Vai um cafezinho aí? Pode ser na chávena ou na xícara, escaldado, garoto ou carioca

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Portugueses e brasileiros partilham a paixão pelo café há, pelo menos, dois séculos. Mas, lá e cá, o modo de pedir a bebida tem suas particularidades e causa alguma confusão: de um lado, clientes brasileiros costumam fazer seus pedidos nas cafeterias como estão acostumados e quem está do outro lado do balcão precisa perceber a equivalência.

No outro lado, com maior complexidade, estão os brasileiros e brasileiras que passam ao outro lado do balcão e trabalham com atendimento. A gerente da Pastelaria Suíça, em Lisboa, Fernanda Corrêa, que está há três anos em Portugal, tomou o primeiro susto logo no primeiro atendimento no balcão. “A cliente pediu ‘café escaldado’ e eu fiquei sem entender. Mas ela foi muito gentil ao explicar que nada mais era do que servir o café na chávena — ou xícara, como se diz no Brasil — passada pela água quente”, recorda.

Depois do primeiro contato, ela recebeu ajuda de um colega português que a versou sobre o verdadeiro dicionário em torno do café. “No Brasil, costumamos separar entre ‘café’, para o passado no filtro, e o ‘espresso’, para o retirado da máquina, com variações com ou sem leite”, diz. Este último, eventualmente pode ser chamado de ‘carioca’, que, em Portugal, já é outra bebida.

Fernanda Corrêa é a gerente da Pastelaria Suíça, em Lisboa
DR

Aliás, na seara dos cafés mesclados ao leite, as versões mais comuns em Portugal são a ‘meia de leite’, em uma proporção igual de leite e café, e o ‘galão’, servido em uma caneca ou xícara mais avantajada. “Uma vez, uma colaboradora que tinha recém começado veio perguntar se havia água de galão porque o cliente havia pedido um ‘galão’. Tivemos que explicar a confusão”, diverte-se.

Outro termo que costuma causar algumas dúvidas é o ‘garoto’, que, na maioria das vezes, é um café com um pouquinho de leite. Mas, não só. “A depender do cliente, há os querem com uma gotinha de leite. Outros querem com espuma. Então, varia entre o que é o ‘garoto’ para cada um.”

Diferenças à parte, Fernanda garante que, apesar de eventuais lapsos de entendimento, ao fim e ao cabo, todos se entendem. “Geralmente, há compreensão e diálogo dos dois lados. A maioria dos nossos clientes portugueses tem mais idade e paciência para explicar. E os colegas que estão ao balcão, vontade de aprender. E todo mundo sai com seu cafezinho ao gosto.”

Origem das palavras

De acordo com o gastrônomo Virgílio Nogueiro Gomes, são pelo menos 20 modos de pedir de café em Portugal, a maioria relacionada ao comportamento do consumidor. “É muito difícil dizer como começam as práticas, mas costumam atender às necessidades do mercado”, afirma.

Por outro lado, os nomes podem vir de informações relacionadas ao produto, como é o caso do portuense ‘cimbalino’. “As primeiras máquinas de tirar café no norte eram da marca La Cimbali e veio a derivação para o café mais usual, que, na região de Lisboa, costuma ser chamado de ‘bica’ por causa da cafeteria A Brasileira, que, no passado, recomendava em uma placa: Beba Isso Com Açúcar [BICA]”, diz o gastrônomo. Em torno da ‘bica’, há outra vertente que defende que o nome tem a ver com a torneirinha por onde sai o café.

Nogueiro Gomes lembra que, para além dos termos mais antigos, já impregnados na rotina dos portugueses e de muitos estrangeiros que vivem aqui, há coisas que surgiram mais recentemente, como o ‘café sem princípio’, que consiste na bebida mais leve, sem o primeiro jato na hora da extração. “Para mim, é algo que não faz muito sentido, porque é esse primeiro jato que faz a espuma e concentra sabores. Já cheguei ao ponto de brincar com uma cliente ao meu lado e pedi para deixar para mim essa parte, que é muito boa”, revela.

Viajante habitual ao Brasil, ele diz que, por vezes, se pega a usar os termos aos quais estão habituados por lá. “Claro que não percebem e tenho que simplificar”, diz.

Mona Karenina e Luísa de Almeida, do Soma Café
DR

Cafés especiais

Se a cena já era diversificada com o vasto vocabulário dos portugueses usado nos espaços onde se consome a bebida, com a proliferação dos cafés especiais por Portugal o dicionário em torno do produto ficou ainda mais diversificado.

De acordo com Luísa de Almeira, coproprietária do Soma Café, do Porto, a chegada de termos em inglês por influência especialmente nórdica, causa alguma confusão nos pedidos. “É um outro patamar. Há muito anglicismo e termos como, por exemplo, o ‘flat white’, que pode ser equiparado à ‘meia de leite’ portuguesa ou ao ‘café com leite’ brasileiro”, diz a “poliglota” quando o assunto é café. “Já o ‘galão’ é mais próximo do ‘latte’”, ensina.

Já com mais simplicidade, ela aponta a ‘bica’ e o ‘cimbalino’ como as equivalências do ‘espresso’. “Já o ‘pingo’ pode ser pedido como ‘cortado’ ou ‘macchiato’, que na verdade vem do italiano”, diverte-se.

Diferenças à parte, neste vasto dialeto intercultural do café, o que vale mesmo é encher a xícara — ou a chávena — com uma boa dose dessa bebida que é uma das tantas paixões partilhadas entre Brasil e Portugal.

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