Um trunfo chamado estreito de Ormuz

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Muitas vezes é utilizada a expressão “vespeiro do Médio Oriente” para descrever a complexidade política, religiosa e geográfica de uma região que é fundamental para o mundo desenvolvido, por causa do petróleo e do gás. O investigador Tim Marshall cunhou também uma outra expressão que revela agora todo o significado, para designar os países cuja localização tanto pode ser uma bênção como uma maldição: “prisioneiros da geografia.”

O Irão tem uma área geográfica superior à França, Alemanha e Reino Unido juntos e é uma nação orgulhosa, herdeira de um passado imperial e da civilização persa. Mas também é uma teocracia fechada e repressiva das mais sanguinárias, que não hesita em matar os seus cidadãos aos milhares por se manifestarem contra a liderança dos ayatollahs e a degradação das condições económicas e sociais, que deixam cerca de 80% do povo no limiar de pobreza. Tem também um enorme poder militar, dos mais poderosos no Médio Oriente, e uma polícia secreta temível, disseminada por todos os cantos do país. É o 8.º maior produtor de petróleo e tem um grande trunfo que lhe foi dado pela geografia: o estreito de Ormuz.

Era certo e sabido que o Irão nunca deixaria de usar o estreito de Ormuz como arma de guerra no caso de ser atacado e a sua sobrevivência estivesse em jogo. E a verdade é que a sua estratégia tem sido terrivelmente eficaz. Sabendo que não pode atingir diretamente de forma efetiva Israel e os Estados Unidos, procura pôr o resto do mundo contra estes dois países, atacando refinarias e os navios que tentam passar pelo estreito, por onde circula cerca de 20% do petróleo dos países do Golfo que alimenta a economia mundial, causando assim perturbações brutais a nível planetário.

Israel e os Estados Unidos estão a arrastar o mundo para uma guerra sem sentido, que pode terminar da pior maneira, cegos e surdos às críticas que recebem de todo o lado e aos apelos insistentes para que parem. Os preços do petróleo estão a subir em flecha e isso vai trazer uma enorme instabilidade política em todos os países, porque os seus orçamentos nacionais não tiveram em conta o aumento brutal do preço do petróleo e do gás, que nada parece travar.

Como referiu o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, que se demitiu em protesto contra a guerra, não havia nenhuma necessidade de atacar o Irão, porque não representava nenhuma ameaça iminente, além de ser absolutamente previsível que as consequências seriam muito negativas a todos os níveis, económica e politicamente. E, como se tem visto, além de terem avaliado mal as consequências, subestimaram o Irão, que está decidido a lutar pela sua sobrevivência a todo o custo. O pior de tudo é que, como já se vai percebendo, esta guerra pode prolongar-se muito para além do que se pensava inicialmente e tornar-se mesmo um conflito de dimensão global.

Se assim acontecer, a economia mundial continuará a degradar-se, com o custo de vida sempre a subir, mais desemprego, falências e as bolsas a cair. Sabe-se como uma guerra começa, mas nunca como nem quando acaba. Veja-se a guerra da Rússia contra a Ucrânia, que devia durar quatro dias e já vai em mais de quatro anos.

O estado de guerra permanente em que o mundo se vai habituando a viver é profundamente preocupante e degradante para a condição humana, com a banalização da morte e da destruição, em Gaza, no Irão e no Líbano, com total desprezo pelo direito internacional, pelos direitos humanos e pelas Nações Unidas. Destruiu a ordem mundial nascida após a Segunda Grande Guerra e criou uma desordem que será fatal para o mundo.

Não menos ultrajante é ouvir o Presidente dos EUA dizer que “os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo. Por isso, quando os preços sobem, fazemos muito dinheiro”, como se a guerra até lhe estivesse a dar jeito, para além, claro, do que o país está a faturar com a venda de armas. O mundo quer e precisa de paz. Não de guerras.

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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