Um Nobel da Paz para a gasolina a quatro dólares

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Esqueçam Manhattan. A América não é Friends e pouco se faz sem um automóvel fora de um punhado de grandes metrópoles norte-americanas. Não ter um carro é sintoma de pobreza e uma sentença de exclusão. As distâncias são grandes, os veículos são pouco eficientes, mas a abundância e auto-suficiência de recursos energéticos vai permitindo este e outros estados de coisas nos Estados Unidos. Quando não permite, temos um problema, Houston.

Os quatro dólares de preço médio por galão (3,7 litros) de gasolina não impressionam demasiado o leitor português. Nos EUA, são combustível para um fogo político. A marca não era atingida desde 2022 e Donald Trump voltou do seu breve exílio também por aí, prometendo fazer descer os preços dos combustíveis. Estes regressam agora ao pico da era Biden.

Trump afirma que a dor é temporária e que a gasolina vai baixar com o fim da guerra no Irão. Mais cedo descobrimos os limites da tolerância à dor por parte do Presidente republicano do que a data ou os contornos do desfecho do conflito. 

Os americanos não votam a pensar em política externa, já o dissemos, mas para os seus bolsos. Em ano de eleições intercalares, quase tão decisivas como umas presidenciais, Trump está agora abaixo dos 40% de taxa de aprovação. A YouGov e a Universidade do Massachusetts colocam o republicano já nos 33%: só um em cada três inquiridos apoia o republicano.

São estes números e os dos painéis de preços nos postos de combustíveis que levam Trump a abandonar a guerra que iniciou com Benjamin Netanyahu, e não o cumprimento dos objectivos estratégicos que o líder norte-americano e a sua administração foram elencando ao longo do último mês.

Mudança de regime? A estratégia de decapitação israelo-americana conheceu os seus limites na profundidade do “banco de suplentes” de uma teocracia que se preparou durante anos para sobreviver a este momento. Depois de Khamenei pai vem Khamenei filho, depois deste outro qualquer, e sem sinais de moderação. Mudam-se os nomes, permanecem as instituições. A Guarda da Revolução, com os seus comandos descentralizados, cada um com autonomia de decisão, também. O regime não morreu pelas bombas que caem do ar, nem pela revolução popular que Trump pediu e não se concretizou. (Não foi por falta de coragem dos iranianos, que morreram aos milhares em Janeiro para protestar contra os seus líderes.)

Fim do nuclear? O Irão continua a esta hora a ter em sua posse uns 400 quilos de urânio altamente enriquecido para fabricar uma dezena de bombas atómicas. Rafael Grossi, director da Agência Internacional de Energia Atómica, diz que a guerra apenas atrasou, mas não irremediavelmente, aquilo que Teerão quiser fazer. Agora, com incentivo acrescido. A ala dura do regime, a ganhar terreno durante a guerra, pede o fim da doutrina nuclear da era Khamenei e a saída do Irão do Tratado de Não-Proliferação.

Fim dos mísseis? Meia-vitória. Sim, a capacidade de produção da indústria iraniana de defesa foi severamente afectada por um mês de bombardeamentos intensos e o fluxo de mísseis e drones a voar como aos vizinhos do Golfo e a Israel está a diminuir. Mas não cessou ainda.

E a reabertura estreito de Ormuz? O mundo sai desta guerra com um problema que não tinha antes, e com Trump a passar o ónus da sua resolução para os aliados regionais e europeus.

Não é por isso claro que fim da guerra será este que se desenha, ou quando chegará. Mas Trump encontrará forma de declarar vitória. Não por tê-la alcançado, mas porque com a gasolina a quatro dólares não vai a lado nenhum.

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