Um em cada dez portugueses não faz os tratamentos dentários necessários, a maioria por falta de dinheiro

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Em 2024, Portugal já era o quinto país da União Europeia (UE) com maior proporção de pessoas com necessidades de cuidados dentários não satisfeitas (9,9%) — mais do dobro da média europeia (4,6%) —, e a tendência está a agravar-se. No ano passado, a proporção subiu para 10,2%, sendo que a maioria invocou dificuldades financeiras como principal motivo para não fazer os exames e tratamentos dentários de que necessita.

É o retrato de um país em que os baixos rendimentos continuam a impactar no acesso aos cuidados de saúde, em especial na saúde oral, cuja resposta no Serviço Nacional de Saúde (SNS) continua muito aquém das necessidades.

Os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2025, divulgados nesta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), indicam que, naquele ano, 59,6% da população residente com 16 ou mais anos referiu ter consultado um dentista, nos últimos 12 meses, mais do que em 2022 (57,4%) e do que em 2017 (53,4%). O problema não está apenas no acesso às consultas de medicina dentária, mas sobretudo na concretização de exames e tratamentos.

No caso da medicina geral e familiar, a proporção de utentes que tiveram consulta nos últimos 12 meses (79,5%) registou melhorias face a 2022 (75,5%), mas piorou face a 2017 (81,3%). Os resultados do inquérito indicam também que 53,3% da população teve uma consulta de outra especialidade no ano anterior. Nos três casos — medicina geral e familiar, medicina dentária e outras especialidades — mais mulheres do que homens tiveram consultas.

Os dados do INE revelam que 3,8% das pessoas não tiveram as suas necessidades de exames ou tratamentos médicos satisfeitas, e 10,2% não colmataram as necessidades de cuidados dentários. Por motivos diferentes: as listas de espera foram o principal obstáculo invocado por 39,6% das pessoas que não fizeram os exames e tratamentos médicos; enquanto a falta de disponibilidade financeira foi a razão avançada por 76% das pessoas que não concretizaram os seus exames e tratamentos dentários.

Em 2025, 47,2% dos agregados familiares avaliavam os encargos financeiros com cuidados dentários como pesados. Uma proporção mais elevada do que a observada para os encargos com medicamentos (45,7%) e, sobretudo, em relação aos cuidados médicos (39,3%). Esta avaliação negativa era maior entre as famílias em risco de pobreza e nos agregados familiares com idosos.

Assimetrias regionais

Ainda sobre as consultas de medicina dentária, os resultados do inquérito do INE mostram que são os jovens, as pessoas empregadas e com mais escolaridade que mais visitam o dentista. Em contraste com os mais idosos, com os desempregados e reformados e com os menos escolarizados.

E as assimetrias são também geográficas, com as regiões norte e da Grande Lisboa a concentrarem a maior proporção de pessoas que tiveram uma ou mais consultas no dentista em 2025, ambas com 63,3%. Por oposição, foi no Alentejo e nos Açores que menos pessoas foram ao dentista naquele ano.

Já as consultas com médico clínico geral ou de medicina geral e familiar foram mais frequentes nos grupos etários mais avançados, entre os reformados e as pessoas com menos escolaridade.

“Não existem diferenças significativas no acesso às consultas de clínica geral/medicina geral e familiar entre a população em risco de pobreza e a restante população. Porém, ao contrário do que foi observado para as consultas de clínica geral, a proporção de pessoas em risco de pobreza que tinham consultado um médico especialista era visivelmente mais baixa (46%) do que a obtida para a restante população (54,6%)”, descreve o INE.

Num zoom às regiões, sobressaem as que têm maiores carências de médicos de família. Depois das regiões autónomas, a península de Setúbal (24,9%), a Grande Lisboa (23,8%) e o Algarve (23,3%) foram as regiões com maior proporção de população sem qualquer consulta com médico de família em 2025. Na região norte, aquela proporção foi de 16,9%.

Os resultados do inquérito revelam também que 53,5% da população residente com mais de 16 anos referiu ter consultado médicos especialistas em 2025 (com excepção de medicina geral e familiar, estomatologistas e dentistas).

E os residentes na Grande Lisboa recorreram mais a especialistas (58,1%) do que os das restantes regiões. Pelo contrário, no Algarve (47,0%) e nos Açores (47,2%) foram menos de metade os residentes que recorreram a consultas de especialidades nos 12 meses anteriores ao inquérito do INE.

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