 73% entre os 40 e os 64 anos e 86% entre republicanos com 65 anos ou mais.
John Della Volpe, director de sondagens do Instituto de Política da Escola Kennedy de Harvard e moderador do grupo de discussão, disse que ficou claro para si que os jovens não estão convencidos da necessidade de envolvimento americano no Irão.
“A geração Z cresceu à sombra da guerra do Iraque”, afirmou Della Volpe. “Sabem como terminou — e são cépticos quando ouvem políticos dizer que desta vez será diferente.”
Jake Paul sobe ao palco
A Casa Branca afirmou, em comunicado, que a guerra no Irão está em linha com as promessas de campanha de Trump.
“O Presidente Trump fez campanha orgulhosamente com a promessa de negar ao regime iraniano a capacidade de desenvolver uma arma nuclear, objectivo que esta nobre operação procura alcançar”, afirmou o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle. “O Presidente não toma estas decisões extremamente importantes de segurança nacional com base em sondagens de opinião voláteis, mas sim no melhor interesse do povo americano.”
Reuters
Na semana passada, Trump tentou reforçar a sua mensagem junto dos jovens eleitores durante uma visita ao Kentucky, onde destacou os seus esforços para reduzir custos perante uma multidão de apoiantes que incluía alguns homens no final da adolescência e na casa dos 20 anos. Diante de faixas com as palavras “Preços mais baixos” e “Salários mais altos”, Trump convidou o youtuber e pugilista Jake Paul a subir ao palco. Paul falou sobre como Trump lhe ensinou “coragem”, e o presidente previu que ele concorrerá a um cargo político num “futuro não muito distante”.
Nos bastidores, Paul e Trump gravaram um vídeo para o TikTok em que fazem a dança “YMCA”, característica do presidente. Trump também participou no novo podcast de Paul, onde falou do papel decisivo que os influenciadores tiveram na sua reeleição, na sua “reencarnação” política e de como vê os combates de Paul a bordo do Air Force One, entre muitos outros temas. Depois de dar conselhos profissionais aos jovens, Trump apresentou várias explicações para a “incursão” no Irão, descrevendo os ataques dos Estados Unidos como preventivos e destinados a eliminar o programa nuclear iraniano.
Não abordou, contudo, em detalhe o impacto económico da guerra. “A economia está óptima”, disse Trump. “Damos algumas voltas durante algum tempo, mas temos de eliminar o mal.”
A questão é saber se o apelo aos podcasters será suficiente para manter os jovens eleitores do seu lado nos próximos meses. “Estamos a entrar na Terceira Guerra Mundial”, disse Wiest, ecoando as preocupações mais amplas do grupo de discussão sobre o conflito. “Todos os anos ficamos cada vez mais perto.”
Lilly Burrow, professora de 23 anos de Charlotte que votou em Trump em 2020 e 2024, afirmou no encontro que inicialmente apoiou os ataques por pensar que o objectivo era mudar o regime no Irão. Entretanto, mudou de opinião e considera agora que os Estados Unidos estão a “fazer o trabalho sujo de Israel”.
“Isso muda a forma como me sinto em relação a Trump”, disse Burrow. “Ele disse que não haveria novas guerras e que a gasolina ficaria abaixo dos três dólares por galão. … Neste momento não estou nada satisfeita com ele.”
Wiest, republicano, disse sentir-se desmoralizado e pouco provável de votar nas eleições intercalares de 2026.
“Concordo com a ideia de tornar a América grande outra vez, mas a forma como ele está a fazê-lo… não é quem eu pensava que iria governar este país”, afirmou depois do encontro. “Está muito concentrado em coisas que lhe dizem respeito, coisas que o irritam, e não se preocupa com aquilo que nos irrita.”
Durante muito tempo, estrategas políticos consideraram que os eleitores entre os 18 e os 29 anos eram liberais por defeito. Mas, nas eleições de 2024, os homens deste grupo deslocaram-se para a direita após anos de campanha da equipa de Trump para alcançar os cantos mais impregnados de testosterona da internet.
Byers e outros participantes disseram ter obtido grande parte das notícias sobre as eleições de 2024 nas redes sociais, incluindo através de influenciadores digitais. Byers recorda que um fluxo constante de conteúdos pró-Trump no TikTok o convenceu a apoiá-lo em detrimento de Harris, a candidata democrata.
Joe Rogan pára de apoiar Trump
Na recta final antes do dia das eleições, o polémico streamer Adin Ross ofereceu a Trump um relógio Rolex e uma Tesla Cybertruck decorada com uma imagem do presidente durante uma entrevista. Trump passou mais de três horas a discorrer sobre as suas falsas alegações de fraude eleitoral, vida em Marte e profecias sobre o fim do mundo numa conversa com o popular podcaster Joe Rogan. E falou sobre a tentativa de assassinato de que foi alvo em Julho de 2024 com o quarteto humorístico por detrás do podcast “Flagrant”.
Esses mesmos influenciadores que ajudaram Trump a aproximar-se dos jovens eleitores estão agora a utilizar as suas plataformas para criticar a guerra no Irão e a reconsiderar o seu papel nas eleições. Rogan, que apoiou Trump após a entrevista de 2024, classificou na terça-feira a guerra no Irão como “completamente insana” e afirmou que Trump “traiu” os americanos que o apoiaram.
“Fez campanha com a promessa de acabar com as guerras: pôr fim a estas guerras estúpidas e sem sentido. E agora temos uma que nem sequer conseguimos explicar claramente porque a iniciámos”, disse Rogan.
Andrew Schulz, um dos co-apresentadores de “Flagrant”, tem criticado Trump desde o ano passado por fazer precisamente o contrário do que prometeu na campanha. Num episódio do início de Março, ele e os colegas manifestaram perplexidade com a decisão de Trump de iniciar uma guerra.
“Naturalmente, os americanos estão furiosos com isto, certo?”, disse Schulz. “Porque pensamos: ‘Como é que isto me beneficia? Não consigo pagar a universidade. Não consigo comprar casa. Não consigo pagar seguro de saúde. E vamos gastar milhares de milhões de dólares numa guerra num país que nem sequer consigo apontar num mapa.’”
Ross, que usou um boné branco “MAGA” durante a transmissão com Trump em 2024, também já expressou arrependimento por se ter associado à campanha.
“Agora que olho para trás, gostaria mesmo, mesmo de nunca me ter metido na política”, disse Ross ao seu público em 2025. “Tanta gente passou a associar-me a isso e, aconteça o que acontecer, nem sequer chegam a conhecer quem eu sou. Acho que nunca mais me voltarei a interessar o suficiente por qualquer político.”
O sucesso de Trump junto dos jovens eleitores não se limitou aos homens. A campanha também conquistou jovens mulheres como Faith Peavey, intérprete de Língua Gestual Americana, de 21 anos, e republicana que afirmou ter votado em Trump em 2024 “com cautela”, por considerar que a campanha de Harris era demasiado caótica.
“Tem sido definitivamente frustrante vê-lo fazer coisas que não prometeu fazer e não fazer coisas que prometeu”, disse Peavey.
Peavey afirmou não responsabilizar todos os republicanos pelo que sente em relação a Trump, mas disse que gostaria de ver mais mecanismos de controlo sobre o presidente — um argumento que os democratas já utilizam na tentativa de recuperar a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. As suas preocupações ilustram a ideia, partilhada por outros jovens eleitores, de que Trump não está concentrado nas questões certas.
“Alguma vez disse que estava a planear atacar estes países?”, perguntou, retoricamente, dirigindo-se ao presidente. “Estamos a travar as batalhas erradas.”
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