Inspirada no canto VIII dos Lusíadas, a série produzida por Cristiano Mangovo inclui uma tela que representa as lutas de Vasco da Gama durante as suas expedições e quatro desenhos sobre papel que ilustram vários aspetos da epopeia camoniana na qual se entrelaçam ficção histórica e realidade poética. As obras são compostas por símbolos fortes, como a cruz dos Templários, os navios emblemáticos da frota portuguesa, as espadas e os sabres dos conflitos armados, bem como as mercadorias negociadas pelos navegadores. A justaposição de motivos de cores vibrantes e luminosas com outros sombrios e melancólicos explicita o contraste entre aspirações e contingências, ideais e tormentos, seduções e traições, glórias e desilusões que estão no centro da obra de Camões. Mas, para além da abordagem ilustrativa do texto, o artista infunde tudo com uma interpretação pessoal, ela própria impregnada da crítica de um olhar retrospetivo, ao mesmo tempo contemporâneo e oriundo de outro lugar.
Metáfora e expressividade são dois elementos-chave na aproximação da obra de Mangovo. Embora imediatamente reconhecíveis e repetitivas nas suas fórmulas visuais, as suas imagens exalam uma imaginação que se expressa através de uma linguagem singular. No entanto, o seu sentido de invenção formal está sempre enraizado na realidade quotidiana, histórica ou literária e é desenvolvido a partir de temas escolhidos e pensados antecipadamente. Com as suas caricaturas, as obras de Mangovo destacam questões sociopolíticas, tanto a nível comunitário como global. Apesar da forte presença do ambiente circundante e cultural, a sua linguagem visual distancia-se de qualquer realidade objetiva, apresentando visões distorcidas, irreais, excêntricas e atormentadas onde se misturam o infantil e o esquemático. Assim, as obras do artista são simultaneamente caracterizadas por um realismo sócio-político e uma forte idiossincrasia estética e estilística, conjugando dimensões críticas e fantasmagóricas.
A assinatura artística de Mangovo caracteriza-se ainda por linhas, cores e ritmos enérgicos e arrojados. A parte central da tela é frequentemente composta por motivos orgânicos, figuras fragmentadas e carrancudas que estão em movimento, ação ou interação. Destacam-se de um fundo neutro, monocromático e plano. Assim, as cenas centradas na representação figurativa do ser humano, onde os atributos, objetos, signos e símbolos são muitas vezes identificáveis, combinam-se com a ausência de perspetiva e com a abolição da espacialidade. Associado à rapidez na execução, tudo isto contribui para criar uma espécie de expressionismo figurativo repleto de evocações, relatos e discursos morais.
Os motivos que o artista usa são recorrentes, como as caras com duas bocas que evocam tanto a censura e o controlo — praticados em especial nos regimes autoritários —, como também a promessa de uma palavra libertada. Focando temas complexos através de uma lente satírica, o olhar de Mangovo, com a inclusão de tipos e arquétipos, e a sua atenção à injustiça, à desigualdade, à pobreza e aos conflitos pós-coloniais, vai além das especificidades locais para alcançar uma dimensão universal. Ao fazer uso, nas suas composições, de uma gama polifónica de traços «humanos, demasiado humanos», para citar Nietzsche, o artista joga com todos os registos, do espectral ao efusivo, do cómico ao trágico, do sobrenatural ao trivial, do hierático ao grotesco e do sagrado ao profano. Cristiano Mangovo é um dos pintores mais prolíficos da geração angolana do pós-guerra.
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